A um ano de Tóquio com esperança olímpica na canoagem e no... skate

Os próximos Jogos Olímpicos arrancam a 24 de julho do próximo ano. Portugal conta com 13 atletas já apurados, mas espera levar ao Japão entre 70 e 80, com duas medalhas na mira.

24 de julho de 2020. Será daqui a um ano que a elite do desporto mundial se vai reunir em Tóquio, no Japão, para a próxima edição dos Jogos Olímpicos. Uma edição para a qual Portugal tem, para já, 13 atletas apurados, mas com a expectativa de que várias dezenas se juntem a Patrícia Mamona, Carla Salomé Rocha, Evelise Veiga, Pedro Pichardo e João Vieira (atletismo), Alexis Santos, Ana Catarina Monteiro, Diana Durães, Gabriel Lopes e Tamila Holub (natação), Fu Yu (ténis de mesa) e Jorge Lima e José Costa (vela).

"Não estamos preocupados nem eufóricos. O número de atletas apurados é de 13 e em igual período do ciclo olímpico anterior eram 17. Há algum decréscimo, o que é natural, porque os critérios de apuramento ficaram mais seletivos e apertados, e muitos dos percursos de apuramento só agora se estão a iniciar. É normal haver essa décalage. A nossa expectativa é termos entre 70 e 80 atletas. Acreditamos que a nossa participação vai oscilar entre esses números", considera o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, que tem como ponto de comparação os 92 atletas que a comitiva nacional levou ao Rio de Janeiro em 2016, sendo que 18 desses elementos eram da seleção de futebol, que desta feita não logrou a qualificação.

Sobre as expectativas em relação ao desempenho luso no certame, o líder do COP aponta à superação quanto ao número de "posições de pódio, finalistas, semifinalistas, equilíbrio entre homens e mulheres e modalidades representadas", mas alerta que a avaliação ao desempenho da comitiva não pode ser feita exclusivamente através do medalheiro. Afinal, há atletas que poderão melhorar marcas pessoais e bater recordes nacionais mas sair da capital japonesa de mãos a abanar.

"Tenho alguma relutância em responder a essa questão, porque os resultados têm três leituras: desportiva, mediática e política. E essas leituras nem sempre são coincidentes. A avaliação mediática está muito centrada nas posições de pódio, que tem relevância e importância, mas não esgotam a avaliação da comitiva nacional. A participação no Rio de Janeiro (2016) teve apenas um pódio mas foi a segunda mais elevada, a seguir a Atlanta (1996)", explicou Constantino, em alusão aos 92 atletas presentes - apenas superado pelos 107 levados a Atlanta -, aos dez diplomas olímpicos e à medalha (de bronze, por Telma Monteiro no judo) nos Jogos do Rio.

Difícil transportar resultados de Minsk

Depois do sucesso que foi a participação portuguesa nos recentes Jogos Europeus, em Minsk, com a conquista de 15 medalhas, entre as quais as de ouro da seleção de futebol de praia, de Fu Yu no ténis de mesa e Carlos Nascimento nos 100 metros, é tentador pensar em transportar esses resultados para Tóquio, mas José Manuel Constantino alerta que se trata de "contextos completamente diferentes".

"É possível fazer uma avaliação relativa no que concerne às modalidades ou disciplinas em que o continente europeu é o mais forte, como a canoagem. Mais difícil é avaliar o judo ou o ténis de mesa, porque o continente asiático é muito forte. Depende muito das modalidades", explicou o líder do COP.

Ainda assim, as medalhas de prata conquistadas pelo canoísta Fernando Pimenta nas provas de K1 1000 e K1 5000 são daquelas que fazem sonhar. "Se é o próprio atleta, o treinador e a modalidade dele que o dizem, não é o presidente do Comité Olímpico de Portugal que vai discordar de uma situação tão óbvia. É candidato como já o era no Rio, mas infelizmente não conseguiu. É um campeão do mundo... mal seria", vincou, em relação ao atleta de 29 anos, medalha de prata em K2 1000 metros em Londres (2012) juntamente com Emanuel Silva.

Surpresa pode vir de modalidade em estreia

Os Jogos de Tóquio vão ficar marcados pela inclusão de disciplinas adicionais de modalidades olímpicas como o basquetebol 3x3, o Freestyle BMX e a vertente de madison no ciclismo, o regresso do beisebol e do softebol e as estreias de karaté, escalada, surge e skate. É precisamente nesta última, uma das 33 modalidades em ação na capital japonesa, que poderá surgir a grande surpresa de Portugal no certame que se vai realizar no próximo ano.

