Premium Caso Benalla: crise passageira ou o Watergate de Macron?

Ministro do Interior francês vai nesta segunda-feira à Assembleia Nacional para responder às perguntas dos deputados sobre o ex-segurança do presidente filmado a espancar manifestantes. Macron mantém silêncio.

O caso Benalla está a dominar de tal forma a vida política francesa que a discussão sobre a revisão constitucional, defendida por Emmanuel Macron e que já durava há 11 dias consecutivos, foi suspensa na Assembleia Nacional até poder ser retomada "mais tarde, em condições mais serenas". O presidente mantém o silêncio sobre a polémica que tanto a esquerda como a direita comparam ao caso Watergate, que levou à demissão de Richard Nixon.

Hoje, a partir das 10.00 (09.00 em Lisboa), o ministro do Interior francês, Gérard Collomb, será questionado na comissão das Leis da Assembleia Nacional, responsável pelo inquérito ao caso do ex-segurança filmado a agredir manifestantes no 1.º de Maio. As audiências serão públicas, exceto em alguns casos por questões de "segurança do Estado". Amanhã, a partir das 17.45 (16.45 em Lisboa) será a vez de os senadores fazerem perguntas.

Neste escândalo, o que está em causa é a suposta proteção de um indivíduo que pertence ao círculo próximo do presidente (inicialmente só foi suspenso durante 15 dias) por parte dos altos cargos do governo, que não denunciaram o caso às autoridades judiciais. E já há quem peça a demissão de Collomb.

Macron sem o efeito Mundial

Macron ainda festejava a conquista do Mundial de futebol na Rússia quando a polémica rebentou, na quarta-feira. Para piorar, o barómetro BVA, que saiu na sexta-feira, veio mostrar que o presidente não beneficiou com a vitória dos bleus: só 39% dos inquiridos têm boa opinião do presidente, o valor mais baixo de popularidade de sempre do presidente, e 59% (mais seis pontos percentuais que um mês antes) manifestam o seu descontentamento com Macron.

O caso veio a público quando o jornal Le Monde revelou que, num vídeo de um protesto do 1.º de Maio, um dos homens que surgiam com um capacete da polícia francesa a espancar um manifestante era Alexandre Benalla, o segurança de Macron, que tinha sido visto ao seu lado ainda na segunda-feira, nos festejos da conquista do Mundial, em Paris. Por volta do minuto 1:54 do vídeo, o homem afasta-se do local quando se apercebe de que está a ser filmado.

Benalla, de 26 anos, era oficialmente encarregado de missão do chefe de gabinete do Palácio do Eliseu e responsável pela organização da segurança do presidente durante as suas deslocações. Tinha sido autorizado a estar na manifestação, mas apenas como observador.

Um dia após o protesto, o chefe de gabinete, Patrick Strzoda, foi alertado por um colaborador para o facto de Benalla ter sido reconhecido no protesto a espancar um manifestante. Convocado, Benalla admitiu que era ele nos vídeos, pelo que foi suspenso durante 15 dias e, supostamente, remetido a um cargo de segurança apenas dentro do Eliseu. Os media franceses já publicaram, contudo, fotos de Benalla ao lado do presidente em várias ocasiões.

Várias regalias

Tudo isto só veio a público depois da notícia do Le Monde, assim como o facto de Benalla beneficiar de uma série de regalias, como por exemplo um apartamento no n.º 11 do Quai Branly (destinado aos mais próximos colaboradores do Eliseu), um salário de cerca de dez mil euros, um carro oficial ou uma autorização para aceder ao hemiciclo da Assembleia Nacional.

Entretanto, num segundo vídeo entretanto revelado, sabe-se que terá agredido outra pessoa, uma mulher, nessa mesma ocasião. Ambas as vítimas já terão sido identificadas pelas autoridades.

Desde a revelação inicial, o caso ganhou novas proporções. Benalla não era o único com ligação ao Eliseu na manifestação: Vincent Crase, funcionário do La République en Marche! (o partido de Macron), que ocasionalmente colaborava com o Eliseu, também surge nas agressões do protesto do 1.º de Maio. E três polícias, que foram suspensos na quinta-feira, que terão facultado a Benalla as imagens de videovigilância da manifestação.

Os cinco foram ontem presentes ao juiz de instrução, depois de terem sido detidos para interrogatório na sexta-feira. Benalla e Crase podem ser acusados de "violência por pessoa encarregada de uma missão de serviço público", assim como "usurpação de funções" e "usurpação de insígnias reservados às autoridades públicas", entre outros crimes.

Macron debaixo de fogo

Desde quarta-feira que Macron mantém o silêncio sobre o caso, com o seu único comentário, na quinta-feira, a ser: "A República é inalterável." E só depois das críticas da oposição ao castigo "brando" de Benalla, quando o presidente tinha sido eleito prometendo "exemplaridade", como lembra o Le Monde, é que o Eliseu revelou que, em face dos "novos factos", ia começar os procedimentos para a demissão do segurança.

Enquanto isso, aumentam as críticas da oposição. O líder de Os Republicanos (direita), Laurent Wauquiez, exige que o presidente "preste contas" ao país sobre este caso.

Para o líder da França Insubmissa (extrema-esquerda), Jean-Luc Mélenchon, o caso está "ao nível do Watergate", que em 1974 levou à demissão do então presidente norte-americano, Richard Nixon. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (extrema-direita) e ex-adversária presidencial de Macron, usou o mesmo exemplo. "Há tantas mentiras do governo como as que havia no Watergate", disse à BFMTV. "O silêncio do chefe do Estado está prestes a transformar este caso em caso Macron", acrescentou Le Pen.

O porta-voz do La République em Marche!, Gabril Attal, citado pela AFP, lembrou que se o presidente se tivesse pronunciado sobre o caso haveria indignação geral "do peso potencial das suas palavras sobre os inquéritos em curso". O mesmo argumento foi expressado pelo líder dos deputados do Movimento Democrático, Marc Fresneau, que disse à France Info que se Macron falasse "diríamos que interferia".

"Estas pessoas são responsáveis por uma mentira de Estado organizada em grupo", referiu o ex-candidato socialista à presidência, Benoît Hamon, numa entrevista ao Libération. "O próprio presidente, o seu secretário-geral, o seu chefe de gabinete, o seu ministro do Interior conspiraram para mentir conscientemente aos franceses", indicou, reiterando que Collomb já devia ter sido demitido. "Numa grande democracia, ele já tinha sido demitido."

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