Premium O cão que mordeu o mundo

Não chega sequer a ser um segredo mal guardado que, numa democracia funcional, muitas das interacções públicas entre líderes políticos e a imprensa têm uma forte componente de encenação teatral. Esta descoberta (ainda com uma capacidade para proporcionar um choque efémero na adolescência) acaba sempre por se tornar reconfortante: o reconforto de saber que existe um guião, de saber que esse guião é conhecido por ambas as partes, de saber que existe um investimento consensual em respeitar alguns formalismos e de saber que há coisas piores do que repetição e previsibilidade. Portanto, as câmaras rolam e os microfones são erguidos, e um enxame de jornalistas grita perguntas como "o que é que acha?", ou "quer comentar?", ou "qual é a sua posição?", e um líder político imaculadamente penteado diz algumas coisas em resposta. Nem sempre há uma relação directa entre as respostas e as perguntas. Por vezes, o político diz as coisas que quer dizer (mesmo que seja apenas para não dizer outras); e, por vezes, o político diz coisas que não queria dizer, e essas coisas constituem uma gafe, e escrevem-se notícias com a palavra "gafe", mas depois tudo volta ao normal, ou então não volta, e o político que disse coisas é substituído por outro político, que vem dizer outras coisas, ou as mesmas coisas de outra maneira.

Um dos pressupostos que sustentam este formalismo é que o político compreende as perguntas e o assunto que motivou as perguntas, decidindo depois em conformidade se lhe interessa responder com uma verdade relevante, com uma verdade não relacionada, com uma fracção da verdade, com uma mentira, ou com uma mais ou menos hábil mudança de assunto que lhe permita ganhar tempo.

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