A ilustração mostra Vincenzo Lunardi e o balão que utilizou na viagem.

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O italiano que voou de Lisboa ao Alentejo há 225 anos

Em 24 de agosto de 1794, o italiano Vincenzo Lunardi, veterano dos voos em balão, protagonizou em Portugal a primeira viagem aérea, entre Lisboa e Vendas Novas. Não sem antes ter passado pela cadeia do Limoeiro

Foi coisa nunca vista. Fardado a rigor, de oficial do exército britânico, alto e garboso nos seus 40 anos, o italiano Vincenzo Lunardi subiu para o cesto - batel, chamou-lhe o povo de Lisboa - da sua máquina aerostática, largou amarras e, perante as caras embasbacadas dos muitos assistentes que se tinham reunido no Terreiro do Paço, para testemunhar a prometida ascensão, elevou-se lentamente no ar.

Levado pelo vento que soprava de norte, o intrépido italiano voador flutuou na direção do rio e sobrevoou as águas com vagar, oferecendo um espetáculo sem precedentes aos lisboetas. Vincenzo Lunardi, como aqui foi chamado, protagonizou nesse dia 24 de agosto de 1794 a primeira viagem aérea tripulada em Portugal - cumprem-se hoje exatamente 225 anos. E porque o acaso e os ventos o levaram a aterrar horas mais tarde num campo a 11 quilómetros de Vendas Novas, a cidade alentejana está em festa, para comemorar a primeira viagem aérea no país.

O programa das comemorações, promovidas pela Câmara Municipal de Vendas Novas, iniciou-se a 1 de maio e vai decorrer até outubro, com atividades culturais e desportivas, música, conferências e, claro, voos de balão. Estes decorrem neste fim de semana.

"Foi um acaso que Lunardi tivesse aterrado aqui, a 11 quilómetros de Vendas Novas", conta ao DN a vice-presidente da câmara local, Elsa Caeiro. Um feliz acaso, uma vez que isso "colocou o nosso concelho no roteiro dessa primeira viagem aérea no país". Comemorar a efeméride, sublinha a autarca, "contribuirá para trazer novos visitantes a Vendas Novas, que é a porta do Alentejo".

Jornada começou no Terreiro do Paço, pelas 16.45

Para hoje, o programa inclui uma conferência na Capela Real sobre a histórica viagem, com a participação de dois especialistas, Henriques Mateus e Lima Bastos, o descerramento de uma placa comemorativa e, à noite, um espetáculo de música e luz, o Night Glow, no qual não faltarão os balões de ar quente. Ancorados ao solo, farão os chamados voos cativos, com a ascensão sobre um ponto fixo, em que todos estão convidados a participar.

No domingo, a festa prossegue com voos livres de balão, "e o município oferece quatro desses voos, que serão sorteados durante a festa do Night Glow", adianta Elsa Caeiro. Até outubro, no âmbito das comemorações, vão ainda decorrer um encontro de aeromodelismo e concertos pela Banda da Força Aérea.

A jornada histórica de Lunardi, que partiu do Terreiro do Paço há 225 anos, pelas 16.45 de um dia radioso, foi um sucesso. O vento soprando manso de norte, rodando depois de oeste e noroeste, empurrou o balão e o seu passageiro para sul, e depois para sudeste. Rezam as crónicas da época que por muito tempo ainda os lisboetas ficaram a ver a máquina aerostática, como então lhe chamavam, a afastar-se cada vez mais, até que ela se transformou num pequeno ponto no céu e, depois, desapareceu.

No relato que mais tarde mandou imprimir em Lisboa sobre a sua própria proeza, Vincenzo Lunardi conta que a viagem, com a duração de três horas e 45 minutos, atingiu uma altitude máxima de sete quilómetros, algo que os peritos hoje consideram exagerado, e o levou, já noite estrelada, até um descampado. Aquela era já a sexta vez que a cesta tocava o solo durante o voo, e foi aí, a 77 quilómetros de distância de Lisboa, que ele decidiu apear-se - o balão, livre do seu peso, voltou a elevar-se nos ares e voou para longe, tendo-lhe Lunardi perdido o rasto.

Nessa noite, segundo o relato que Mário Sampayo Ribeiro publicou em 1952 na Revista Municipal, uma publicação da Câmara Municipal de Lisboa, o italiano encontrou refúgio na cabana de um agricultor, que partilhou com ele uma refeição de melancia. Por ele, Lunardi soube que estava a duas léguas (11 quilómetros) de Vendas Novas, tendo-se posto a caminho da localidade, acompanhado do agricultor, depois de "algumas horas de sono reparador", nas palavras de Mário Sampayo Ribeiro.

A passagem pela localidade alentejana acabou por ser decisiva porque foi aí, pela pena do capelão da Capela Real, e graças ao testemunho do agricultor, que ficou lavrado o documento comprovativo do feito aéreo de Lunardi.

Segundo Mário Madeira, professor em Vendas Novas que estudou todo o episódio e que "propôs à câmara que se comemorasse os 225 anos dessa primeira viagem aérea", como explica Elsa Caeiro, o feito do italiano teve eco junto dos intelectuais da época. Escritores como Bocage ou José Agostinho de Macedo escreveram poemas à viagem de balão, que só foi possível graças à autorização do príncipe regente, mais tarde o rei D. João VI. No regresso de Vendas Novas a Lisboa, dois dias depois da sua espetacular partida, o italiano tinha conquistado o seu lugar na história de Portugal. Foi recebido pelo príncipe regente, agraciado com 40 moedas de ouro pelo duque de Lafões, e houve concertos e uma récita no São Carlos alusivos à viagem.

Um sucesso, apesar de Lunardi não ter começado da melhor maneira a sua aventura em Lisboa, poucos meses antes. Desconfiado dele, quando o italiano voador anunciou a sua intenção de viajar em balão em panfletos que colocou nas esquinas da cidade, ainda antes de ter autorização para o fazer, Pina Manique, o temível intendente da polícia, mandou prendê-lo. O italiano ainda esteve alguns meses no Limoeiro, até que tudo se resolveu em bem, quando o príncipe regente lhe concedeu autorização para usar a sua máquina aerostática.

Da Passarola às máquinas aerostáticas

O italiano Vincenzo Lunardi pode ter sido o primeiro aviador digno desse nome em Portugal - e em Inglaterra, Espanha ou Sicília, onde protagonizou também os voos pioneiros desses países e regiões -, mas atrás de si tinha já uma história de tentativas protagonizadas por outros visionários como ele. Um deles foi o padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão, o inventor da Passarola, no início do século XVIII, que o imaginário coletivo consagrou e Saramago transformou em personagem inesquecível em O Memorial do Convento. O Padre Voador, como ficou conhecido na época, chegou a fazer, em 1709, uma demonstração bem-sucedida da sua Passarola na corte de Lisboa, perante D. João V, mas em espaço fechado. O engenho cheio de ar quente subiu no ar, sem ninguém a bordo. Não foi uma viagem aérea, mas as experiências de Bartolomeu de Gusmão, algumas falhadas, foram pioneiras.