Primeira piloto aviador naval da Marinha chumbou... para a Força Aérea

Mónica Martins comanda o mais recente navio de patrulha oceânica da Marinha, o Sines, que representa um grande salto tecnológico em relação aos dois navios da mesma classe em serviço.

Manuel Carlos Freire
A comandante Mónica Martins recebe o estandarte nacional das mãos do chefe do Estado-Maior da Marinha, almirante Mendes Calado. | foto Marinha
A comandante Pereira Martins é piloto aviador naval. | foto Marinha
A comandante Mónica Martins (à direita) assiste à assinatura do livro de honra pelo primeiro-ministro, António Costa, na cerimónia de batismo do NRP Sines. | foto ARMÉNIO BELO/LUSA
Capitão-tenente Mónica Martins vai comandar uma guarnição com 44 efetivos. | foto Marinha
O NRP Sines foi batizado na sexta-feira, nos estaleiros da West Sea em Viana do Castelo. | foto ARMÉNIO BELO/LUSA
A guarnição do navio de patrulha oceânica Sines, com a comandante Mónica Martins na primeira fila (à esquerda). | foto Marinha

A capitão-tenente Mónica Martins, que é a décima mulher a assumir o comando de um navio de guerra português e a primeira piloto aviador naval, entrou na Marinha "por acaso" e após chumbar nos testes para piloto da Força Aérea.

Piloto aviador naval, Mónica Martins está desde 6 de julho ao comando do mais recente Navio da República Portuguesa (NRP), o patrulha oceânico Sines - cuja cerimónia de batismo decorreu na sexta-feira nos estaleiros da West Sea em Viana do Castelo.

A opção de concorrer para as Forças Armadas surgiu no último ano do secundário, em 1994, quando também entrou para a faculdade (Matemática, via de ensino). Mas as áreas disponíveis no Exército não a atraíam e, na Força Aérea, chumbara nos testes para pilotagem (ficando aprovada para engenharia).

Já a Marinha foi diferente: "Fizemos os testes na base naval, houve logo um contacto com os navios, com os cadetes, vimos logo a escola onde iríamos estudar se entrássemos... Senti-me mais entusiasmada do que ir ao Lumiar, onde só vi o hospital", recorda Mónica Martins ao DN.

Das sete mulheres que entraram nesse primeiro curso da Escola Naval (EN), dois anos após as primeiras militares femininas (MIF, na gíria castrense) serem admitidas na Marinha para a categoria de praças, Mónica Martins foi a segunda dos cadetes da classe de Marinha e a primeira das três que chegaram ao fim em 1999.

Isso faz com que a comandante Pereira Martins, como é conhecida na Marinha, esteja na calha para ser a primeira oficial saída da EN a chegar ao almirantado e, eventualmente, ao topo da hierarquia do ramo.

Mónica Alexandra Pereira Martins, natural de Tomar, casada com um militar da Marinha, mãe de dois filhos, é natural de Tomar e já tem 17 mil horas de navegação, além de mil horas de voo como piloto aviador - formada na Força Aérea.

"Voltei a fazer testes" em 2004 "e no mesmo sítio", recorda. "Da segunda vez passei", adianta com um sorriso. Depois de quase dois anos de formação teórica e prática em asa fixa (Epsilon) e asa rotativa (Alouette III), seguiu-se um na conversão para os helicópteros Lynx que equipam as fragatas.

"Aprender a voar no mar e aterrar em navios é um pouco diferente", observa esta oficial da classe de Marinha - os únicos que podem chefiar o ramo.

Mónica Martins chegou mais tarde do que outras MIF ao comando de um NRP, precisamente porque seguiu a carreira de piloto de helicópteros - o que, segundo explicou um oficial ao DN, ajuda a explicar o seu grau de exigência (porque ali um erro é quase morte certa).

A comandante Pereira Martins "é calma mas tem pelo na venta quando é preciso", conta ao DN um oficial superior do ramo que a descreve também como "exigente e reservada".

Segundo outra fonte que já integrou a mesma guarnição de um navio onde estava Mónica Martins, esta MIF "não tem feitio fácil se as coisas correm mal". Aliás, frisou este oficial, a militar "tem mau feitio [e] é um bocado implacável" com quem erra ou facilita.

O ponto, explica uma alta patente que invoca a escola inglesa onde as guarnições dos navios combatentes da Marinha são treinadas, aprontadas e avaliadas, é que "um comandante não pode ter azar".

O porta-voz do ramo adianta ao DN que a guarnição do navio de patrulha oceânica (NPO) Sines - o terceiro navio da classe Viana do Castelo, mas tecnologicamente bem mais evoluído do que os dois ao serviço e construídos há vários anos - não vai a Inglaterra porque aquele é um navio não combatente.

No entanto, sublinha o comandante Pereira da Fonseca, a formação das guarnições dos navios não combatentes é adaptada em função daqueles padrões.

2006 foi o ano em que a primeira MIF - a segundo-tenente Gisela Antunes, que entrou na EN quatro anos após Mónica Martins e já saiu do ramo - chegou ao comando de um navio de patrulha e vigilância da Marinha, a lancha Sagitário.

Note-se que o primeiro NPOda classe Viana do Castelo é comandado também por uma MIF desde há alguns meses.

No caso do Sines, trata-se de uma "missão mais desafiante porque o navio é novo e a guarnição também começa do zero" em matéria de adaptação ao navio, admitiu Pereira da Fonseca.

"O que espero do comando... Ainda é muito fresco, não tenho tempo para pensar. Sei que é um grande desafio por o navio ser novo e exigir grande disponibilidade para aprender", diz a primeira comandante do Sines.

Em rigor, o navio ainda está na fase de construção e só dentro de um ano será entregue em definitivo à Marinha. Estes primeiros dois meses destinam-se a provas de mar para detetar anomalias naturais num produto novo e complexo como são os novos NPO (o Sines e o Setúbal, a batizar em janeiro de 2019).

Em simultâneo haverá treinos para a guarnição aprender a operar o Sines em segurança, adianta Mónica Martins, promovida ao atual posto de capitão-tenente há quase oito anos (outubro de 2010).

Antes de ser piloto aviador naval, a comandante Pereira Martins desempenhou diversas funções na corveta João Roby e na fragata Vasco da Gama, onde foi adjunta do chefe do serviço de navegação e chefe das equipas de abordagem.

Já como piloto de helicópteros, foi chefe do serviço de helicópteros na Vasco da Gama e na D. Francisco de Almeida depois de ser adjunta dessa área nas guarnições das fragatas Álvares Cabral e Corte-Real.