Pandemia e revolução - O séc. XXI será o primeiro com imaginação para mudar sem guerra?

Para lá do Estado de Emergência, do quase processo revolucionário em curso com prazo de validade que vivemos nas últimas semanas e das reações de curto prazo à crise, a pandemia poderá ser um catalisador de mudança do nosso modelo de sociedade?

Explicar a alunos norte-americanos porque é que o terremoto de 1755 foi um acontecimento que mudou o mundo, que alimentou revoluções, sempre exigiu a Rui Tavares e aos seus alunos um esforço de abstração. "Exigiu", assim, dito no passado, porque já não exige. O historiador tem agora um exemplo concreto, uma pandemia e uma crise em desenvolvimento, para usar nas aulas.

Tudo mudou em duas semanas. Da presença física para a comunicação digital e da ambiguidade do abstrato para a clareza do concreto. À escala daquela sala de aula, foi uma revolução. "Na aula anterior tinha-lhes perguntado: "qual o acontecimento histórico das vossas vidas que acham que mudou o mundo?" Alguns deles, que já nasceram depois do 11 de setembro, tinham um pouco de dificuldade de achar esse acontecimento". Dez dias depois, conta Rui Tavares, "já não tinham dificuldade nenhuma. Todos diziam "isto é mesmo uma coisa que nunca foi vista", e portanto é uma coisa que pode ter esse impacto, esse potencial de mudar o curso da História".

Não foi a 1 de novembro de 1755 que o terremoto de Lisboa mudou o mundo, tal como não será por estes dias que vamos saber se o que estamos a viver tem ou não potencial para espoletar mudança, para induzir uma revolução na forma como nos organizamos em sociedade. Seria só anos depois do terremoto e do tsunami que o Marquês de Pombal, para defender D. José I, decide adotar a explicação de que a catástrofe teria tido causas naturais e que não teria sido um castigo divino. Ao tirar Deus da equação estava, inadvertidamente, a colocar um prazo de validade no absolutismo. O mundo havia de mudar, mas mais tarde.

Rui Tavares avisa que devemos sempre desconfiar das primeiras leituras. "No primeiro impacto o que é natural é as pessoas irem buscar aquilo que de mais recente conhecem e reforçarem convicções e crenças." O historiador pega em exemplos mais recentes, como a reação à crise de 2008, para reforçar a ideia. "Há campos que já estão no debate público e há reputações e carreiras inteiras assentes em defender determinadas ideias. Em 2008 não apareceu nenhum liberal a dizer que a culpa era do sistema financeiro, antes pelo contrário, afirmavam que a culpa era do Estado. E aqui também, os que já eram cosmopolitas antes da pandemia vão dizer que precisamos de mais cooperação internacional, mais OMS, mais ciência, mais UE e, do outro lado, os nacionalistas a dizer que o que precisamos é de fechar fronteiras, de um Estado mais forte e de um homem forte à frente dos destinos da nação."

Vieira da Silva afirma:"Estamos ainda longe de perceber todos os impactos que esta crise vai trazer. Talvez por algum conservadorismo, devido ao meu escalão etário, não seria tão radical e afirmar que isto vai mudar tudo.

O antigo ministro do Trabalho e da Segurança Social, Vieira da Silva, partilha dessa cautela. "Estamos ainda longe de perceber todos os impactos que esta crise vai trazer. Talvez por algum conservadorismo, devido ao meu escalão etário, não seria tão radical e afirmar que isto vai mudar tudo." José Pacheco Pereira carrega um pouco mais no ceticismo. "Enquanto houver medo, as coisas não vão mudar muito, mas eu sou muito cético quanto à possibilidade de haver alterações revolucionárias. Deixemos passar um ano ou dois de sossego, sem vírus, e voltará tudo ou quase tudo ao mesmo."

