Vítor Gaspar, sai do corpo do Centeno!

Mário Centeno tem razão. Um Orçamento do Estado deve ser construído a pensar na generalidade dos portugueses e não só em alguns setores. E faz bem, o ministro das Finanças, quando impede a devolução integral da progressão das carreiras dos professores.

A austeridade provocada pela crise económica e financeira não afetou apenas os professores. Tocou a todos, ou quase todos. Trabalhadores do público e do privado, por conta própria ou por conta de outrem, jovens, pensionistas, foi transversal. Porque haveria o país de devolver com retroativos as progressões nas carreiras dos professores e não devolver, com os mesmos retroativos, as pensões que foram cortadas aos pensionistas? Ou o dinheiro da sobretaxa que todos pagámos? Que direito especial têm os professores, diferente dos restantes funcionários públicos, que viram os seus salários cortados e a sua progressão na carreira igualmente congelada?

Mas não é este o argumento político de Centeno. O ministro prefere defender-se com o programa de governo - a recuperação do tempo de serviço dos professores não estava lá - e com o muito que este executivo já fez pelos docentes, sobretudo em comparação com o que foi feito noutras carreiras na administração pública.

Mário Centeno puxa o filme ainda mais atrás e argumenta com as regras criadas pelos seus antecessores - Maria Luís Albuquerque e Vítor Gaspar - para lembrar que nunca esteve previsto devolver o período de congelamento. E se ele, Mário Centeno, se limita a cumprir essas regras, isso só pode significar que concorda com elas.

Por fim, o último e o mais importante dos argumentos do ministro das Finanças é este: o país não está em condições de responder às reivindicações dos professores. É sempre uma questão de opções políticas e a opção de Centeno passa por manter a trajetória de reabilitação das contas públicas, sem deixar de cumprir o que ficou acordado com os parceiros à esquerda. Ora, o descongelamento das carreiras dos professores não estava nos acordos com o Bloco de Esquerda e com o PCP. Logo, Centeno não se sente obrigado a cumprir uma coisa que não estava acordada e que vem acrescentar despesa ao Orçamento do Estado.

O ministro das Finanças sabe que a Portugal não basta sair do Procedimento por Défice Excessivo. Um país que tem uma dívida astronómica - acima dos 120% do produto interno bruto - tem de estar consciente de que qualquer passo em falso pode deitar tudo a perder, que o contexto externo é incerto, que os juros não vão ficar eternamente baixos e que o país precisa de se preparar para futuros choques.

Acresce que Mário Centeno não é apenas o ministro das Finanças, é também presidente do Eurogrupo, o que lhe traz - a ele e ao país - uma responsabilidade acrescida. A Centeno não basta ser "o bom aluno" de Bruxelas, ele tem de estar no quadro de honra, porque só assim é possível pegar na palmatória e pedir a mão de outros Estados membros, mais faltosos e menos cumpridores.

E, em tudo isto, é impossível ignorar a enorme ironia política. É que, na entrevista ao Público, Mário Centeno tem frases que podiam ter sido ditas por qualquer dos seus antecessores, incluindo Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque. Com todas as diferenças políticas - que existem -, há uma base que os une, e essa base não é apenas a necessidade de cumprir com as metas orçamentais, é a vontade, sempre maior, de "ir para além da troika", para além das metas. Apesar de todos os discursos feitos no passado sobre as regras da União Europeia, sobre o Tratado Orçamental, Centeno sabe, como António Costa também sabe, que os defeitos da Europa não se corrigem aos berros, mas ao ouvido do ministro das Finanças alemão... tal como Vítor Gaspar fez.

Ao João Semedo

Conheci-o na comissão de inquérito ao BPN e gostei imediatamente dele. É daquelas coisas de pele, não sei explicar. O João era dos bons. Fomos trabalhando juntos ao longo dos anos, eu como jornalista, ele como deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Nunca me rejeitou uma chamada e nunca me deixou sem resposta, mesmo quando não me podia dizer nada. Mesmo quando já lhe era difícil falar. Sempre leal. Sempre inteligente. Sempre gentil. Calcorreámos muita calçada por esse país fora, em campanha eleitoral, cada um na sua função. Estendi-lhe várias vezes o microfone e ele, que nem sempre respondia ao que eu tinha perguntado, raramente me atirou com o politicamente correto. Sempre convicto. Sempre acutilante. Sempre leal, inteligente e gentil.

Ao João Semedo só quero dizer obrigado. Foi e será sempre um prazer.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)