Venda, aluguer ou... muita esperança: o futuro do alojamento local

Depois do crescimento meteórico, o alojamento local passa por uma crise sem precedentes trazida pela pandemia. Com quebras de faturação de 75%, o setor sustém a respiração para que possa voltar a viver nos meses, ou anos, pós-covid. O DN falou com três casos de empresários muito diferentes com preocupações comuns.

Venda, aluguer de média ou longa duração e muita esperança num futuro melhor. Parecem ser estas as linhas traçadas pelos empresários ou proprietários de alojamento local que desde o início da pandemia viram o negócio afetado sem precedentes.

De acordo com um estudo elaborado pelo ISCTE junto de titulares e gestores das unidades de alojamento local (AL) em Lisboa e Porto, cerca de 80% registaram uma queda de faturação superior a 75% durante o segundo trimestre de 2020. Os dados comparam o período face ao homólogo do ano anterior.

O mesmo estudo indica que Lisboa e Porto foram as regiões mais afetadas e que a maioria dos proprietários (74%) tem a intenção de continuar com o AL de curta duração pelo menos até ao final de 2020. A principal alternativa, sobretudo no Porto e em Lisboa, é o AL de média duração. Já 17% pensam optar por um arrendamento de longa duração no mercado privado.

"Parou tudo. Nos meses de verão tive apenas duas reservas de turistas de visita à cidade. Tanto para quem gere apartamentos ou para as microempresas que trabalham connosco, desde as limpezas aos transfers."

Manuela Vasconcelos, 44 anos, para além de ser jornalista e tradutora gere oito apartamentos em Lisboa, na zona da Graça e do Intendente, e foi, como tantos outros, vítima do que a pandemia trouxe de mau ao turismo.

"Parou tudo. Nos meses de verão tive apenas duas reservas de turistas de visita à cidade. Tanto para quem gere apartamentos ou para as microempresas que trabalham connosco, desde as limpezas aos transfers. Os receios associados ao vírus, a incerteza quanto ao que se podia ou não fazer em cada país, levou a maioria das pessoas a cancelar as reservas e os planos de férias. Com as restrições de circulação entre países e o fecho de fronteiras, vimos também hóspedes que se encontravam em Lisboa em março, a antecipar o regresso a casa com receio de ficarem bloqueados em Portugal. De um dia para o outro, foi o vazio."

Outro caso, a mesma situação. Sónia Ramalho, também jornalista, gere apenas um espaço no bairro da Mouraria e não faz disso vida. Mas também viu logo a partir de março as reservas serem canceladas pelos hóspedes impossibilitados de viajar, o que afetou o seu negócio " praticamente a 100%".

A empresa Feels Like Home gere 600 apartamentos em Lisboa, Porto, Algarve e Lisboa. É uma das maiores do país de alojamento local e a pandemia trouxe "um rombo total" , conta o gerente António Quintão Pereira.

Como consequência passaram de uma estrutura de mais de cem pessoas para as 30 que agora trabalham na empresa. "Os cancelamentos começaram em fevereiro. O que era o normal de 30 a 40 cancelamentos por dia passou para 400 cancelamentos", afirma.

"Não tínhamos dívida bancária fomos crescendo sustentadamente, mas agora recorremos às linhas covid para nos aguentarmos neste tempo, e estamos à espera de melhores dias. Por enquanto estamos a alugar alguns apartamentos a médio prazo, para quatro, cinco ou seis meses, tal como muita gente está a fazer", conta António Quintão Pereira.

O estudo elaborado pelo ISCTE, coordenado pela professora Sandra Marques Pereira, indica que há resistência ao arrendamento de longa duração por múltiplas razões: : a quebra de rendimentos; a falta de confiança no Estado e na legislação de arrendamento; motivos relacionados com a vida pessoal (possibilidade de usufruto da habitação ou receio de perda de uma ocupação gratificante) ou as especificidades dos imóveis que não se adequam ao arrendamento de longa duração; perda da licença de AL ou mais-valias de desafetação; manutenção dos imóveis ou motivações associadas ao compromisso temporal desta solução, que não permite uma eventual mudança de planos.

Que soluções para o futuro?

Na tentativa de arranjar soluções para o futuro próximo, a Associação de Alojamento Local em Portugal tem-se reunido, nas últimas semanas, com o Ministério da Economia. Até à publicação deste artigo não foi possível obter declarações do presidente da Associação, Eduardo Miranda, sobre a evolução das conversas. Mas ideias não faltam ao setor.

Manuela Vasconcelos explica: "Se mandasse começava por suspender a taxa turística, a exemplo do que foi feito noutras cidades. Eliminava também a tarifa comercial aplicada à água em unidades de alojamento local e que pode aumentar até cinco vezes a fatura da água, comparativamente à tarifa doméstica. Parecem detalhes, mas afetam os custos e o preço das estadas para quem tenta manter a atividade."

"Acredito que a pandemia pode levar-nos a repensar o modo como fazemos férias, mas não apagará a curiosidade e a vontade de conhecer novas pessoas, outros lugares. E nisso o alojamento local continuará a ter um papel importante."

António Quintão Pereira é realista e diz que o AL ainda vai demorar "bastante tempo" a ter uma expressão igual ao passado. "Os mais otimistas dizem que a partir de abril vai retomar, mas não acredito, será sim uma recuperação gradual, não acredito em recuperações em 'V' ". E acrescenta: "Neste momento o alojamento local e os hotéis não têm reservas para o futuro, e ninguém no seu perfeito juízo vai colocar os preços de 2019. Vai existir uma grande redução de preços. Só quando o mercado estiver mais maduro e o turismo estiver para ficar é que vai haver uma retoma, e não acredito que seja antes do final de 2021. Vai ser um processo muito lento."

Muita gente desistiu do negócio, sobretudo empresários em nome individual. Mas Sónia Ramalho não desiste e diz que vai apostar nos trabalhadores sem poiso fixo, os chamados nómadas digitais, que procuram Lisboa para viver e trabalhar durante alguns meses.

"Com a aprovação das novas vacinas tenho esperança de que em 2021 os turistas regressem aos poucos a Lisboa", contudo a jornalista é realista: "A situação vai prolongar-se um pouco mais, a vacinação das populações ainda vai ser demorada e o regresso à normalidade ainda parece algo longínquo."

A concluir, Manuela Vasconcelos deixa transparecer a tal resiliência: "Acredito que a pandemia pode levar-nos a repensar o modo como fazemos férias, mas não apagará a curiosidade e a vontade de conhecer novas pessoas, outros lugares. E nisso o alojamento local continuará a ter um papel importante."

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