O antigo político e guardador da memória política coletiva, com o projeto Ephemera que ocupa já largos quilómetros de prateleiras e estantes, afirma que "a inércia é uma grande força". Pacheco Pereira olha para uma outra dimensão da reação ao terremoto de 1755, ao nível urbanístico, e sublinha que só alterou o que tinha de ser reconstruído. "Abalou muita coisa, matou muita gente, deitou as casas abaixo e, portanto, tinham de ser reconstruídas. Esta pandemia vai deixar mortos entre os velhos, uma crise económica considerável e vai deixar o aumento da exclusão e das diferenciações sociais."

A dimensão

O economista Alfredo Marvão Pereira, professor na faculdade de William & Mary, em Williamsburg, Virgínia, dizia esta semana ao DN que está absolutamente convicto de que esta é a crise, o acontecimento de uma vida, de uma geração. "Estou convencido de que vai deixar marcas mesmo muito grandes. É a primeira vez, na minha geração - quem tem agora cerca de 60 anos - e no mundo ocidental, que temos uma experiência deste tipo. Será seguramente uma coisa transformativa, é uma oportunidade, por um lado, que poderemos aproveitar ou não, mas por outro lado vai deixar marcas."

A pandemia é um acontecimento global, com impactos assimétricos país a país, comunidade a comunidade, mas Marvão Pereira acredita que há algo que pode vir a ser um denominador comum, pelo menos nas sociedades ocidentais. "A civilização ocidental, sobretudo depois do fim do bloco soviético, desenvolveu um completo sentido de invulnerabilidade, de invencibilidade. No fundo, irmos onde quer que seja e não nos sentirmos ameaçados. O que vivemos agora é uma mudança de paradigma no que toca ao sentimento de segurança pessoal. Nunca nos passou pela cabeça que ir a um restaurante, ir ao supermercado, ir ao futebol, fosse um risco."

Neste sentido, afirma Marvão Pereira, este é "um momento completamente diferente do que vivemos no pós-11 de setembro. Esta erosão do nosso sentido de estabilidade e de segurança física, é fundamentalmente diferente dessas experiências. Desgraças no mundo tem havido imensas, mas são tudo coisas que se passam no quintal do vizinho e a probabilidade de vir ao nosso quintal é mínima. O que esta pandemia nos dá, por ser universal, é pela primeira vez este sentido de termos um choque económico e psicológico coletivo".

Regressemos à conversa com Rui Tavares e a 1755. O historiador não tem dúvidas sobre a escala da crise, mas insiste que "vamos ter de esperar uns anos para ver, depois destas ideias extremadas, o terreno que foge debaixo dos pés de determinadas teses políticas. Demorou uns 3 a 5 anos para que, a certa altura, as pessoas que a seguir ao terremoto de Lisboa tinham continuado a defender a tese do castigo divino, serem ridicularizadas com o Cândido do Voltaire e, a pouco e pouco, deixarem de defender aquilo que tinham defendido logo a seguir ao terremoto".

No fundo, trata-se de saber como iremos conferir sentidos e significados a este momento. "O que diferencia aquele acontecimento - terremoto de 1755 - de outras catástrofes em que morreu mais gente, que foram piores do ponto de vista geofísico, como a erupção do Krakatoa ou grandes inundações na China que causaram milhões de mortos; o que diferencia são os sentidos, os significados que as pessoas vão atribuir, mais tarde, ao acontecimento. Isso é o que resta saber."

Apesar desta ressalva metodológica, Rui Tavares admite que continua "convencido de que estamos perante um acontecimento que vai mudar o debate que fazemos em relação, no fundo, aos grandes pilares estruturais da nossa existência, que têm a ver com a natureza, com o humano e com o poder e a política. Esta pandemia, porque pode alterar a forma como damos sentidos e significados a esses pilares, tem um potencial enorme de alterar, no fundo, a textura da História".

Em que sentido marchará a revolução?

