Linhas de cinema

Os portugueses são dos melhores do mundo em várias áreas: literatura (Camões, Pessoa), santidade (Santo António, São Nuno), futebol (Ronaldo, Mourinho), agora até política financeira (Centeno, o Ronaldo do Ecofin). Noutras actividades, porém, claramente não temos jeito.

Uma delas era a ciência económica. Na monumental History of Economic Analysis, de Joseph Schumpeter, terminada em 1950, consta apenas um português, na nota 8 da página 957: António Sarmento Osório (1882-1960), que em 1913 publicou uma Théorie Mathématique de l'Échange. Os meritórios esforços da equipe do professor José Luís Cardoso para recuperar e divulgar o pensamento económico português não detectaram qualquer real contributo científico. Essa lacuna foi colmatada apenas no nosso tempo, com vários investigadores publicando hoje nas melhores revistas da área.

Outro campo onde salta à vista a mediocridade nacional é o cinema, como mostra o alegado blockbuster de 2018, Linhas de Sangue, que terminou há pouco a sua carreira nas salas, mal ultrapassando os dez mil bilhetes. O filme destaca-se pelo orçamento, número e qualidade dos actores, fotografia, exuberante campanha publicitária, até na escolha interactiva do final pelos espectadores. Trata-se, sem dúvida, de uma obra contemporânea, com todas as referências e influências cinematográficas, cheia de humor, sangue, erotismo, efeitos especiais, superpoderes e desprezo pela sociedade. Só que não presta: enredo descosido e absurdo, personagens superficiais e postiças, piadas sem graça e, acima de tudo, muito mau gosto. A distância entre o aparato mediático e o resultado mostra que algo anda mal na sétima arte nacional.

A questão não se reduz à aposta falhada do momento, porque ela traduz um problema de fundo. No top 100 das estreias de longa-metragem mais vistas em Portugal dos últimos quinze anos, publicado pelo Instituto do Cinema e Audiovisual, figuram apenas dois filmes portugueses, ambos de 2005: O Pátio das Cantigas, de Leonel Vieira, na posição 19.ª, e O Crime do Padre Amaro, de Carlos Coelho da Silva, na posição 90.ª. Pior, no período referido, existiram 666 filmes com mais de cem mil espectadores nas nossas salas, mas desses só 14 são portugueses; entre os 40 com mais de 500 mil bilhetes vendidos, só um era nosso. Quando os lusitanos não vêem os seus filmes, quem vê?

Não é por falta, pois a lista regista 345 longas-metragens nacionais estreadas do início de 2004 ao fim de 2017. Nem por má qualidade: Manoel de Oliveira, considerado um génio do cinema, estreou nove dos seus filmes no período; mas o mais bem colocado, O Quinto Império - Ontem como Hoje (2005), está na posição 2319.ª da ordenação geral com apenas 8303 espectadores. Nem os bons filmes nacionais são vistos.

Quais são então vistos? Destaca-se a comédia, com cinco lugares no top 10 dos filmes portugueses do período. Este traço confirma o velho axioma: o período áureo do cinema nacional é do genial humor de Vasco Santana, Ribeirinho e António Silva nos anos 1930 e 1940. Aliás, o top actual é dominado pela refilmagem e adaptação de três dessas películas, na série Novos Clássicos de Leonel Vieira e Pedro Varela, com O Pátio das Cantigas (2015) no primeiro lugar, O Leão da Estrela (2015) no décimo e A Canção de Lisboa (2016) no décimo primeiro. Mas as outras comédias da lista não são do mesmo nível, com o humor apalhaçado e burlesco de 7 Pecados Rurais, de Nicolau Breyner (2013) no terceiro lugar do top, imediatamente seguido de Filme da Treta, de José Sacramento (2006) e Balas & Bolinhos - O Último Capítulo, de Luís Ismael (2012), farsas do tipo de Linhas de Sangue. A comédia que agora se faz por cá é brejeira e rústica.

Noutros estilos, o problema da qualidade mantém-se. Consta que O Crime do Padre Amaro deve o segundo lugar no top menos à literatura de Eça, que às cenas de sexo, tal como Call Girl, de António-Pedro de Vasconcelos (2007) no sétimo lugar, e Corrupção, de João Botelho (2007), no oitavo. Dois musicais completam a lista dos dez: Morangos com Açúcar - O Filme, de Hugo de Sousa (2012), no sexto lugar, e Amália, de Carlos Coelho da Silva (2008) no nono. Concluindo, se esquecermos as glórias antigas, os filmes nacionais que os portugueses vêem são de chocarrice, sexo ou música; e, mesmo assim, sem qualquer um chegar aos 400 mil espectadores.

Esta situação suscita várias questões. Antes de mais, será que o talento humorístico nacional morreu? A resposta parece ser que emigrou: no décimo lugar do top geral das nossas salas, com quase 800 mil espectadores, está um filme francês, La Cage Dorée, de Ruben Alves (A Gaiola Dourada, 2013) que reproduz a antiga tradição da nossa excelente comédia de costumes. É pena que os cineastas por cá prefiram a intelectualidade sem audiência ou a boçalidade popularucha.

Se as plateias não vêem filmes portugueses, como e porquê se continuam a produzir tantos? De onde vêm os recursos para isso? Bem, essa questão parece ser para a ciência económica, outra área onde também não costumamos ser bons.

Professor universitário

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