Marcelo, o corajoso

Reconduzir Joana Marques Vidal seria a solução fácil para Marcelo Rebelo de Sousa. Fácil e popular. Ajudaria à reconciliação com uma parte do seu eleitorado natural que anda descontente com ele e deixava-se ir na onda do discurso dos berradores supostamente anticorrupção, sem que tivesse de facto de a cavalgar.

Só que em Belém mora um estadista. Um homem que não troca popularidade fácil por princípios e convicções - neste caso uma convicção com mais de vinte anos, como lembrei aqui na semana passada. Alguém que sabe que uma das principais funções de um Presidente da República é preservar o bom funcionamento das instituições. E era tão-somente isso que estava em causa: garantir que uma parte fundamental do edifício jurídico funcione independentemente de quem a serve em determinado momento. Mais, que não haja avaliações político-partidárias sobre o desempenho do mandato de um procurador-geral da República e por tal ser fundamental evitar a recondução de quem quer que seja, por muito bom que tenha sido o desempenho no cargo.

Apesar de ao primeiro-ministro estar atribuído um papel relevante neste processo, os que conduziram a campanha que visava partidarizar definitivamente o Ministério Público sabiam que a António Costa tanto se lhe dava a escolha para o lugar. Como excelente tático que é, sabia que a recondução não o afetava nada - até lhe daria créditos na imagem pública, certa ou errada, de que o PS quer controlar tudo. A chave estava em Marcelo e foi sobre ele que assentou a violência da campanha.

Enganaram-se os que pensavam que Marcelo cederia a pressões, nomeadamente pressões que mexessem com a sua popularidade. E foi exatamente por aí que a campanha de condicionamento da decisão do Presidente da República se iniciou: não reconduzir Joana Marques Vidal seria pactuar com os que não querem que a corrupção seja combatida, seria ir contra o que o povo quer (uma das estratégias da direita Observador, como de todas as direitas populistas, é convencer as pessoas de que eles são os representantes do povo e que estão a lutar contra as elites; sim, o desplante não tem limites). E, claro, os argumentos socratianos do costume.

Pensando que esta estratégia não seria suficiente, passou-se para uma das maiores tentativas de intoxicação da opinião pública de que tenho memória.

Valeu rigorosamente tudo. Desde a invasão do espaço mediático em que se garantia que a saída de Joana Marques Vidal correspondia à chegada da impunidade com a corrupção até à invenção de reuniões em que se garantia que o Presidente da República teria convencido Joana Marques Vidal a manter-se no cargo, foi um fartar vilanagem. Chegou-se a publicar, sem sequer se dizer que tipo de fontes tinham sido ouvidas, que a PGR teria cedido aos apelos do Chefe do Estado para ficar (a ainda procuradora-geral garantiu nunca sequer lhe ter sido sugerida a recondução) e descreveram-se com todos os pormenores conversas que nunca existiram, encontros que nunca aconteceram e propostas que nunca foram feitas.

Todas estas "informações" foram dadas sem outro intuito que não fosse pressionar por todos os meios Marcelo Rebelo de Sousa e criar uma realidade virtual que não lhe deixasse alternativa ou que lhe trouxesse muitos custos políticos no futuro. As fake news foram tantas e tão persistentes que, numa atitude pouco usual, o Presidente da República se viu forçado a emitir uma nota oficiosa lembrando o óbvio, ou seja, que nunca tinha dado pública ou privadamente informações sobre esta sensível matéria. Joana Marques Vidal merece todos os encómios tanto pelo seu desempenho do cargo como pela impecável atitude durante toda a lamentável campanha a que assistimos.

Dir-se-á que as tentativas de condicionamento serão legítimas. Sem dúvida. Mas não quando são feitas a coberto do manto jornalístico. Uma coisa é alguém dar uma opinião, outra é informar. E a bem da verdade é importante que se diga que não vi nenhum órgão de comunicação social a garantir que o Presidente da República já tinha decidido não reconduzir a procuradora-geral da República.

O papel desempenhado por alguns jornais neste processo foi grave porque põe em causa o papel do jornalismo na nossa comunidade. A tentativa de politizar o Ministério Público foi gravíssima porque mostrou que há quem ache que a preservação das instituições e o cuidado no seu bom funcionamento podem ser usados para a luta partidária.

Valha-nos ter um Presidente da República que nestes tempos difíceis se mantém firme na defesa dos valores do Estado de direito e que não cede na defesa intransigente do bom funcionamento das instituições. Mais do que tudo, temos um homem corajoso como Presidente da República.

Octávio "Passos Coelho" Machado

Diz Passos Coelho numa carta aberta a Joana Marques Vidal que a procuradora-geral foi substituída por motivos que ficaram escondidos. Diz mais. Diz que "não houve, infelizmente, a decência de assumir com transparência os motivos que conduziram à sua substituição". Ou seja, temos um ex-primeiro-ministro que faz insinuações e difama o Presidente. Ficamos conversados sobre o seu sentido de Estado. O ex-primeiro-ministro está apostado em regressar o mais depressa possível à liderança do PSD. Que a primeira vez que diz alguma coisa seja, no fundo, para defender a politização do Ministério Público é lá com ele, mostra apenas o vazio da sua agenda. Que faça insinuações graves sem dizer exatamente do que está a falar é apenas, agora sim, indecente. Passos Coelho transformou-se naquele ex-treinador de futebol, Octávio Machado, que ameaça dizer coisas mas esconde-se sempre por trás da frase "vocês sabem do que eu estou a falar". No fundo, Passos Coelho parece apostado em ser o Octávio Machado da política portuguesa.

Foram manipulados? Manipularam? Inventaram?

Num momento em que o jornalismo atravessa uma grave crise, nada pior do que termos percebido que, no processo de escolha da PGR, houve jornalistas que foram manipulados. Ou que cederam mesmo a uma agenda político-partidária. O caso do Observador não é representativo. Ninguém espera isenção da Fox News à portuguesa, mas sim um declarado "jornalismo" de fação ou panfletário. Num certo sentido até foi bom ter lido coisas como a descrição de reuniões que nunca existiram e depois ver a raiva dos principais mentores do jornal à nomeação feita pelo Presidente da República. Já não enganam ninguém. O problema é com os verdadeiros jornais. Não deixa ninguém sossegado perceber que jornalistas experientes possam ser facilmente manipulados ou, pior, façam dos seus desejos notícias. O mais grave é que isto não afeta apenas os que não cumpriram o seu dever de jornalistas ou foram negligentes: é todo o setor que fica em causa. E isso acontece, por muito que os outros órgãos de comunicação social tenham cumprido bem o seu papel, como foi, aliás, o caso do DN.

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