Abusos sexuais dominam visita do Papa à já não tão católica Irlanda

No censo de 1981, dois anos após a histórica visita de João Paulo II, 93% da população da Irlanda dizia ser católica. No último censo, em 2016, o número de católicos tinha caído para 78%.

Em 1979, 1,25 milhões de pessoas (um terço da população) estiveram no parque Phoenix, em Dublin, na missa inaugural da visita de três dias do Papa João Paulo II à República da Irlanda. Quase 40 anos depois, outro papa chega neste sábado ao país e celebrará missa nesse mesmo parque. Mas os escândalos de abusos sexuais e o tratamento que foi dado durante décadas às mães solteiras e aos seus filhos tornam impossível a repetição desses números. A católica Irlanda já não é assim tão católica.

O Papa Francisco chega a Dublin para uma visita de dois dias por ocasião do Encontro Mundial de Famílias. No primeiro dia, além do encontro com o presidente Michael D. Higgins, na residência oficial, e com outras autoridades, no castelo de Dublin, visitará a catedral de Santa Maria e o centro de dia para famílias sem-abrigo dos padres capuchinhos. Ao final da tarde, assiste ao Festival das Famílias no Estádio de Croke Park. No segundo dia, viaja até ao santuário de Knock (onde presidirá ao Angelus), regressando a Dublin para a missa no parque Phoenix. Antes de regressar ao Vaticano, terá ainda um encontro com bispos no convento das irmãs dominicanas.

No censo de 1981, dois anos após a histórica visita de João Paulo II, 93% da população da Irlanda dizia ser católica. No último censo, em 2016, o número de católicos tinha caído para 78%. E a queda tinha sido de seis pontos percentuais em relação a 2011. A perda de crentes justifica-se em parte pelos escândalos que rodearam a Igreja na Irlanda, um país que em 2015 foi o primeiro a, num referendo popular, aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (a homossexualidade foi crime até 1993 mas o atual primeiro-ministro, Leo Varadkar, é gay assumido) e que, já neste ano, também por voto popular, decidiu mudar a lei para legalizar o aborto.

Abusos sexuais

A visita do Papa Francisco surge ainda no rescaldo das conclusões de um grande júri, na Pensilvânia, que revelou num relatório como 301 padres católicos de seis das oito dioceses deste estado norte-americano abusaram sexualmente de mais de mil crianças ao longo de sete décadas. E de como a Igreja Católica encobriu o problema e protegeu os abusadores e não as vítimas.

Desde lado do oceano Atlântico, esta é uma realidade que os irlandeses também conheceram. Desde a década de 1990 que os casos têm vindo a público. Em 2009, um relatório recolheu provas junto de 1090 homens e mulheres que alegaram ter sido vítimas de abuso (metade deles denunciaram abusos sexuais) nas instituições do país, a maioria das quais geridas por católicos. Tal como nos EUA, a hierarquia da Igreja na Irlanda encobriu o problema, com os abusadores a serem transferidos de escola ou diocese e deixando outras crianças em risco.

Em março de 2010, o Papa Bento XVI pediu desculpas pelos abusos sexuais perpetrados por membros do clero. Também o Papa Francisco, em resposta ao relatório da Pensilvânia, escreveu uma carta a admitir o falhanço da Igreja em travar os abusos e prometendo que não haverá mais encobrimentos. Mas, para as vítimas, é preciso fazer mais.

Durante a viagem à Irlanda, e apesar de não constar do programa oficial, o Papa terá um encontro com algumas vítimas, cabendo depois a elas decidir se querem tornar público o que aconteceu na reunião.

"O que as vítimas de abusos precisam, e francamente o que os católicos e pessoas que vivem em sociedades que foram afetadas pelos abusos precisam, é de que a Igreja diga a verdade e assuma a responsabilidade", disse Colm O'Gorman, que foi vítima de abuso enquanto criança e é agora um dos rostos da questão na Irlanda. "E, francamente, este tipo de encontros parecem mais exercícios de relações públicas e não ajudam nada", acrescentou à estação de televisão irlandesa RTE.

Durante a missa do Papa, grupos de vítimas e familiares vão reunir-se noutra parte de Dublin. E, se as autoridades esperam que 500 mil pessoas possam assistir à missa de domingo (muito menos do que as que estiveram em 1979 com João Paulo II), houve na Irlanda uma campanha para fazer um protesto silencioso contra Francisco. A ideia da "Say nope to the Pope" (diz não ao Papa) é simples: houve quem pedisse bilhetes para assistir à missa, não tendo contudo intenção de aparecer.

As "mulheres caídas"

Outro ponto negro na história da Igreja Católica na Irlanda foi o tratamento dado às "mulheres caídas", termo usado inicialmente para designar as prostitutas mas que com o tempo passou também a incluir as mulheres que ficavam grávidas fora do casamento (só uns meses antes de João Paulo II visitar a Irlanda é que a venda de contracetivos foi legalizada, a quem tivesse receita médica).

Muitas dessas mulheres foram confinadas a abrigos geridos pela Igreja (conhecidos como Lavandarias Madalena), com o apoio do Estado, onde eram obrigadas a trabalhar como escravas. Estima-se que entre o século XVIII e o final do século XX (a última Lavandaria Madalena fechou em 1996), 30 mil mulheres tenham passado por estas instituições, tendo sido descoberta em 1993 uma vala comum com 155 corpos - de mães e de bebés. Um caso que levantou o véu sobre o problema e levou em 2013 o então primeiro-ministro, Enda Kenny, a emitir um pedido de desculpas formais. Uma investigação foi lançada em 2015, esperando-se o relatório com as conclusões em fevereiro do próximo ano.

Versão corrigida às 12.40. A versão anterior identificava erradamente o presidente da Irlanda.

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