Premium Os limites da discrição

Vivemos numa era dos homens-fortes, alinhados numa cultura de agressividade externa, paroquialismo identitário, bullying negocial e lógica de soma nula. O problema é que o perfil está ao leme de grandes potências, desequilibrando o sistema a seu favor, alterando a sua natureza liberal. Portugal, no meio desta transição, terá alguma coisa a dizer?

A forma descartável como Trump olha para os aliados, a constante desvalorização das organizações multilaterais e a fórmula penalizante que imprime às negociações comerciais têm sido vistas como a trilogia exótica da nova política externa americana. Em perspetiva, nada disto é verdadeiramente uma inovação. Num contexto bem menos agregado de relações políticas e financeiras à escala mundial, o comportamento americano até 1945 foi estruturalmente desconfiado de alianças permanentes, pouco ou nada vinculado a compromissos externos, profundamente umbiguista e largamente povoado de administrações mais paroquiais do que internacionalistas. Todo o período da Guerra Fria e posterior transição geopolítica em resultado da implosão da União Soviética traduzem um período histórico excecional na história da conduta externa dos EUA, não a regra. Neste sentido, a transição que vivemos coloca a administração Trump num curso mais alinhado com a história dos EUA do que parece, aproveitando duas correntes internas em desagregação.

A primeira resulta da fadiga internacionalista da América, geradora de uma exaustão cultural endógena cada vez menos crente nos méritos da sua ação externa, sobretudo na ressaca das longas guerras do Afeganistão e do Iraque. Foi ao ler esta "vontade popular" acentuadamente transversal que Obama agiu como agiu na Líbia e, depois, na Síria. Se juntarmos ao efeito social desta espargata militar a descredibilização do modelo financeiro americano aquando da crise de 2008-2009, temos a receita para a retração geopolítica: asseguram-se mínimos olímpicos mas está fora de questão qualquer apoio generalizado a renovados votos de longa duração com o resto mundo. Além de politicamente frágeis, custam biliões ao tesouro. Hoje é politicamente difícil colher uma legitimidade popular alargada com um discurso internacionalista.

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