Nova narrativa: da "libertação total" à "transição"

A prudência é boa conselheira na gestão da pandemia e, de um dia para o outro, a narrativa oficial alterou-se. O primeiro-ministro deixou de falar em "libertação total" da covid-19 e substituiu o termo por "transição" e por "viragem". Ontem, no Conselho de Ministros, anunciou a terceira fase de desconfinamento - já há muito prevista (desde 29 de julho), apesar de a oposição considerar o calendário "eleitoralista", por coincidir com a véspera das eleições autárquicas. Assim, alguns serviços voltarão a reabrir a partir de 1 de outubro. E temos condições de o fazer? "Temos", dizem os entendidos em saúde, mas a afirmação "temos" é acompanhada pela palavra "cuidado".

Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães (entrevistado ontem no programa Fórum TSF), já é tempo de abrir mais o país, mas temos de continuar a ter algumas cautelas. Uma delas passa, precisamente, por "manter um bom controlo de fronteiras, porque os países não são todos iguais" em matéria de avanço da vacinação. E é preciso "manter o uso de máscaras em espaços fechados e em sítios com muita gente", até porque "vem aí o período mais difícil, o outono-inverno", em que já "não estamos confinados nem com todas as medidas sanitárias no máximo, e o vírus da gripe vai ter maior penetração do que teve no ano passado. Isso vai trazer-nos perturbações", alerta o bastonário. Os avisos são relevantes. Por outro lado, recomenda que "em lares e sítios críticos temos de continuar a testar".

O governo está confiante de que o avanço da vacinação, já muito perto dos 85%, será o pilar que sustenta esta terceira fase de reabertura, mas assente na tal nova narrativa da "transição". A partir de dia 1, Portugal passa de estado de contingência para estado de alerta. Nesta nova era, por exemplo, acaba a lotação em espaços de comércio, casamentos, batizados e espetáculos culturais. As discotecas abrem finalmente. Com esta medida específica espera-se que diminuam os grandes aglomerados de jovens nas ruas e a violência e o crime que tem surgido na noite da capital nas últimas semanas.

"Nada justifica continuar a impor restrições aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos", disse ontem António Costa. Os portugueses anseiam por esta reabertura, que é importante não só para todo o tecido empresarial, "mas também para a nossa saúde mental", reconhece o bastonário, Miguel Guimarães. Ainda assim, "a pandemia não acabou" e "o risco permanece", admite o primeiro-ministro. A responsabilidade passa agora, e ainda mais, para o plano individual de cada cidadão. Cabe aos portugueses não repetir a situação catastrófica do último Natal, mas também caberá ao governo ir apertando a malha de cada vez que a saúde pública o exigir. Desta grande missão ninguém poderá lavar as mãos.

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