Há idosos que não saem de casa há anos devido a elevadores avariados

Há 20 anos que os elevadores nos vários bairros municipais de Lisboa estão danificados, afetando a mobilidade da população mais idosa. A autarquia está a estudar intervenções na Quinta do Cabrinha e do Loureiro.

Catarina Reis
Já lá vão anos desde que Cristina Santos não sai de casa pelo próprio pé. | foto Gonçalo Villaverde / Global Imagens
O bairro do Cabrinha é habitado maioritariamente por pessoas idosas. | foto Sara Matos/Global Imagens
Para Maria e Fernanda, torna-se insustentável morar num bairro onde só podem circular pelas escadas. | foto Sara Matos/Global Imagens
A falta de atenção sobre as avarias técnicas é um dos fatores apontados pelos lesados residentes. | foto Sara Matos / Global Imagens
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Maria do Rosário reconhece o vandalismo por parte dos moradores como um problema a erradicar na luta por melhor mobilidade nos lotes municipais. | foto Sara Matos/Global Imagens
Ainda que não resida na Quinta do Cabrinha, é através da família que Francisco analisa a gravidade do tema. | foto Sara Matos/Global Imagens
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Cristina Santos passa os dias em casa por não ter forma de lá sair. | foto Gonçalo Villaverde / Global Imagens
Vitor Lopes já não confia na entidade responsável pelas avarias para lutar contra os problemas do bairro. | foto Gonçalo Villaverde / Global Imagens

É o que resta do conhecido e entretanto desmantelado Casal Ventoso, o bairro mais problemático de Lisboa do século passado. Quando o antigo hipermercado da droga viu o seu fim, há cerca de 20 anos, os que lá residiam foram distribuídos por bairros municipais espalhados pela cidade. Alguns moram hoje na Quinta do Cabrinha, em Alcântara. Prédios de sete andares, que há apenas seis meses foram revitalizados por um grupo de jovens voluntários, mas que já estão desbotados com rosa, azul e amarelo. O espelho do que por lá se vai passando.

"As pessoas estragam tudo", desabafa Maria dos Anjos, 85 anos e residente no Cabrinha. E nem o principal meio de transporte para os andares superiores, os elevadores, escapa. Para a maioria da comunidade deste bairro, idosa, a falta de elevadores pode ser sinónimo de quedas nas escadas ou mesmo de anos sem conseguir sair de casa. Vandalismo ou falta de manutenção? A decisão é unânime na hora de apontar culpas: são acusados quer os residentes "malfeitores" quer a Gebalis, entidade responsável pela manutenção nos bairros municipais.

Cada lote de andares forma uma "ilha", com um vasto átrio a céu aberto no centro - o recreio dos netos dos muitos avós que lá habitam. Filipe e Pedro, ambos com 8 anos, circundam de bicicleta os degradados bancos e caixotes de lixo. Atrás deles, um cenário de paredes marcadas com manchas de vinho e uma exposição de vernáculo.

Quase todas as portas principais, que dão acesso às escadas comuns entre andares, já não têm vidro. "Foi a polícia. Teve de partir os vidros para subir e prender os da droga", explica Maria, que conta já 15 anos neste bairro. Vê-se no olhar de desdém com que aprecia tudo à sua volta que não vive no seu bairro de sonho. É como se a vida tivesse naufragado no dia em que se mudou para a Quinta do Cabrinha, para o Lote 3. Ninguém por cá parece feliz por esse fado. Nem a Maria dos Anjos ou a Fernanda nem o Francisco e a Maria do Rosário.

As sistemáticas falhas na mobilidade entre andares estão no topo das queixas dos moradores

As anomalias técnicas nos sistemas mecânicos são assunto da ordem do dia quase desde que o Cabrinha ganhou vida.