Está no momento certo para uma pergunta clássica, que talvez pouco tenha a ver com este texto, mas que faz parte dos dias. Onde estava no 25 de abril, professor? Marvão Pereira responde que estava em Lisboa, sendo que "o dia 25 de Abril de 1974 calhou, por coincidência, no aniversário de casamento dos meus pais. Acabou por ser um dia menos nutritivo do que se poderia esperar, porque estávamos a pensar ir almoçar e jantar fora, para celebrar, e acabámos por ficar em casa" - ao centro do ecrã e no meio das longas barbas de Marvão Pereira, surge um sorriso enquanto continua a contar a história -, "vivi longas horas sem certeza sobre que tipo de revolução era aquela. Só tive a certeza absoluta no dia 26, quando fui ter com a minha namorada e atual mulher de há muitos anos a Belém e decidi fazer um teste. Comprei o jornal O Avante e abri-o para ler no elétrico. Ninguém disse nada, não aconteceu nada".

Aos olhos do jovem estudante de 16 anos aquela revolução parecia estar no bom caminho. Seria, nos próximos anos, uma experiência de transformação. "O impacto que esse período, entre 1974 e 1978, teve na minha geração foi absolutamente transformativo. No sentido positivo, entenda-se." A dúvida agora não tem tanto a ver com a escala do que estamos a viver, mas antes, diz Marvão Pereira, com o sentido das mudanças que podem desenhar-se no pós-pandemia. "O que vivemos agora tem uma dimensão universal, tem um potencial para que repensemos o que significa sermos humanos, logo é muito mais profundo. Pode ser muito útil, mas também pode afetar muito negativamente algumas gerações."

Pacheco Pereira lembra que "do pós-25 de Abril saiu um conjunto de liberdades que, até agora e no essencial, não foram postas em causa".

Vieira da Silva recorda que em 1974, com 21 anos, "tinha já uma perceção relativamente amadurecida do que Portugal era por comparação a outras sociedades e outros modelos de organização". O antigo ministro confessa que tem "receio de que as consequências desta crise, com a sua originalidade, com o seu caráter global e com a profundidade que está a ter, sejam tão pesadas como as mudanças que na altura nos apontavam no sentido do progresso". É sobretudo uma questão do sinal, positivo ou negativo, das mudanças. "Tenho receio que sejam mudanças da mesma escala, mas são de natureza bem diferente. Agora, não creio que esta crise tenha potencialidade para anular o que foram mudanças civilizacionais e culturais que influenciaram muito positivamente a nossa sociedade."

Pacheco Pereira lembra que "do pós-25 de Abril saiu um conjunto de liberdades que, até agora e no essencial, não foram postas em causa". Ainda assim, o antigo deputado identifica, por estes dias, "pressões que podem mudar significativamente a liberdade individual. Por exemplo, a ideia da geo-referenciação de quem está doente ou testou positivo para o vírus é uma ideia muito perigosa em democracia. A ideia de abrir os negócios mesmo que isso signifique dois ou três por cento de mortalidade entre os mais velhos é absolutamente inaceitável numa sociedade civilizada".

Olhando para crises recentes, Vieira da Silva avisa que "seria muito penalizador para o nosso futuro se depois desta crise assistíssemos a conflitos intergeracionais. Seria muito perigoso e muito crítico para a nossa vida coletiva numa sociedade em envelhecimento".

Uma nova globalização?

Continuando à conversa com antigo ministro do Trabalho, escutamos outra preocupação. "Não sei se não passaremos a ter sociedades que olhem de forma mais exigente para o processo de globalização, que não será exatamente a mesma coisa. Não estou a advogar, bem pelo contrário, o regresso a um protecionismo e a economias fechadas, mas acho que outros equilíbrios e outras exigências podem ser colocadas, nomeadamente para tornar o comércio internacional mais justo e menos dependente de algumas zonas do mundo." É preciso repensar, diz Vieira da Silva, "as cadeias de valor e de comércio à escala global, em que para se produzir um bem se depende de meio mundo para matérias-primas e equipamentos. Esta crise veio mostrar a fragilidade que essa intensidade de relações internacionais pode trazer para o conjunto das economias, sobretudo as mais abertas".

