Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

No Brexit rir não é o melhor remédio. É o único remédio. Ah, como seria lindo ver o John Cleese, de chapéu de coco, casaco e colete escuros, calças cinzentas - enfim, um funcionário british como já não os há - e com aquele andar de quem trabalha no Ministério dos Passos Esquisitos! Bastaria um dos brilhantes e bizarros Monty Python andar atrás de Theresa May, nas tristes e bizarras andanças dela nos últimos três anos, para se confirmar que o programa inteiro da política inglesa são passos esquisitos.

À falta da qualidade do soberbo humor inglês que encantou sempre os demais europeus, há agora a quantidade de piadas inglesas sobre o que lhes acontece. Ser vítima, se não garante sempre bom humor - o caso judeu é exceção -, pelo menos garante muitas larachas. Piada seca em Inglaterra, conta o jornal Le Monde de ontem: "Um francês, um britânico e um irlandês entram num bar. O britânico vai embora." Fim da piada. Mas não é exata: o britânico não vai embora, diz, isso sim, que vai embora. Ora isso começa a não ter piada nenhuma.

Ou pior, porque as piadas são como o comer, abrem o apetite: "Um francês, um britânico e um irlandês entram num bar. O britânico vai embora, mesmo!" E isso não é o fim da piada: "Tendo o britânico ido embora, um escocês entra no bar e junta-se ao francês e ao irlandês..." Trágico para a Grã-Bretanha, cujo pretensioso "Grã" passa a ser uma piada em si. E por aí adiante: o irlandês da anedota inicial, que se presume ser da república independente, capital Dublin, aproveita colar-se ao irlandês da Irlanda do Norte, capital Belfast... E a tal Grã-Bretanha cada vez mais Little!

Entretanto, no Financial Times, o caricaturista Banx põe um casal britânico, no findo do dia, lendo no sofá. Ela, um livro, ele, um jornal, com o eterno "Brexit" que não descola das capas. Ele tem uma solução, talvez a única que ainda não lembrou às baratas tontas dos políticos britânicos: "Quanto mais cedo sairmos, mais cedo podemos voltar a pedir para aderir..." Isso, a voz do povo, sensata. Porque, quando o mesmo Banx põe um político a vociferar num altifalante, empresta-lhe estas palavras: "Nós não queremos fazer parte de uma União Europeia em crise! Nós sabemos muito bem falhar sozinhos!"

Empresta-lhe, escrevi atrás, mas é mentira: tipos como o Farage e o Boris Johnson podiam ter dito o mesmo, quando lideraram a campanha pelo Brexit. Em todo o caso, mais do que dizer, estão agora a fazê-lo. Esses brexiteiros têm hoje como cúmplice a impotência dos (quase todos) conservadores e trabalhistas, que, vendo o país resvalar para a irrelevância, deixam-no ir, julgando que salvam os respetivos partidos e, sobretudo, os cargos.

Hoje, se eu fosse inglês, ria-me - o humor é o último refúgio dos que não querem ser confundidos com a manada estúpida. Não sendo inglês, restam-me as saudades do humor britânico, quando os jornais faziam manchetes, assim: "Nevoeiro no canal da Mancha. O continente isolado!" Já aí havia soberba despropositada, mas então os ingleses não faziam mal a si próprios.

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