Premium Os desafios de uma nova ordem

A queda do Muro de Berlim, no fim do ano de 1989, depois de eleições relativamente livres na área soviética, foi precedida, segundo interpretações correntes da época, como tendo sido apoiada na compreensão governamental de que a vontade de mudança das populações submetidas à ditadura praticamente durante todo o século exigia firmeza que excedia a capacidade de oposição do partido. A alegria da Meia-Europa Ocidental, feliz com a reunificação, parece hoje atingida pelo facto de a circunstância nova ter enfraquecido o espírito de resistência e solidariedade que uniu os Estados do Leste que se associaram à União Europeia, e tinham fortalecido, durante a guerra fria, o ocidentalismo de resposta que teve os EUA como proeminentes na segurança da NATO e na ajuda à recuperação das destruições da guerra. Acabava formalmente a contenda dos projetos "da Europa do Atlantismo aos Urais" (De Gaulle) e da "casa comum" (Gorbatchev). A evolução fez amenizar a memória da extinta "guerra fria", mas a ilusão de que não havia "outra escolha", da primeira ministra britânica, não resistiu à crise económica e financeira mundial, sobretudo quando os emergentes mostram tendência crescente para a remodelação da hierarquia das potências, com referência frequente à China. Não é que a União Europeia não mostre inquietação com a redefinição de segurança e defesa, em face da eleição de Trump para a presidência dos EUA em 2016, causando preocupações sobre a lealdade ao atlantismo considerando a NATO obsoleta. Não faltou logo nesse ano a redação da "Estratégia Global da UE", com a França a insistir sobre a "autonomia estratégica", e o Tratado de Lisboa com o PESCO, visando desenvolver as capacidades europeias de defesa e mobilidade das forças da União. Este pequeno apontamento evidencia um quadro simplificado que permite enumerar, não completamente, os desafios que a União terá de enfrentar, para além da defesa, neste próximo 2019, cheio de preocupações quer quanto às eleições políticas nacionais quer europeias, também económicas, mas ainda não necessariamente militares. Em primeiro lugar a gravíssima crise financeira, agravada pela distância entre as promessas dos governos, e a crescente evidência da distância entre a perdida confiança de populações e as promessas governativas; depois, o enfraquecimento dos poderes vindos da solidariedade França-Alemanha, pela queda da corajosa primeira-ministra alemã; acresce a crise do Brexit, que por um lado se inspira numa mal esclarecida vontade popular e, por outro, coloca em prevenção os membros da União que não podem ignorar a dimensão da perda europeia com a saída da Grã-Bretanha. Por outro lado, por muito que a queda do sovietismo tenha modificado o sentimento de perigo coletivo que dominou o longo período da guerra fria, a circunstância nova que rodeia a União, depois do Brexit, consciente dos riscos, a perplexidade causada pelos EUA, que obriga a meditarem sobre a pouco esclarecida ambição da America First, e ver agravar severamente a problemática política do ambiente, a relação da demografia mundial com o crescimento dos desamparados, as migrações sem disciplina eficaz nem piedade suficiente, os conflitos eminentes que podem ter apenas a natureza do terrorismo que agrava a insegurança das sociedades civis, ou continuar a inspirar conflitos internacionais que não excluem a "cascata nuclear" dependente de uma simples leviandade, capaz de destruir o planeta, logo cada região, para além da atlântica, com incertezas sérias, como são as ambições da Rússia, parecendo improvável resolver a questão de Israel-Palestina, a África com incontáveis divisões e lutas do Cabo ao Cairo, a América Latina em que o Brasil inspira perplexidades sérias, as ameaças climáticas sem poder confiar nos acordos internacionais, antigo e presentes, e, por fim, a ameaça chamada "multiforme e difusa" por Julien Nocetti, incluindo a espionagem informática, a sabotagem informática, a manipulação da informação que tanto ensombra a eleição da presidência americana. A complexa tarefa da organização do futuro próximo está a despertar a iniciativa da ONU, que vê somar ao emaranhado panorama externo a exigência de consolidação da sua estrutura e funcionamento obediente aos princípios que lhe deram forma e que frequentemente foram dispensados. Os princípios continuam válidos, a circunstância não tem coincidência com a do fim da Segunda Guerra Mundial, a hierarquia que baseia o Conselho de Segurança está definitivamente desafiada, as lideranças em legal vigência não mostram ter o vigor que a realidade exige para reconstruir a confiança das populações, os valores anunciados para organizar o globalismo não encontram sequer apoio no conhecimento da estrutura real desse globalismo. É suficientemente alarmante a enumeração divulgada dos choques do futuro. Ressuscitar a promessa do "nunca mais" da ONU exige urgência e clarividência.

Professor universitário

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