Dérbi órfão de Jorge Jesus... nove anos depois

O treinador esteve seis anos no Benfica e três no Sporting. Deixou como herança alguns episódios que ficaram célebres e alguns jogos para mais tarde recordar. Este sábado será bem diferente...

Aí está o primeiro dérbi de 2018-19. Benfica e Sporting defrontam-se neste sábado às 19.00, em jogo da 3.ª jornada da I Liga. Em nove anos, será o primeiro duelo entre os eternos rivais que não terá Jorge Jesus num dos bancos a orientar uma das equipas. É o início de uma nova era e o final de algo que se tornara um hábito, primeiro de águia ao peito durante seis épocas e nas últimas três temporadas ao serviço dos leões.

Foram 22 dérbis consecutivos, com várias peripécias e frases que entraram no léxico do dia-a-dia do futebol. Quem não se lembra do "limpinho, limpinho" no final do dérbi de abril de 2013, quando saiu vitorioso ao comando do Benfica por 2-0? Do lado do Sporting estava Jesualdo Ferreira e era o primeiro duelo com Bruno de Carvalho como presidente leonino. Às queixas sportinguistas sobre o trabalho do árbitro, Jesus saiu-se com a expressão que passou a ser utilizada de forma recorrente: "O Sporting mostrou que é uma excelente equipa e o Benfica ganhou limpinho, limpinho."

Mais quentes, bem mais quentes foram os duelos verbais com Rui Vitória, seu sucessor no comando técnico dos encarnados. E começou logo no primeiro duelo entre ambos, na Supertaça de 2015. Jesus, já vestido de verde e branco, garantiu então que as ideias de jogo do Benfica eram todas dele. "Vou jogar contra uma equipa com as minhas ideias, mas o cérebro já não está lá ", atirou, ficando nessa altura sem resposta porque o técnico benfiquista deixou claro que iria deixar o seu antecessor "a falar sozinho".

No segundo jogo, no seu regresso à Luz como adversário, Jesus venceu por 3-0 e sentiu-se picado com uma declaração de Rui Vitória, que antes da partida disse que não sabia se do outro lado iria estar uma equipa. "Era fácil, depois de ganhar, pôr o Rui Vitória deste tamanhinho [gesto com os dedos indicando pequeno] mas não ponho", limitou-se a dizer.

O Ferrari e a equipa pequena

Pelo meio, depois de Rui Vitória dizer que Jesus estava obcecado pelo Benfica, o técnico do Sporting lançou uma dúvida em jeito de provocação. "Ele tem de ser muito mais. Fi-lo sair da toca. Para treinar o Benfica ele tem de se assumir. Para conduzir um Ferrari tem de ter andamento para ele", atirou.

Só que em maio de 2016, em Alvalade, o Benfica venceu o Sporting no jogo decisivo na luta pelo título. Valeu o golo de Mitroglou aos 20 minutos que deixou Jorge Jesus inconsolável, passando ao ataque. "O Benfica jogou como equipa pequena. Ganhou, mas não sabe como", atirou então o treinador leonino, que criticou ainda o rival por fazer "antijogo". Na resposta, Rui Vitória lembrou como o Benfica tinha vencido em Alvalade na época anterior, quando Jesus ainda representava as águias: "Ele talvez tenha dito isso em relação ao jogo da época passada."

Depois deste episódio, com a conquista do título 2015-16 por parte de Rui Vitória, as picardias entre os dois técnicos acalmaram, algo que se acentuou já depois de Benfica e Jesus terem chegado a acordo em relação ao diferendo que mantinham na sequência da saída do treinador para o rival.

Neste sábado, Rui Vitória irá olhar para o banco do Sporting e já não vai encontrar Jorge Jesus, com quem continua sem qualquer relação pessoal. De leão ao peito estará José Peseiro, com quem o treinador benfiquista disputou um clássico, com o FC Porto, que os dragões venceram por 2-1, na Luz. No entanto, o saldo entre os dois técnicos é favorável ao benfiquista, que em oito duelos venceu quatro (três pelo Benfica e um pelo V. Guimarães), empatou um (em Guimarães) e perdeu três (um pelos encarnados e dois ao serviço dos vimaranenses).

A marca de Jesus nos dérbis

As nove temporadas de Jorge Jesus no dérbi eterno deixaram entretanto outras marcas, além das polémicas. Foram 23 jogos, dos quais saiu vencedor por 13 vezes, somando ainda sete empates e perdendo três vezes, uma quando estava na Luz frente ao Sporting de Sá Pinto e duas já em Alvalade frente ao Benfica de Rui Vitória. No conjunto dessas partidas foram marcados 52 golos, tendo 37 sido das equipas orientadas pelo agora técnico do Al-Hilal, da Arábia Saudita.

Só que a marca de JJ nos dérbis acabou por ser mais vincada no Benfica, pois venceu dez dos 15 jogos que disputou, ou seja, com uma taxa de sucesso de 66,6%. Ao serviço do Sporting, venceu apenas três dos oito duelos com o eterno rival, numa taxa de sucesso de 37,5%.

Os jogos mais marcantes

Com Jorge Jesus houve vários dérbis emocionantes e que terão tido um significado muito especial. O primeiro que o terá marcado foi logo na sua primeira época no Benfica, quando foi a Alvalade aplicar um 4-1 para as meias-finais da Taça da Liga, em fevereiro de 2010, com David Luiz, Ramires, Luisão e Cardozo a fazerem os golos da sua equipa, tendo Liedson marcado para o Sporting.

Em novembro de 2013, jogou-se o mais intenso de todos para a Taça de Portugal, com os encarnados a vencerem, na Luz, por 4-3 após prolongamento, com Luisão a marcar aos 97 minutos, depois de um 3-3 após 90 minutos, em que Cardozo fez um hat-trick, ao qual responderam Diego Capel, Maurício e Slimani.

O último de águia ao peito resultou num empate 1-1 muito festejado em Alvalade, com Jardel a marcar aos 90+3, abrindo caminho para o título de campeão nacional de 2014-15.

Já ao serviço do Sporting, serão por certo inesquecíveis para Jesus os dois primeiros dérbis. O primeiro resultou na conquista da Supertaça, no Algarve, com um triunfo por 1-0, valendo o golo de Teo Gutiérrez a meias com Carrillo. E o segundo, no regresso à Luz, com uma vitória por claros 3-0, outra vez com Teo Gutiérrez, Slimani e Bryan Ruiz a construírem o resultado.

Finalmente, em novembro de 2015, o triunfo por 2-1, após prolongamento, em Alvalade para a Taça de Portugal, uma partida em que o Benfica começou a ganhar com um golo de Mitroglou, mas a que Adrien Silva e Slimani acabaram por dar a volta, com Jesus a correr louco de alegria ao longo da linha lateral para festejar com os seus jogadores.

O último dérbi de Jesus foi a 5 de maio de 2018 e terminou da mesma forma como o primeiro que disputou ao serviço do Benfica, em novembro de 2009. Um empate sem golos, que desta vez acabou por ser doce para o Sporting, que conservava o segundo lugar, perdido na última jornada da época passada no Funchal, com o Marítimo. Aí começou uma crise que obrigou Jorge Jesus a "fugir" para a Arábia Saudita.

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