Premium As estreias da semana - os sotaques e a histeria francesa

Sucesso do ano em França, A Minha Família do Norte é uma paródia medíocre sobre choques culturais: os snobs de Paris vs. os espalha-brasas do norte. Dany Boon realiza e interpreta uma comédia mais terna do que divertida, a partir de amanhã nas salas.

Pastiche sobre um snobismo francês fabricado pelo mais amado dos comediantes do cinema francês, Danny Boon, que volta a dirigir uma comédia com o sotaque ch'ti, do norte de França, depois do muito razoável Bem-vindos ao Norte, que em França pulverizou todos os recordes em 2008. Não se trata então de uma sequela, mas sim de um aproveitamento do mesmo tema. Aliás, Boon é agora um designer de móveis que vive em Paris com vergonha extrema da sua família do norte, onde pontifica o orgulho do dialeto ch'ti, uma espécie de variante do sotaque português das beiras.

O golpe narrativo surge quando a sua família chega a Paris para celebrar o aniversário da mãe. O famoso designer assustado e com medo de que a opinião pública perceba as suas origens humildes acaba por ser atropelado e acorda com uma amnésia curiosa: só se lembra do seu passado ch'ti e nem da sua atual mulher snob tem alguma lembrança. Aos poucos, a amnésia torna-o um novo homem, capaz de mudar o seu relacionamento com os seus empregados e com a própria mulher.

A Minha Família do Norte, que nesta temporada já vendeu cerca de seis milhões de bilhetes em França, está feito para agradar aos fãs de Bem-Vindos ao Norte e usa e abusa da fórmula dos equívocos do sotaque nortenho. Uma comédia de uma só piada que peca por perder o efeito de novidade. Antes, Boon filmava uma certa ideia encantada de França, agora limita-se a repetir a mesma piada, mesmo quando não tem preconceitos em apelar a um certo sentimento clássico. Afinal de contas, é um olhar sobre a importância da família. De uma forma algo involuntária, acaba por ser um filme mais terno do que divertido - Boon tem uma ternura verdadeira pelas personagens ch'tie é pouco meigo para um imaginário francês afetado e snob, em que as boas maneiras são trocadas por uma frieza supostamente cool.

Obviamente, quem não é francês perde muito das nuances fonéticas, mas o que é triste é que o humor de Boon está menos subtil e a roçar muitas vezes o histerismo, característica quase obrigatória para uma comédia de grande público em França. E veja-se como é boçal a personagem do sogro do herói, um cretino sem qualquer carisma, pese embora o profissionalismo sempre digno de um ator como François Berléand ou o registo embrutecido como é apresentada a personagem do pai sucateiro (e aí Pierre Richard está em excesso técnico permanente). Às duas por três, o guião limita-se a esticar a situação muito déjà vu de uma personagem que se esqueceu de tudo e que ganha uma segunda oportunidade para endireitar a sua vida e a dos outros.

La Ch'tite Familie tem uma conclusão demasiado sentimental, para não dizer sentimentalona. Dani Boon esquece-se de nos fazer rir e parece preferir usar técnicas abusivas para comover. Dizemos apenas que pôr uma mãe octogenária de olhos a tremer e música de embalar é mais do que um golpe baixo. A ternura tirou o tapete ao gague e Boon prefere antes comover. Não é por acaso que é no final, com os tradicionais planos cortados, os bloopers, que nos rimos mais. Os atores em modo de engano têm mais piada do que uma intriga sem rasgos, sem golpes.

De realçar a intenção de Boon em dedicar o filme ao seu amigo Johnny Hallyday, que teve o seu grande adeus durante a rodagem.

2 estrelas

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