Empresários que resistem. Estão mais preparados, nem todos otimistas

O DN acompanhou há dez meses cinco empresas nas áreas da restauração, serviços, cultura e desporto. Continuam, apesar das quebras na faturação para a maioria.. As críticas vão para as medidas governamentais e para quem não cumpre as regras.

O DN visitou cinco negócios que tentavam resistir ao primeiro confinamento devido à pandemia, em março de 2020. Trabalham nas áreas da restauração, serviços, cultura e desporto e continuam a resistir, apesar das quebras na faturação para a maioria. Dez meses depois, foram apanhados num segundo confinamento. Sentem-se mais preparados, utilizam melhor as tecnologias e esperam ultrapassar esta fase, mas com medo e incerteza pelo futuro. As críticas vão para as medidas governamentais e para quem não cumpre as regras.

O primeiro confinamento foi aprovado pelo Conselho de Ministros a 19 de março de 2020, com entrada em vigor às 00:00 do dia 22 desse mês. Fechou espaços comerciais, restaurantes, escolas e igrejas, entre outros estabelecimentos considerados não essenciais. A 4 de maio começou-se a desconfinar, com os restaurantes e similares a poderem receber clientes a 18 maio, mas, por exemplo, as creches, cinemas e salas de espetáculo só o puderam fazer a 1 de junho.
O país paralisou, com raras exceções e os cinco empresários entrevistados para a reportagem "Histórias de quem resiste: da cozinha à ginástica, negócios reinventados", fecharam uns dias. Até perceberem que podiam continuar a atividade.
O segundo confinamento teve início às 00:00 do dia 15 de janeiro. Nenhum dos cinco fechou desta vez, continuam a resistir apesar das dificuldades.

Comida de conforto em casa

Ana Graça mexe nos tachos e vê os pedidos para o dia, não muitos. Estamos a meio da semana e só registou cinco para o almoço, refeição que funciona melhor que ao jantar. "Não é nada para a estrutura do restaurante O Nobre", observa Ana. É irmã de Justa Nobre, iguais, sobretudo na voz e na rapidez ao falar. Transmontanas, claro.


Três irmãs e dois cunhados uniram esforços para a abertura do espaço há 12 anos, um núcleo duro que se tem mantido. Junta-se um filho de Justa e mais 14 funcionários e está feita a lista de empregados que têm conseguido manter. Saíram dois por sua iniciativa, que terão emigrado para Inglaterra.

"Mantemo-nos com muita resiliência, como sempre, o mesmo sacrifício e a vontade de levar tudo para a frente. Ainda não desistimos, não queremos desistir". É a receita da chef Justa para ultrapassar a grande quebra na faturação devido à doença da covid-19. Há dez meses, fecharam quatro dias para reabrir com clientes à distância, mantendo a ementa tradicional. Agora, continuaram a trabalhar com take away (entrega à porta do restaurante) e delivery (levar a casa), nas entregas através de uma parceria com a Timeless. E prepararam uma ementa com pratos do dia, a juntar ao cozido à portuguesa aos domingos. Este é o responsável pelas boas vendas, que fazem do domingo o melhor dia: 100 pedidos há uma semana entre os 150 que serviram para fora.
Têm funcionado numa contínua adaptação. "O take away foi bom em dias específicos: Páscoa, Dia da Mãe, Natal, Ano Novo. Agora, criei um prato do dia, uma comidinha de conforto. Vamos ver como a vão receber, a sorte é que temos clientes antigos que nos vão fazendo sempre encomendas, mas não é a mesma coisa", diz Justa. Os pratos são meia desfeita com grão (segunda), jardineira de vitela com farinheira (terça) e favas com entrecosto (quarta), por 15 euros a dose; feijoada à transmontana (quinta), 18 euros; ensopado de cabrito (sexta), 20 euros, e pataniscas de bacalhau com arroz de feijão e grelos (sábado), 15 euros.
O Nobre começou a recuperar com a reabertura, agora, voltou à estaca zero, sublinha Justa Nobre, que não poupa nas críticas: "Parece que a covid só está nos restaurantes, cafés e hotelaria, que estes espaços são perigosos. Não é verdade. Cumprimos todas as regras de segurança higiénica e de distanciamento. Acredito que haja quem não cumpra, então façam vistorias, não pode pagar o justo pelo pecador. Não há perigo nos supermercados e nas mercearias onde toda a gente mexe? Já parece perseguição. Ainda somos dos que estão a trabalhar, mas o que pode fazer quem tem de fechar? Para onde vão os nossos impostos, que continuamos a pagar?".