Rui Tavares antecipa que "um dos debates que vai marcar os próximos anos será o debate entre nacionalismo e protecionismo económico ou cosmopolitismo e cooperação internacional.

Rui Tavares concorda que essa pode ser uma das áreas de mudança. "Onde este acontecimento tem potencial para vir a ser preenchido de sentidos e tornar-se historicamente relevante, não desaparecendo dos debates daqui a dez ou vinte anos, é precisamente se nos fizer refletir sobre outras coisas e se nos fizer perceber que faltam alíneas ao nosso contrato político. No fundo, procurarmos um novo entendimento entre humanidade, natureza e tecnologia. No imediato, no curto prazo, esse caminho pode passar por coisas como alterar os tratados de comércio internacional - com a China, por exemplo, dizendo que só dá para fazer tratados de comércio se cumprirem regras fito-sanitárias que sejam mais ou menos iguais às do resto do globo."

Alargando o olhar, o historiador antecipa que "um dos debates que vai marcar os próximos anos será o debate entre nacionalismo e protecionismo económico ou cosmopolitismo e cooperação internacional. A resposta à pandemia será num sentido ou no outro. Ambos têm argumentos, mas creio que uma forma mais resiliente de reagir a esta pandemia será repensar a globalização, por exemplo, distribuindo mais a produção, não havendo tanto uma parte do mundo que produz e outra que consome. Não sendo tão comum ir buscar kiwis à Nova Zelândia ou carne à Argentina e ao Chile, quando devemos é produzir mais localmente, gastando menos energia e emitindo menos carbono".

Um mundo mais colaborativo e menos individualista?

Pacheco Pereira responde diretamente à questão. "Seria bom, mas duvido, porque os interesses em causa são muito fortes. Veja o caso da União Europeia. Este pacote não corresponde nada àquilo que é preciso para fazer face a esta crise. A não haver uma mudança muito significativa na forma como na União Europeia se pensa a coesão, que me parece muito difícil dada a posição de países como a Holanda, a Alemanha ou a Áustria, a União Europeia vai ser inútil para esta crise."

Carregando no pessimismo, continua. "Sou cético quanto a grandes mudanças, a não ser que haja conflitualidade de baixo para cima, que haja violação flagrante da igualdade. O que gera mais conflitualidade social é a noção que as pessoas têm de que não são tratadas da mesma forma, de que são tratadas de forma desigual. Numa situação de crise, se isso acontece, isso sim é fonte de conflitos e esse conflito social pode mudar alguma coisa." Quase sem darmos por isso e entre todo o ceticismo de Pacheco Pereira, regressamos à ideia de revolução.

Vieira da Silva fala antes de oportunidade. "Seria mau que não aproveitássemos os ensinamentos desta crise para pormos alguma ordem nos desequilíbrios que existem na nossa vida coletiva à escala nacional, europeia e global." A questão será como lidar com as assimetrias. "As consequências económicas e sociais desta crise não vão ser simétricas, nem entre países nem entre grupos sociais e há aqueles que vão sofrer de forma muito mais dura. Há aqui uma dimensão de curto prazo, de emergência - que deve ser prioritária até porque tem consequências duradouras se não for atacada - e depois há a possibilidade de aproveitarmos essa reflexão para introduzirmos mudanças a várias escalas que tornem a nossa sociedade mais equilibrada." O antigo ministro confessa que não está muito otimista, mas afirma que "vivemos num mundo marcado por várias desigualdades e assimetrias, e o risco de elas se agudizarem agora é muito profundo, para não dizer que é uma certeza, talvez nos pudesse conduzir a construir instrumentos mais estruturais de redução dessas desigualdades".

