Rigor só no défice

O governo apresentou os apoios "possíveis" para famílias e empresas resistirem aos efeitos da inflação que está a roubar-lhes capacidade e espaço de manobra há mais de seis meses como um generoso pacote de ajudas, mas não deixou ninguém contente. Sobretudo nos passos dados para enfrentarem a subida a pique nos custos energéticos. Exceto talvez os reformados que não façam muitas contas e que entenderão o bónus que chegará em outubro e e o aumento na pensão em janeiro como ganho efetivo, sem perceberem de imediato que, tudo somado, continuam em défice face ao poder de compra perdido.

"Não há milagres", têm repetido diferentes protagonistas do executivo, recordando o povo que vive num país pobre e que o dinheiro que o Estado distribui é retirado diretamente dos bolsos dos contribuintes, pessoas e empresas, através de impostos, taxas e taxinhas que penalizam o emprego, pesam sobre o consumo e castigam os lucros.

O problema é óbvio e está amplamente diagnosticado, dos custos de contexto à complexidade burocrática, do peso dos impostos nos salários à excessiva taxação de empresas que têm bons resultados, beneficiando-se as que não saem da cepa torta. Mas nada se vislumbra que possa precipitar mudanças estruturais que permitam desenvolver e robustecer a estrutura económica de forma a tornar o país mais resistente aos embates cada vez mais frequentes que temos de enfrentar.

No meio de uma transformação energética precipitada pelos constrangimentos da guerra, ainda a lidar com os efeitos de uma pandemia que acelerou a transição digital e perturbou profundamente o mundo do trabalho (novos empregos e funções em vias de extinção, trabalho remoto a provocar mais fuga de talentos, etc.), a tesouraria das empresas e as cadeias logísticas, é mais urgente do que nunca responder aos problemas estruturais e ter foco total em apanhar todas as oportunidades de crescer, captar investimento e fixar riqueza e mais-valia em Portugal. Ao governo, porém, não ouvimos mais do que tentativas de convencer os portugueses da virtude das ajudas de exceção.

Orientação de fundo, só a do controlo da dívida e do défice que, sob o rigorosíssimo olhar do ministro das Finanças, merecem esforços e atenção que não se viu sequer nos tempos em que estávamos sob intervenção da troika. De tal forma que o governo prefere aplicar os mais de 700 milhões de receita excessiva arrecadada à boleia da inflação - já depois de descontados os apoios cedidos às famílias - a emagrecer em mais 0,3 pontos o défice do que usá-los para chegar a mais pessoas ou para cortar mais na brutal carga fiscal das 300 mil empresas (em 1,3 milhões) que contribuem para os cofres públicos. E que são a principal fonte de emprego e de riqueza no país.

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