Papelaria enche com os CTT

Ana Martinho fechou a loja três semanas durante o primeiro confinameto. Agora, a Papelaria Livros & Companhia continua com o mesmo horário 07:30-13:00 e 14:30-19:00. E, antes das 14:30 já tinha clientes à espera, mas não é para comprar material escolar, livros, canetas, cadernos ou jornais, o que pensava fazer quando montou o negócio, há 12 anos. É para levantar o abono, a reforma, pagar a água ou a luz, enviar ou receber encomendas. A papelaria fica na Ameixoeira e é o posto dos CTT de Santa Clara. É este o sustento, apesar das margens pequenas que recebe por tais serviços.

É um espaço amplo, agradável, com o material de papelaria necessário, também livros e brinquedos, mas nem tem havido necessidade de o repor, esta área está parada. Tiveram que se adaptar e saem mais as fotocópias e impressões de documentos que os clientes levam no telemóvel, como o certificado de circulação; e as encomendas e envios pela Internet. Quem ali vive, agradece, até porque as estações de correios têm encerrado, como a da Calçada de Carriche. Gente a quem trata pelo nome e, deu para ver, sobre a qual sabe muito da história de vida.
"Na altura do Natal, houve muito movimento, as pessoas não foram às compras e encomendaram pela Internet. Vivem aqui muitos ciganos, feirantes, que também vendem pela Internet", conta a Ana. Esgotaram as embalagens de correio.
Apesar de todas as dificuldades, Ana Martinho está confiante em relação ao futuro. "Acredito que a situação vai melhorar, que as pessoas ganhem juízo e fiquem em casa, também que a vacina faça efeito. E, depois, que as pessoas voltem à rua e às compras. O dinheiro mexe dinheiro. Se não há quem compre, também não há quem venda".

Gravações de "show" adiadas

O ano passado, Marco Horácio reagiu ao fim dos espetáculos com uma proposta de humor televisiva, A vida lá fora, na TVI. Fez, depois, o concurso Boom e participou no Somos Portugal. Tem um novo programa, com Pedro Fernandes, mas as gravações estão em stand by. O início foi adiado de fevereiro para março.
"A nossa vida depende do civismo das pessoas. Neste momento, a única coisa que podemos fazer é escrever e definir os sketch para quando começarmos a gravar. Queremos fazer uma coisa com um bom conteúdo e uma boa investigação, preparamos a parte teórica", conta o apresentador e humorista.
O primeiro confinamento foi particularmente difícil para quem trabalha na cultura, os teatros e alguns palcos abriram e as pessoas estavam a habituar-se às novas regar, e, agora, fecharam de novo.
"Há pessoas que nunca mais voltaram a trabalhar e é toda uma burocracia para conseguir apoios, realça Marco Horácio, salientando: "Conseguimos fazer um trabalho de empresa [Rouxinol Faduncho] e esse valor reverteu para os meus músicos e técnicos e conseguiram fazer um ou outro espetáculo, mas é tudo muito difícil".


De tal forma, que o humorista põe em causa as iniciativas online, nomeadamente para empresas. "Cheguei a fazer, o que acontece é que isso levou a que fossem praticados cachets vergonhosos. Não gastam em espaços e oferecem quantias impensáveis, perdeu-se o respeito pelos profissionais da cultura. É muito difícil de gerir, mesmo emocionalmente".

Critica, também, as autarquias, que suspenderam as iniciativas culturais e não fizeram uma agenda cultural para 2021. "As câmaras demtiram-se de criar uma agenda cultural, percebemos que tenham de canalizar os esforços para a luta contra a covid, mas nada está a funcionar a nível cultural, este país não pode deixar de ter cultura. Esqueceram-se dos artistas, puseram-nos de parte. Estamos num buraco e não há esperança que possa melhorar". Espera para ver a quem vão chegar, e quando, os apoios.

Marco Horácio, que diz ter sido sempre um otimista, confessa que está desanimado. Sobretudo com o comportamento das pessoas, a quem atribui a principal causa de o número de infetados com o SARS-CoV-2 continuar a aumentar, ainda este sábado se bateu novo recorde (ver números) . "Não tem sido fácil, mas há quem esteja pior. Nós ainda conseguimos estar com a família, dar um passeio higiénico. Mas há quem perdesse familiares e os profissionais de saúde, os bombeiros, etc., não podem ficar em casa. O egoísmo está a tomar conta de nós. As pessoas sabem que têm de usar máscara, pôr gel, ficar em casa, mas continuam a olhar para o lado. Acho, até, que todos os alertas que puser na minha página são em vão, parece que não querem saber. É frustrante, gosto de intervir, mas é frustrante, parece que só percebem quando as coisas as tocam".
Recorda o primeiro confinamento, em que os números da pandemia eram muito inferiores, e as pessoas observaram as regras. "A pandemia vai passar, mas vai passar a que custo? O meu descrédito e desânimo é para com a atitude das pessoas. Parece que perderam o respeito pela vida e por quem está a combater a doença".