O que ficará do bom que trouxe a disfunção que vivemos por estes dias? Do teletrabalho que garante produtividade enquanto deixa mais tempo e maior proximidade com a família, de reuniões e viagens que verificámos desnecessárias porque transformadas em encontros digitais, do carro parado a poupar combustível e emissões, das cidades com menos automóveis e do ar mais limpo. Miguel Castro Neto, Professor Auxiliar e Sub-director da NOVA Information Management School, afirma que "esta transição digital acelerada pode potenciar uma tendência que já começávamos a observar, que é uma passagem de uma economia linear para uma economia circular, em que a sustentabilidade será, de facto, uma fundação para um novo modelo de sociedade em que seremos muito mais utilizadores do que consumidores de recursos".

O coordenador da pós-graduação em Smart Cities na Nova IMS, diz ter esperança de que "olhando agora para as cidades desertas de carros, tenhamos aqui uma oportunidade única para fazer algumas intervenções em que favorecemos a mobilidade partilhada e o transporte público em detrimento da viatura privada. E usar também a transformação digital para reforçar um sinal fraco que detetamos por estes dias, que é uma preferência pelo consumo local, pelos produtos do bairro, pelos mercados, pela entrega em casa e pelo comércio tradicional. Podemos estar, de facto, perante uma nova realidade, revivendo a vida dos bairros através da tecnologia. Nestes casos, se conseguirmos agir e confirmar tendências, podemos usar a palavra revolução".

A imaginação estará mesmo a caminho do poder? Poderá ser mesmo assim? Marvão Pereira faz uma leitura menos otimista, sobretudo porque está nos Estados Unidos e está a ver os preços dos combustíveis a cair para níveis impensáveis. "Não tenho dúvidas de que haverá mudanças profundas e efeitos positivos em áreas como o trabalho, a educação ou a saúde, devido ao acelerar da transição digital. Do ponto de vista da transição energética, estou menos otimista. Prevejo que a recuperação da economia seja muito intensiva do ponto de vista energético e, sobretudo, muito dependente de combustíveis fósseis. Nesta crise temos uma situação peculiaríssima no mercado do petróleo. Porque o choque é universal, temos os preços do petróleo a níveis potencialmente negativos ou muito baixos, o que significa que os incentivos que existem para as empresas - e mesmo a um nível individual - serão para minimizar custos na energia."

O professor de economia considera, ainda assim, que atualmente, "há um sentimento de arrogância em relação ao que a ciência e a tecnologia podem fazer. Esta crise vai obrigar-nos a repensar a nossa relação com a ciência e com a tecnologia. Obviamente que devemos apoiar o mais possível, mas também devemos pensar que têm imensas limitações e que não resolvem tudo. Faz parte daquele novo sentimento de vulnerabilidade". Esse novo denominador comum para o mundo ocidental poderá ser, na opinião de Marvão Pereira, um catalisador de mudança. "Pode haver algumas transformações positivas. Se interiorizarmos a tal ideia de que somos mais vulneráveis do que pensávamos e de que temos de ter alguma atenção ao meio que nos rodeia, que não controlamos completamente a natureza à nossa volta, é possível que nasça uma nova capacidade de perceber os problemas climáticos." Até porque, sublinha, há algo de novo. "Esta é a primeira vez na minha geração que somos confrontados com um problema grande e universal. Este sabor de que estamos todos no mesmo barco, enquanto planeta e enquanto espécie, era bom que permanecesse para lá da crise."

