"Greves só das seis e meia às sete"

Quando é que sindicatos, parceiros sociais e, em geral, a comunidade percebem que é preciso repensar o papel da representação do trabalho e o seu funcionamento?

Neste verão, em vez da habitual exibição de uma comunidade que não consegue proteger o seu património comum, tivemos a enésima demonstração de um país de salários miseráveis, de trabalhadores que têm de fazer turnos do tempo da revolução industrial para levar mais umas migalhas para casa, de centrais sindicais que esqueceram a sua razão de ser ou, no mínimo, perderam a ligação com o mundo do trabalho, de empresas que aproveitam o facto de operar quase cartelizadas para limitar os direitos dos trabalhadores e de um governo que faz autênticas campanhas de marketing à custa do egoísmo e da cegueira dos demais cidadãos.

A primeira das medidas da nossa miséria ficou bem à vista ao depararmos com um tumulto quando trabalhadores lutam por não terem de trabalhar 60 horas para trazerem um salário condigno para as suas famílias.

A pergunta que surge é: serão só os motoristas de matérias perigosas? Todos sabemos que não. A realidade é bem mais dura. A esmagadora maioria das pessoas que trabalham para viver ganham mal, muito mal. Somos um país de salários baixos, cada vez mais baixos. Tem-nos sido dito (umas vezes claramente, como no tempo da troika, outras de forma mais disfarçada) que temos de nos tornar competitivos e que a melhor maneira é ganharmos menos.

Pois claro, a nossa produtividade é muito baixa. Culpa de quem trabalha, está claro. Nada a ver com a péssima qualidade de gestão das nossas empresas, da baixa qualificação dos nossos empresários, do facto de os principais setores produtivos nacionais trabalharem em oligopólio ou mesmo monopólio, com o todo-poderoso Estado a abençoar. Para quê melhores métodos, melhor organização, melhor formação, se para manter os lucros se podem manter os salários baixos? Poupa-se em maçada. Para que há de o Estado fomentar a concorrência se até os grandes empresários gostam do statu quo (uma delícia ver o empresário Alexandre Relvas, financiador de um jornal defensor do liberalismo de badana, a aplaudir a atitude do governo na greve dos motoristas)? Bom, e se houver greves que incomodam lá teremos o Partido Socialista para ajudar as grandes empresas a pôr os trabalhadores na ordem.

Tudo isto num país onde a diferença entre quem ganha mais e menos pede meças com os da América do Sul e no qual a desigualdade é das mais altas dos países da OCDE.

As pessoas não queriam ficar sem gasolina e o governo teve mão firme, oh se teve. Meteu-se numa guerra entre privados, e tomando o partido das empresas não se poupou a esforços. Foi ver os militantes destacados do Partido Socialista em campanha contra os grevistas mais os colunistas que costumam estar sempre com as greves - as simpáticas à causa, claro -, foi requisição civil, foi militares a fazer de fura-greves, valeu tudo.
Basta um bocadinho de nada de honestidade intelectual para imaginar o que seria se o governo fosse PSD, os direitos fundamentais estariam em causa, seria a prova de uma conspiração contra o direito à greve, seria a própria democracia sob ataque, mesmo que fossem usados os mesmo argumentos que o atual governo usou.

O mesmo governo que trouxe as 35 horas para os funcionários públicos, até militares chamou para substituir gente que trabalha 60. Por onde andam os que acusavam o anterior governo de pôr trabalhadores do privado contra os do público? Será que ninguém nota aqui um niquinho de falta de coerência? E que andam a fazer os fiscais do Ministério do Trabalho? Entende-se, ter doentes dez horas à espera de uma urgência, ou anos por operação, são umas centenas de votos perdidos, agora um país sem poder ir para férias a um mês de eleições era um bocadinho mais complicado.
A reação envergonhada das centrais sindicais à greve dos camionistas é outra questão relevante e um dos ângulos da fotografia da crise profunda do sindicalismo. Os problemas concretos dos trabalhadores foram há muito substituídos pela abstração "enquadramento dos direitos dos trabalhadores em geral". As centrais sindicais, nomeadamente a única ainda relevante, a CGTP, enquadrou tanto, mas tanto, a luta que se esqueceu dos problemas reais dos trabalhadores.

Greves boas só as das seis e meia às sete debaixo do cassetete, como cantava o Sérgio Godinho. Em termos dos grandes temas, a CGTP esqueceu, e longe de ser só agora, as grandes causas que têm de ser combatidas - os trabalhadores fora do sistema, os precários, os que lutam por entrar no mercado de trabalho e as novas realidades como a economia da partilha e do trabalho remoto -, ficando pelos que são fáceis de defender, os trabalhadores do funcionalismo público. Aí é que as greves são boas. Não é preciso grande esforço para se perceber porque é que os trabalhadores do setor privado deixaram os sindicatos tradicionais, é até muito simples: porque esses abandonaram quem mais precisava de ver os direitos defendidos.

Quando é que os sindicatos, parceiros sociais e comunidade em geral percebem que é preciso repensar o papel da representação do trabalho e o seu funcionamento?

É que para a democracia funcionar e haver o mínimo de equilíbrio entre trabalho e capital (e o facto é que o capital tem vindo a sobrepor-se de uma forma clara ao trabalho) é fundamental a existência de sindicatos fortes e focados nos direitos de todos os trabalhadores e não em classes específicas. E poupem-nos a conversas patéticas sobre ter de ser a esquerda (seja o que os conceitos de esquerda e direita ainda queiram dizer) a refletir sobre os sindicatos, como se esta tivesse o exclusivo da defesa dos trabalhadores, como se o mundo não tivesse mudado. Confundir uns patetas extremistas com aquela que tem sido, por exemplo, a democracia cristã nestes temas não passa de pura demagogia , já agora, que bem tem corrido a interferência de alguns dos partidos de esquerda no nosso sindicalismo nos últimos anos.
Areia, areia e ainda mais areia para os nossos olhos.