Viver até aos 100 anos e uma rosa por 120 contos

A promessa de um futuro com longevidade assegurada era atestada por "seiscentos especialistas": o "homem centenário" seria uma realidade "a partir do ano 2000", garantia o DN neste dia em que outro número fazia subir sobrancelhas: o valor milionário de uma nova flor.

A notícia era assinada pelo Harold Cardoso e trazia uma promessa de futuro melhor. Numa altura em que a esperança média de vida em Portugal pouco passava dos 60 anos, "seiscentos professores, médicos e biólogos reunidos em Londres no Congresso Internacional de Gerontologia" afirmavam que "a partir do ano 2000" haveria homens centenários.

O relato feito pelo correspondente especial em Londres, não sem ponta de ironia - "convém esclarecer que estes sagazes profetas exprimem por vezes verdades à La Palisse como a seguinte: 'o homem não morrerá a menos que seja atacado por uma doença mortal'" -, dava a notícia como certa e "sem receio de errar".

O jornal lembrava que em 50 anos a "média da vida humana" passara dos 48 anos para os 67. Mas afirmava que "a máxima segundo a qual um homem é velho a partir dos 40 persiste, não obstante todos os fisiologistas reconhecerem que os indivíduos de mais de 40 possuem uma vivacidade intelectual pelo menos idêntica à de um jovem de 25 e experiência e ponderação muito superiores".

Deixava ainda impressões das diferentes visões dos especialistas sobre o que poderia ajudar à longevidade: "Uns preconizam abstenção de álcool e tabaco, outros falam dos benefícios do whisky e dos charutos de boa marca." Todos concordavam, porém, num ponto: "As vantagens da atividade física e mental."

Nesta mesma edição do DN, uma chamada mais pequena mas nem por isso menos surpreendente: "Uma rosa por 120 contos". "A grande novidade da Exposição de Floricultura de Southport que se inaugura depois de amanhã será uma rosa azul", contava-se no DN. "Foram necessários mais de 10 anos a Samuel McGredy III (terceira geração de uma família de jardineiros que criou centenas de novas flores, muitas delas rosas) para chegar a este resultado que lhe custou perto de 120 mil escudos." A preços atuais e considerando a inflação e a mudança para o euro, esse valor ascenderia ao equivalente a mais de 50 mil euros.

De acordo com arquivos de botânica especializados em rosas, quando o pai, Sam McGredy II, soube dessa criação, mandou destruí-la de imediato. O argumento: "Não permitiria que a Casa de McGredy fosse responsável pela deterioração do bom gosto." McGredy III morreu cedo, aos 38 anos, e não fez nova tentativa. Até hoje, apenas existem rosas de algumas variações de lilás - nenhuma verdadeiramente azul.

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