Maria dos Anjos põe a conversa em dia com Fernanda Marques da Costa, de 83 anos. Falam das dores, as de cá estar e as físicas, pelas quedas entre aquele pátio e as escadas que têm de subir e descer todos os dias até casa. São vizinhas há oito anos, desde que a moradia de Fernanda, não muito longe dali, ardeu. O lugar para a conversa é estrategicamente estudado. É preciso fugir às manchas de vinho mais frescas. Faz parte do "dia-a-dia", isso e a "maldade" que deixou "os elevadores neste estado", lamenta Maria dos Anjos.

Apoiada por duas muletas e apesar da dificuldade em descer as escadas, Fernanda não arrisca - dos quatro elevadores originais, só dois funcionam e nenhum inspira confiança. Há um ano, sem grande surpresa, ficou presa num deles. "Todas as semanas há um novo problema. Dessa vez, ​​​​esperei uma hora para que os bombeiros me viessem tirar de lá", conta. Lamenta por si, pelo senhor do 4º andar a quem falta uma perna, pela idosa com deficiência motora do 5º andar e por todos a quem a idade já pesa no corpo.

"A minha sogra parece estar em prisão domiciliária", Vitor Lopes, Pró-Comissão de Moradores da Quinta do Cabrinha

É o caso de Cristina Santos, 87 anos, sogra de Vítor Lopes, aos 62 anos um dos responsáveis pela Pró-Comissão de Moradores da Quinta do Cabrinha. Vítor é, no bairro, o maior rosto da luta pela resolução do problema que afeta a maioria da população do Cabrinha.

Conta a história de Cristina no tom de quem se revolta com a situação à qual a "Gebalis não tem conseguido responder". "Temos casos muito graves aqui. A minha sogra, por exemplo, só consegue andar de andarilho. Acontece, porém, que o seu elevador está avariado." Contam-se anos desde que Cristina Santos, há 20 residente no sexto lote do Cabrinha e antiga moradora do Casal Ventoso, saiu de casa pelo próprio pé. Sempre que necessita de ir à rua - na maioria das vezes com destino ao Hospital de São Francisco Xavier, devido ao pacemaker que implementou - não tem outra hipótese senão chamar os bombeiros. Mas, conta Vítor, esta solução sai cara. "São 30 a 40 euros para lá, 30 a 40 euros para cá."

Vítor Lopes apressa-se a equiparar a situação a um cenário de "reféns". "A minha sogra parece estar em prisão domiciliária", remata. Foi a mesma perceção de impotência que fez que muitos habitantes já tenham decidido abandonar a sua casa ou estejam a dar início a esse processo. Maria dos Anjos é um desses casos, só lhe falta a carta que lhe diga para onde carregar as malas.

No dia em que o DN esteve na Quinta do Cabrinha, alguns dos elevadores tinham sido consertados há poucos dias. Contudo, os moradores acreditam que o normal funcionamento dos dispositivos não é para durar muito. "Amanhã já não funcionam outra vez", explica Francisco Lourenço, 31 anos.

É no Lote 5 que Francisco Lourenço passa a maioria dos seus dias. Não é residente do bairro do Cabrinha, mas é lá que se encontra grande parte da família: mãe, avó, tios e primos. Reside no Cacém, mas está consciente da realidade que por cá se vai vivendo, principalmente quando o assunto desagua numa das maiores preocupações da família, os elevadores. "Há tanta gente idosa que tem dificuldade em descer estas escadas. E o que eu subo e desço em dois minutos, um idoso com dificuldades em andar leva quase uma hora", lamenta. Dá razão à dita "maldade" de que Maria dos Anjos fala: "É vandalismo." Mas reconhece que não é só da falta de civismo que nascem os problemas.

A falta dele é, ainda assim, facilmente percetível quando nos atrevemos a entrar na área comum de acesso às escadas e elevador de um dos quatro pilares do Lote 5, no rés-do-chão. Inúmeros pacotes de vinho barato decoram as escadas, manchas de ferrugem o corrimão e o odor a urina é intenso. Nos elevadores, o centro das grandes discussões no bairro, as marcas secas de chiclete no alumínio e lixo variado também são inquilinos permanentes.

