A falta que o Reino Unido fará

Para quem quer uma Europa mais integrada (federalista, dir-se-ia há uns anos), o Reino Unido não faz, nem nunca fez, grande falta e, no fundo do seu coração, ainda bem que os britânicos se vão embora. Agora é que vai ser, acham. O problema desta visão é isso tudo. E é que ela não é única na Europa, embora com frequência ache que é a única genuína e legitimamente europeia. E sem os britânicos pode não ter oposição. Ou só ter a dos radicais, à esquerda e à direita.

Há poucas semanas, o think tank do Parlamento Europeu publicou um estudo feito por vários académicos, incluindo britânicos, que concluía o que todos sabem: enquanto membro da União Europeia, o Reino Unido raras vezes promoveu maior integração europeia. Tirando no mercado único, onde foram sempre os entusiastas do fim das barreiras à livre circulação de produtos e serviços, os britânicos ou se opuseram ou ficaram de foram das políticas sociais, de defesa, de relações externas, e por aí fora. Simplificando, sem fugir à verdade, o Reino Unido foi o principal travão à maior integração europeia. Mas foram os adeptos de uma Europa que seja, ou fosse, sobretudo, um grande mercado, e não uma realidade política única ou, sequer, unida. Essa força de bloqueio, que muitos (autoproclamados únicos) europeístas não perdoam, é o que se prepara para desaparecer, sem grande substituto. E esse efeito deveria preocupar mais gente do que preocupa.

Recordemos o óbvio. Os maiores prejudicados pelo brexit, pelo menos visto por quem acredita que a União Europeia é útil, são os próprios britânicos. E os que vivem maior crise por causa do tema são os britânicos também. Nada disso parece causar dúvidas às pessoas informadas. Mas a questão aqui é a da influência que o Reino Unido tinha na Europa e vai deixar de ter.

Ao longo do último ano, um grupo de países do norte da Europa resolveu recuperar, nominalmente, a ideia da Liga Hanseática. Os diplomatas da Holanda, Irlanda, países nórdicos e bálticos em Bruxelas chamam-se a si próprios os "Hansa", e têm-se reunido e trabalhado em comum para defender ideias de mais mercado e menos integração política. Às propostas de Macron para a zona euro respondem com mais empenho na União dos Mercados de Capitais, maior responsabilidade fiscal por parte dos governos nacionais e nada de impostos diretos europeus. São ideias que os britânicos aplaudiriam e promoveriam. Mas em breve não estarão cá para o fazer. Achar que não vão fazer falta nenhuma é um erro enorme. A saída do Reino Unido, em termos de PIB, equivale à saída dos 19 Estados membros menos ricos, todos juntos e ao mesmo tempo (o que inclui Chipre, Malta, Estónia e quejandos, mas também Portugal, e mesmo a Áustria).

A partir de março de 2019 a União Europeia perde a principal voz a favor de menos barreiras internas ao comércio, de mais economia de mercado, e de menos integração. Quem acha que essas eram boas ideias vai ficar a perder.

Consultor em Assuntos Europeus

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João Gobern

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