Premium Estes marretas pedem bola vermelha no canto do ecrã

Marretas feios, porcos e maus numa comédia para adultos. Pela Hora da Morte chegou aos cinemas e é uma loucura de Brian Henson com orgulho na sua taradice sexual.

Indigesta mistura de filme de marionetas com humanos, The Happytime Murders é uma comédia que vai direitinha para o lote dos piores filmes do verão. Uma atrocidade do filho de Jim Henson (criador do The Muppets Show), Brian Henson, que quis fazer uma versão noir e sexualmente kinky dos Marretas.

Julgamentos morais à parte, esta bonecada não tem a mínima piada e representa uma humilhação extrema para Melissa McCarthy, a comediante de serviço que dá corpo e imagem humana a esta má ideia da STX, o novo estúdio de Hollywood que insiste em não acertar. McCarthy nunca foi tão irritante e maldisposta, dando vida a uma detetive de Los Angeles com fígado de marioneta que se vê envolvida numa investigação policial com um detetive privado boneco. Os dois fazem uma irreal parelha que tenta descobrir quem anda a assassinar os bonecos de uma sitcom de culto.

Na mente badalhoca (não chega a ser perversa), vemos estes marretas infernais a snifar açúcar (a cocaína destes seres), a praguejar a toda a hora e a virem-se das mais variadas formas. Tudo numa demonstração grosseira de humor raunchy convencido de que se safa só por ser atrevido. O picante aqui não chega a ser revoltante, é apenas estúpido e de um simplismo escatológico ao nível de uma degradação semelhante à que vimos recentemente na animação Salshicha Party, de Greg Tiernan e Conrad Vernon.

Ao lado dos bonecos que querem ter os mesmos direitos do que os humanos, há uma série de estimáveis presenças como Elizabeth Banks e Maya Rudolph, senhoras que já não tiveram mais graça. Peter Jackson em Meet the Feebles/Feebles, os Terríveis (de 1989...) já tinha pensado num contexto de bonecada com humor de adultos, esse sim com genuína transgressão.

O filme deste Henson pode constituir uma modelar consagração do humor de casa de banho, embora, aqui e ali, consiga arrancar-nos um modesto sorriso. E onde é mais competente é mesmo na derivação do modelo do filme de parelha de polícias dos anos 1980, onde não falta a narração e uma certa ingenuidade de estilo narrativo.

Pela Hora da Morte chega a Portugal na mesma altura do que nos EUA. Se fizer negócio é sinal de que a nova geração de miúdos americanos vai ficar mais estupidificada. Por cá, nesta silly season é melhor nem fazer prognósticos.

(2 estrelas)

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