"Devo ser cauteloso nas afirmações que faço, mas acho que temos condições para termos excelentes resultados no skate. Vão ficar surpreendidos com o que acabo de dizer, mas temos um jovem [Gustavo Ribeiro] que tem tido pontuações extraordinárias nas competições internacionais. Obviamente que é uma modalidade sem grande mediatismo e nós próprios a conhecemos mal, conhecemos pouco os atletas, mas temos estado a monitorizar a participação dos nossos atletas nos quadros internacionais e estamos muito surpreendidos com a participação desse atleta. Oxalá se possa confirmar", vaticinou Constantino, que também espera estar representado no surf e no karaté, ao contrário da escalada, modalidade envolta em "grande confusão" no nosso país porque a "federação que é reconhecida em Portugal [Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal] não é a reconhecida internacionalmente [Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada]".

Se a introdução do skate poderá ser uma boa notícia para a comitiva lusa, as esperanças na introdução dos 50 km marcha, vertente em que Inês Henriques é campeã europeia e mundial, são cada vez mais reduzidas. "Há uma reclamação no Tribunal Arbitral do Desporto que evoca a questão da disparidade de género. A confirmação definitiva do programa ainda não foi feita, mas no alinhamento que está é que os 50 km marcha sejam só para homens. E será a última vez, porque nos Jogos de Paris (2024) já não haverá 50 km marcha, passará a haver apenas 25 km", contou o presidente do COP.

Muito por apurar até 29 de junho

Apenas depois de 29 de junho de 2020, quando encerra o período para obtenção de mínimos para o atletismo, ficará fechada a Missão portuguesa a Tóquio. 114 atletas têm o apoio do COP, 13 já estão qualificados, mas há ainda muito por decidir.

A canoagem, que conseguiu os melhores resultados há três anos, terá o seu primeiro grande momento de qualificação nos Mundiais, de 21 a 25 de agosto, em Szeged, na Hungria.

No judo, em que o ranking de 25 de maio qualifica para os Jogos, são nove os atletas portugueses que estão, neste momento, em posição de qualificação, com destaque para Catarina Costa, sétima nos -48 kg, e Jorge Fonseca, 10.º nos -100 kg. Telma Monteiro, que conquistou a única medalha para Portugal no Rio de Janeiro, com o bronze nos -57 kg, está neste momento fora da qualificação direta, embora ocupe uma vaga de apuramento pela quota continental.

João Sousa, que na segunda-feira subiu ao 49.º da hierarquia mundial de ténis, está em zona de qualificação para o torneio individual, reservado para os 56 primeiros.

Quinto no Rio 2016, o triatleta João Pereira está neste momento dentro da zona de qualificação no ranking, tal como Ricardo Santos no golfe, podendo imitar as presenças de Ricardo Melo Gouveia e Filipe Lima da edição anterior, que marcou o regresso da modalidade aos Jogos.

No surf, uma das modalidades que se estreiam em Jogos em Tóquio, Frederico Morais está neste momento fora dos dez apurados do circuito mundial, apenas por um lugar.

Outra das modalidades em estreia, o karaté, também poderá ter representantes portugueses, com Patrícia Esparteiro a poder ainda beneficiar da medalha de bronze conquistada em kata nos Jogos Europeus, em Minsk.

Os Jogos da "sustentabilidade"

A próxima edição dos Jogos Olímpicos vai marcar o regresso do certame a Tóquio, que também acolheu os Jogos de 1964. A capital japonesa tornar-se-á a primeira cidade da Ásia a acolher os Jogos de verão por duas vezes e vai engalanar-se para o efeito.

O Governo Metropolitano de Tóquio reservou 400 mil milhões de ienes (cerca de 3,3 mil milhões de euros) para cobrir os custos da organização dos Jogos, não só em infraestruturas desportivas como no melhoramento da rede de transportes. Já profundo conhecedor da organização japonesa, José Manuel Constantino destaca a aposta na tecnologia e na sustentabilidade.

"Os Jogos estão a ter uma grande organização, que conclui as coisas muito atempadamente, contrariamente ao que ocorreu nos Jogos do Rio, e que é muito tecnológica e assente em princípios de sustentabilidade, dos materiais e dos recursos, com muitas preocupações de natureza ambiental. Há uma grande digitalização de todos os temas e até de transportes, com carros autorregulados, à imagem de grande tradição e cultura tecnológica do Japão", descreveu, lamentando apenas as "temperaturas elevadíssimas" que se preveem para as cerca de duas semanas em que se vão realizar os Jogos, entre 24 de julho e 9 de agosto.

O palco central dos Jogos de Tóquio será o Estádio Nacional, que também acolheu a edição de 1964 e que foi remodelado a pensar no Campeonato do Mundo de râguebi deste ano e nos Jogos, com um orçamento a rondar os 100 mil milhões de ienes (cerca de 825 milhões de euros). Porém, o projeto que inicialmente venceu o concurso para ficar a cargo do design do estádio foi abandonado devido a pressões dos cidadãos japoneses, o que resultou numa mudança de planos que atrasou a obra, que deverá ficar concluída em novembro, já não a tempo do Mundial de râguebi.

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