Premium As estreias da semana - Franceses entre comédia e policial

Meg - Tubarão Gigante é um grande peixe e um... pequeno filme. O grande acontecimento cinematográfico continua a ser a reposição de clássicos franceses.

O título mais promovido da semana, Meg - Tubarão Gigante, de Jon Turteltaub, é uma tentativa esforçada de reencontrar as emoções do clássico Tubarão (1975), de Steven Spielberg. O protagonista, Jason Statham, bem se esforça para emprestar alguma emoção aos eventos, mas não é fácil superar os lugares-comuns de um argumento de quinta ordem, esquemático e previsível, ainda por cima servido por efeitos especiais que nem sequer fazem justiça aos poderes tecnológicos da grande indústria.

Entretanto, quem se recorda de Bem-Vindo ao Norte (2008), com Dany Boon, na tripla condição de ator, argumentista e realizador, a fazer uma divertida caricatura sobre as diferenças culturais no interior da França? Pois bem, ele está de volta com uma proposta de sequela, A Minha Família do Norte - para avaliarmos, pelo menos, se a tradição da comédia francesa ainda é o que era.

Seja como for, os destaques da semana voltam a ser os clássicos. Franceses, precisamente. Desta vez, incluindo um filme fulcral na definição dos alicerces de todo o cinema moderno: O Carteirista (1959), de Robert Bresson, história de um homem que rouba os outros, porventura roubando a sua própria solidão. É uma aventura intimista e fascinante que Bresson encena através de uma visão com tanto de metódico como de austero, afinal concretizando um pensamento artístico que viria a sistematizar, em 1975, nesse livrinho admirável que é Notas sobre o Cinematógrafo (Porto Editora, 2003). Vale a pena descobrir esta breve entrevista televisiva de Bresson, em 1960, por ocasião da estreia de O Carteirista (legendas em inglês).

A partir de quinta-feira, vai ser possível também ver ou rever outro título lendário: O Testamento de Orfeu (1960), de Jean Cocteau. E não deixa de ser curioso lembrar que, não poucas vezes, tendemos a olhar para o seu trabalho cinematográfico como um "acidente" no interior de um universo definido, sobretudo, através de desenho, poesia e teatro. Na verdade, para além das singularidades da filmografia de Cocteau - lembremos apenas a sua sublime versão de A Bela e o Monstro (1946) -, há nela um estranho intimismo que, em última análise, é de natureza autobiográfica. E na sua viagem delirante pelas evidências e mistérios da experiência, O Testamento de Orfeu é o mais autobiográfico dos filmes.

Enfim, não esqueçamos O Meu Pai Tinha Razão (1936), comédia dramática, ou drama cómico, de Sacha Guitry, e ainda O Último Golpe (1954), de Jacques Becker, este uma referência nuclear na história do policial "à la française" (aqui em baixo: trailer original). Além do mais, O Último Golpe distingue-se por um elenco dominado por grandes nomes da produção francesa da época, incluindo Jean Gabin, René Dary, Dora Doll e uma quase principiante, talentosa e enigmática, de seu nome Jeanne Moreau.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.