Mexida no mapa europeu

Quem olhe para um mapa da Europa sem ter grandes conhecimentos de história provavelmente não perceberá muito bem a razão de Islândia, Noruega e Suíça não estarem na União Europeia (no caso do Reino Unido, o "Brexit" é tão recente que parto do princípio que é do conhecimento geral). Ora, quem olhe para o mesmíssimo mapa, mas com o azul antes usado para a UE a servir agora para identificar os países da NATO, estranhará também que Irlanda, Áustria, Malta, Suécia e Finlândia (agora é o caso da Suíça, célebre pela sua neutralidade, que admito ser mais do conhecimento geral) não integrem a aliança militar. As ausências de alguns países, tanto da UE como da NATO, são tão mais evidentes quanto se localizam na Europa Ocidental, e até para a metade leste ambas as organizações sediadas em Bruxelas se expandiram desde o fim da Guerra Fria, já lá vão três décadas.

Ora, as cores do mapa da Europa vão ter de ser depressa atualizadas para incluir a Suécia e a Finlândia como novos membros da NATO. Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de fevereiro, desapareceram de uma forma radical as reticências tradicionais das opiniões públicas desses países nórdicos a fazer parte da aliança militar fundada em 1949, e os próprios partidos políticos suecos e finlandeses adaptaram a sua visão à nova realidade. É uma excelente prova de como a tal guerra que Vladimir Putin recusa classificar como guerra veio afetar a geopolítica do continente e desfazer algumas certezas velhas de décadas (a neutralidade finlandesa) ou até de séculos (a neutralidade sueca).

O pedido de adesão dos dois países à aliança, concertado, e muito bem, entre os respetivos governos, tem escassas hipóteses de não ser bem-sucedido, por muito que algum membro atual, como a Turquia, procure criar obstáculos. É claro que se trata, da parte de Ancara, de uma estratégia para recolher alguns dividendos políticos (internos e externos), não de uma verdadeira oposição à entrada de suecos e finlandeses, que, na realidade, já têm forte relação de cooperação com a NATO desde, pelo menos, os anos 90.

É curioso que as origens da neutralidade da Suécia como da Finlândia têm a Rússia em comum. Mas de forma bem diferente: os suecos decidiram-se pela neutralidade durante a era napoleónica, depois de perderem o território finlandês para o Império Russo, que o transformou num grão-ducado; já os finlandeses, que em 1917 aproveitaram o caos revolucionário russo para se proclamarem independentes, tiveram de enfrentar em duas guerras no início dos anos 40 os invasores soviéticos (com relativo sucesso, pois mantiveram a independência, embora perdendo território) e a chamada finlandização durante a Guerra Fria foi uma neutralidade concertada com Moscovo para não reiniciarem o ciclo de guerras. De certa forma, do século XIX para o XXI, a Finlândia passou de território sueco e russo a país independente, decidido a defender-se de nova submissão a estrangeiros e daí investir em Forças Armadas, sobretudo nos últimos anos, enquanto a Suécia, depois de ver a sua conflituosa fronteira com o Império Russo recuar em 1809 para ocidente, ganhou um Estado-tampão em 1917 com o nascimento da Finlândia, o que lhe deu mais tranquilidade, mas nunca a fazendo desistir também de ter militares bem armados, tal como é hábito nos neutrais - basta pensar no mais célebre de todos, a Suíça. Assim, se a Rússia voltou a afetar o destino de suecos e finlandeses, não foi no sentido mais desejado por Putin, por muito que hesite agora entre ameaças (e retaliações) e desvalorização à forma como deve reagir a esta mudança súbita no mapa da Europa.

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