De regresso à tal questão sobre um futuro mais colaborativo e menos individualista, Rui Tavares responde com uma frase que responsabiliza: "Essas são perguntas a que não se responde adivinhando, responde-se fazendo". São possíveis as utopias? Sim, mas "devemos fazer um esforço para que assim seja". É o mais longe que vai. O historiador, conversando com o DN a partir dos Açores, onde foi apanhado por um cordão sanitário, antevê que "no debate sobre a recuperação económica vamos ter dois tipos de posições. Uma mais utópica, que dirá "estão a ver, afinal sempre foi possível partilhar tempo de trabalho, sempre foi possível trabalhar mais a partir de casa, dar mais atenção à família, sempre foi possível usar menos o carro e havia uma série de viagens de negócios e de trabalho que não era preciso fazer porque já havia tecnologia para fazer essas reuniões à distância e agora que aprendemos isso com a pandemia, vamos continuar"; depois haverá uma reação a esta gente, que dirá "sim, claro que é possível, mas o resultado é que tens o PIB a cair 10%". Este debate vai partir todas as famílias políticas, todos os ministérios, todas as academias, etc. Na verdade, é um debate que tem características temperamentais, um bocado como aqueles debates de copo meio cheio e copo meio vazio".

E de que lado está Rui Tavares? O copo parece estar meio cheio. "Estou do lado de quem acha que é, de facto, possível viver de outra maneira e que a crise vai obrigar-nos a uma certa de imaginação que não tínhamos e que podemos passar a ter. As cadeias de distribuição podem ser diferentes, há hábitos de consumo que vão mudar e podemos tentar aproveitar isso num sentido positivo, mais inclusivo, mais solidário, mas mais resiliente também. Agora vemos que se tivéssemos, por exemplo, como um dos estabilizadores automáticos algo de que se está a falar com mais seriedade, que é o rendimento básico de emergência, o impacto sobre a economia seria muito menor."

A imaginação do pós-guerra, sem guerra

"No fundo, andávamos aqui com uma crise de falta de imaginação." Rui Tavares olha para esta crise como uma oportunidade para "colocar em cima da mesa as alterações necessárias para fazer com que a globalização e o mundo do trabalho sejam organizados de outra maneira, e para que a tecnologia não tenha uma entrada destrutiva no mundo do trabalho". No fundo, aproveitar a perturbação causada pela covid-19 como motor dessa imaginação. "Precisávamos de um novo Bretton-Woods, de novas instituições internacionais, que a Organização Internacional do Trabalho se tornasse numa agência de regulação da globalização, por exemplo. Estávamos numa situação em que precisávamos de ter a imaginação do pós-guerra sem, de preferência, ter uma guerra. Na história europeia, desde há 500 anos que temos sempre uma guerra por esta altura do século e já vamos em 2020 e até agora não tivemos. Com isso, ainda não tivemos ou fomos forçados a ter a imaginação do pós-guerra."

Voltamos ao copo meio cheio. Rui Tavares reafirma que "este é um acontecimento suficientemente disruptivo, com potencialidade para espoletar mudanças na forma como nos organizamos enquanto sociedade". A forma como reagirmos à crise será decisiva, pelo exemplo. "Houve vários países onde as pessoas uniram-se para salvar os mais vulneráveis e os mais idosos, conseguiram reorganizar temporariamente as suas economias para que o impacto fosse relativamente pouco... há portanto elementos das respostas que demos à pandemia que podemos agora aproveitar e generalizar para termos uma vida melhor. Isso seria essencial, ter essa imaginação do pós-guerra sem ter guerra, mas temos mesmo de conseguir forçar esse debate." Vai ser fácil? O historiador desconfia que não, "não só porque já estávamos num contexto de nacionalismo e protecionismo exacerbado, mas também porque vamos ter alguma resistência do lado progressista, onde certamente vão surgir pressões para regressar à normalidade, com o argumento de que "isso que vocês estão a sugerir é muito bonito, mas a quebra no produto é tão grande que é impossível de implantar agora"".

Numa conversa à solta entre o real e o ideal, Rui Tavares fala num novo contrato. "O que esta pandemia talvez possa criar é condições para se discutir um novo tipo de contrato, que seria um contrato entre humanidade, natureza e tecnologia. Reconhecer o lugar especial que a humanidade tem dentro da natureza, provavelmente como serventia, como responsabilidade perante aquilo que é mais vulnerável do que nós e utilizar a tecnologia para conseguir uma relação mais justa e equilibrada entre estas três partes."

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