Maria do Rosário apressa-se a tecer comentários sem descartar a ironia: "Está muito limpo, não está?" Aos 68 anos, já completa 20 como moradora no Cabrinha. Antes disso, foi vizinha de Francisco. Faz-se acompanhar de uma pequena muleta de madeira. "Custa-me andar e descer isto tudo. Moro no último piso", conta.

Na hora de atribuir culpas, os residentes não deixam dúvidas: o vandalismo dos próprios moradores é uma das principais causas das avarias, mas a Gebalis, entidade municipal responsável pela manutenção, não tem demonstrado eficácia na resolução dos problemas de ordem técnica. Não apenas nestes núcleos, entre o Cabrinha e o Loureiro, mas um pouco por toda a área pela qual a Gebalis é responsável. No total, a empresa de gestão de bairros municipais tem sob a sua alçada 1193 elevadores, distribuídos por 66 bairros municipais de Lisboa.

"Eu compreendo a Gebalis. Só que eles também nos respondem que as peças que têm disponíveis para consertar os elevadores são antigas. Por isso é que se estragam tão facilmente também", sublinha Francisco.

Também Vítor Lopes admite que "há vandalismo", mas sublinha que tal "normalmente é praticado sobre o aspeto dos elevadores e não sobre a sua mecânica. A culpa do mau funcionamento dos elevadores está sob a responsabilidade da Gebalis".

Na linha da frente na luta pela resolução do problema, Vítor conta que, para se fazer ouvir, já se barricou na unidade de Apoio ao Cliente da Gebalis. Isto depois de muitas tentativas de discussão onde, na mesma mesa, se sentou frente a frente com as entidades implicadas no processo: associação de moradores, Gebalis, Junta de Freguesia de Alcântara e Câmara Municipal de Lisboa.

Reuniões que têm resultado em mais revolta por parte dos moradores. "A Junta tem pressionado a empresa, mas há anos que temos tido reuniões e é sempre o mesmo: não resolvem. "Estamos a tratar, é a única resposta da Gebalis", conta.

"Uma vez, perguntei à pessoa que estava a representar a Gebalis qual era o motivo para os elevadores estarem sempre avariados. Foi-me dito pela própria que o contrato com a empresa que fornecia os materiais para os elevadores não foi renovado e a empresa que agora ficou encarregada não fornece o material necessário. Os técnicos que cá chegam dizem sempre 'estou à espera de uma peça'." Mas a resposta não convence o representante da associação de moradores.

Principalmente depois de ter ficado a saber, em conversa com um dos técnicos que passaram pelo bairro para fazer uma manutenção, que esta passa por uma troca massiva de peças entre elevadores de variados bairros, apenas para que os mecanismos funcionem por cerca de uma hora.

Questionada pelo DN, a entidade garante que "nenhum elevador se encontra parado por avaria decorrente de desgaste mecânico", uma tipologia de avaria contemplada no contrato e que obriga à reparação "num prazo máximo de 48 horas". Qualquer outra tipologia mais "vultuosa em termos de custo" não está "contratualmente estabelecida" e acarreta uma "queixa-crime e investigação por parte das autoridades", frisam.

A Gebalis alega ainda ter feito um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros na "manutenção destas estruturas", para o qual "foi lançado em 2014 um concurso público internacional, que aumentou", entretanto, "a capacidade de intervenção". Nos planos está um novo programa assinado entre a entidade e a autarquia, que prevê investimentos na reabilitação dos edifícios, "onde serão adotados os princípios de envolvimento da população".

Nesta verba não estão, contudo, previstas intervenções nos elevadores. Face à falha, Davide Amaro, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, diz ser importante "continuar a sensibilizar a câmara, para mostrar que há aqui um problema". A solução, lembra, passa "pela substituição dos mecanismos, com cerca de 20 anos, e pela sensibilização da comunidade para a conservação dos mesmos". Esta última é já uma solução que está a ser conduzida pela Gebalis, decorrente do projeto municipal BIP/ZIP Memórias do Casal Ventoso e que visa promover a alteração de comportamentos.