Porco em sandes "gourmet"

O restaurante Pigmeu, em Campo de Ourique, deu lugar ao Reco-Reco: "reco" de recolha e "reco" de porco. Uma ideia acabada de criar, mas que foi pensada em outubro e experimentada durante as restrições do fim de semana. Levam a casa ou entregam à porta sanduíches feitas com carne alentejana de origem protegida.
Miguel Peres, o proprietário, explica que os pedidos estão a funcionar muito bem. É considerado um bom dia o que tem 26 encomendas - em média para duas ou três pessoas - e que, normalmente, é ao sábado. Estes dez meses de pandemia deram para perceber como continuar o negócio da restauração à distância. A grande mudança é que conhecem melhor esse cliente e dominam as aplicações digitais.
"Tivemos mais tempo de preparação. Antecipámos o que ia acontecer e preparámos uma marca de delivery com refeições pensadas. Na primeira vez, fizemos as entregas com os nossos petiscos e não funcionou, acabámos por ter um serviço de mercearia, que deixou de funcionar quanto acabou o primeiro confinamento. Tem sido uma constante adaptação", diz Miguel.

Adaptação que lhes permitiu manter os cinco funcionários, onde se inclui o proprietário. E que fez com que a quebra de faturação em 2020 não fosse além dos 25 %. Desta vez, fazem "gourmices" para "saborear em casa, no sofá". "A maioria são os nossos clientes do restaurante, mas estamos a ganhar novos, também pelo efeito da divulgação na Internet. Nem tem uma grande regularidade, são "gourmices" para comer de vez em quando", explica o empresário. Sublinha a grande solidariedade por parte dos clientes durante toda esta pandemia.

As sandes rondam os 14 euros, o custo da Katsu, a mais requisitada. "É porco alentejano DOC empanado, num pão feito à mão, com molho e couve coração, temperado com limão e maionese caseira", justifica. Tem um acordo com a Kitch, que fornece o serviço de estafetas.

O Pigmeu tem seis anos e estavam em crescimento antes da pandemia. Parou umas semanas no primeiro confinamento, mas em abril já serviam petiscos para fora. E juntaram-lhe a mercearia online, recorrendo aos fornecedores habituais. Correu bem enquanto estiveram fechados, deixou de ter sucesso quando reabriram. "Investimos na comunicação nas redes sociais e, quando reabrimos as portas, os nossos clientes fizeram questão de estar presentes e trazer pessoas. Também porque perceberam que eram cumpridas as distâncias e as regras de higiene".
Miguel Peres vê o futuro com otimismo. "Estamos mais preparados e vemos um fim à vista, embora o número de casos esteja a aumentar e a situação do SNS seja grave, mas há uma vacina. Está a ser mais fácil, estamos a fazer o que sabemos: comida, em vez de mercearia", justifica. O otimismo não o impede de ver o que está a acontecer na restauração, sobretudo, a quem tem um negócio tradicional. "É muito preocupante, nós somos novos, conseguimos adaptar-nos, sabemos trabalhar com tecnologias, agora, os restaurantes mais clássicos não têm possibilidades de o fazer, não têm acesso aos meios digitais, tanto eles como os clientes. Conheço vários que tiveram que fechar".

Treino em casa já funcionava

Pedro Almeida e a sua equipa criaram há nove anos a plataforma "Treino em casa", exercícios presenciais e online, com programas adaptados a quem treina. A proposta na Internet já agregava 50 % do negócio quando surgiram os primeiros casos da covid-19. Passou a 100 % no primeiro confinamento, o que voltou a acontecer na última semana. A diferença é que, durante estes dez meses, houve 30 % que não voltou à prática de exercício presencial. Passaram a ter 80 % de cientes a acompanhar à distância.


Tinham desenvolvido o software que lhes permite programar os treinos e acompanhar as pessoas online. O personal trainer (PT) não se queixa de falta de clientes, na grande maioria mulheres (65 %) "O nosso posicionamento neste ramo não mudou e as pessoas perceberam a necessidade de fazer exercício físico, sobretudo num momento como este, e procuram formas de fazer de o fazerem", explica Pedro Almeida. Presencialmente estão em Lisboa e no Porto, online para o mundo, como gosta de dizer A maioria dos clientes fala português, muitos emigrantes.
Em relação a este novo confinamento, sublinha: "Estamos mais preparados para passar esta fase, mas menos tolerantes em relação ao cumprimento das regras".

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