Espantos e vergonhas

Situações como a do dinheiro angolano e Portugal são exclusivas do nosso país? Claro que não. Ver órgãos de comunicação social estrangeiros e mesmo governos a apontar o dedo a Portugal e à nossa colaboração com cleptocratas é de uma hipocrisia sem nome.

As informações que vieram de um hacker ou de um grupo de hackers, talvez mesmo do Rui Pinto e, era capaz de jurar, de fontes internas da Sonangol e que depois foram tratadas por uma organização de jornalistas não são exatamente uma novidade. Melhor, não me parece que exista um único cidadão que esteja convencido de que a origem da gigantesca fortuna da filha de José Eduardo Santos tenha vindo da venda de ovos pelas ruas de Luanda, como tão bem pôs em poema o Nicolau Santos. Digamos que há muitíssimas razões para que os detalhes que foram revelados não fossem uma exceção daquilo que foi e, pelos vistos, continua a ser um padrão de funcionamento.

No mesmo sentido, está a ser de deixar o queixo colado ao peito assistir a tanto discurso a chamar à atenção para o envolvimento empenhado de portugueses nas iniciativas da Isabel dos Santos. Mas há quem não saiba que foi meio Portugal a colaborar e a outra metade a olhar para o lado? Poucos, muito poucos não o fizeram.

Mas quantas fotos em gloriosas festas de políticos em funções e, sobretudo, depois de saírem de funções é preciso mostrar? Quantos ministros foram trabalhar para empresas que operavam em Angola? Quantos discursos de empresários portugueses a falar da excelência empresarial de uns cavalheiros cuja principal habilidade foi estar nas boas graças de José Eduardo dos Santos é necessário lembrar? Foi uma classe política em peso (de repente, recordo o inefável Machete a pedir desculpa por um processo judicial) e os nossos maiores empresários (nota para Pedro Santos Guerreiro, que se fartou de denunciar várias situações, quer nas empresas quer na política) e que trataram nas palminhas gente que, todo o mundo sabia, trazia dinheiro decorado com a fome e a miséria de todo um povo, um povo irmão, homens e mulheres com quem partilhamos muito mais do que uma língua.

Não quero hierarquizar responsabilidades nem relativizar o que quer que seja, mas é preciso lembrar que foi o poder político que deu carta-branca a empresários e a facilitadores para operarem com à-vontade. Todos os governos.

Há, no entanto, uma parte humorística nisto tudo: ver a quantidade de gente que ontem adulava Isabel dos Santos e que hoje a abomina. E, claro, assistir à preocupação com as falhas dos reguladores, com os gestores de empresas ligadas a Isabel dos Santos e com eventuais irregularidades. Mas descobriram agora, foi? Acordou tudo com o Luanda Leaks, foi? Vão gozar com a tia. Mas, pronto, condene-se cá no burgo quem tem de se condenar com as provas que agora parece haver.

Situações como a do dinheiro angolano e Portugal são exclusivas do nosso país? Claro que não. Ver órgãos de comunicação social estrangeiros e mesmo governos a apontar o dedo a Portugal e à nossa colaboração com cleptocratas é de uma hipocrisia sem nome.

Isabel dos Santos e o resto das pessoas a quem foram oferecidos os recursos de um país são quase pelintras à beira dos russos que compraram metade do imobiliário londrino, dos sheiks sauditas que são acionistas das maiores empresas do mundo, dos ditadores africanos que se reformam na Riviera francesa e de uma imensa lista de ladrões dos seus povos.

Os líderes que oferecem jantares de Estado aos que assaltam os seus países e mantêm na miséria milhões e milhões são os mesmos que querem travar a fuga dos refugiados à fome que os que ontem bajularam semearam.

E os senhores de Davos, os que cancelaram a presença de Isabel dos Santos? Logo em Davos, onde há a maior concentração de gente que se dedica a fugir às responsabilidades que têm perante as comunidades não pagando impostos e operam em paraísos fiscais por esse mundo fora.
Falar de solidariedade entre os povos é algo de muito bonito e de muito desejável, mas não é a realidade, nunca foi. O facto é que um político português não está muito preocupado se o povo angolano ou o russo ou o nigeriano está a ser roubado. Meia dúzia de tostões para criar umas centenas de postos de trabalho numa empresa faz que um político nacional veja milhões de esfomeados como um longínquo pormenor. Um investimento numa empresa que permita que um capitalista português ou inglês ganhe mais uns milhões à custa da fome de um povo estrangeiro não o fará estremecer.

Devemos acreditar que o regime angolano agora tem um sistema de justiça impecável? Ou seja, há uns meses era um sistema que deixava passar os mais incríveis assaltos ao erário angolano. Subitamente purificou-se. Ou seja, os que ainda ontem colaboravam com todas as infâmias viram a luz da decência e da solidariedade.

O poder em Luanda mudou e é fundamentalmente isso que faz que alguma gente esteja em maus lençóis tanto em Angola como em Portugal e, já agora, mais do que merecidamente.

Gostava muito de sentir que estas revelações que vieram a público marcam uma nova realidade, de que algo vai mudar.

Se o meu otimismo não chega para pensar que os paraísos fiscais e os esquemas de lavagem de dinheiro serão postos em causa; se não chega para imaginar que começa agora uma era em que não mais se pactuará com quem destrói comunidades inteiras para comprar um iate; se não é bastante para estar certo de que gente que encolhe os ombros e diz que se não se aceitar este cliente num qualquer escritório de advogados ou empresa de lobbying deixará de o fazer alguém o fará; já me bastava achar que alguma coisa estaria a mudar em Angola e, já agora, que surgiriam lampejos de decência em Portugal. Infelizmente, o meu enorme otimismo não chega a tanto.

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