Premium A Europa vista de Cannes

A nossa Europa passou por alguns dos filmes mais interessantes da 72.ª edição do Festival de Cannes. Há cineastas apostados em convocar-nos para a necessidade de repensar problemas globais a partir de histórias muito particulares.

Enigma adolescente, corpo ágil, olhar inteligente e triste. O jovem Ahmed vive através de dois instrumentos que utiliza como armas. Observe-se a imagem: em primeiro lugar, há o Alcorão, sempre a seu lado, objeto sagrado que lê e interpreta de modo literal e fundamentalista, confirmando, e até exponenciando, as sugestões bélicas do seu imã; depois, Ahmed explora a internet como uma paisagem que lhe serve de companhia em permanente transfiguração, de alguma maneira desenhando na sua imaginação os contornos de um paraíso redentor.

O novo e admirável filme de Luc e Jean-Pierre Dardenne, Le Jeune Ahmed, apresentado na secção competitiva do Festival de Cannes (onde os irmãos belgas já ganharam duas Palmas de Ouro), não é, entenda-se, uma "tese" sobre o fundamentalismo islâmico. Se nos recordarmos de outros títulos da sua filmografia, por exemplo Rosetta e A Criança (precisamente os que arrebataram a Palma, respetivamente em 1999 e 2005), compreendemos que o seu cinema nunca cedeu à facilidade de transformar um tema, seja ele qual for, numa pequena coleção de imagens estereotipadas ou sound bites, promovida a resumo de qualquer drama social ou político. Recordemos também o belíssimo Dois Dias, Uma Noite (2014), com Marion Cotillard, sobre os conflitos numa fábrica assombrada por uma vaga de desemprego.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.