Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.

No texto que publicou, Isabel Moreira faz uma lista de inimigos que vai de Bolsonaro ao Papa Francisco, passando por "todos os fascistas em crescimento na Europa". Noutro texto mais antigo, a deputada já tinha anunciado que os seus inimigos eram as "fêmeas suaves" na política, a direita liberal e a religião. Tudo a eito.

Verdadeira ou não, a história atribuída a Churchill serve, entre outras coisas, para recordar que os que pensam de maneira diferente são adversários, não são inimigos. Uma das lições mais difíceis de aprender e praticar em democracia é essa: aceitar a legitimidade dos outros, dos que têm ideias que combatemos, dos que achamos que estão errados. Sem isso, não há respeito pelo outro. Dizer que se defende a diferença é muito engraçado mas não quer dizer nada se só toleramos o que for diferente como nós.

Até há uns anos, o ódio como parte do discurso público andava, sobretudo, nas caixas de comentários dos jornais. Eram um pântano imundo de insultos que não se devia visitar. Nos últimos tempos, passou para os textos publicados e os discursos proferidos. Tornou-se central.

Syed Kamall é um daqueles eurodeputados ingleses que teremos pena de ver partir, quando for o brexit. Conservador, nascido no Reino Unido de origem indo-guianesa e muçulmano, uma das suas preocupações era um projeto que tinha como objetivo dar voz aos muçulmanos moderados porque, como explicava, há uma minoria radical que tem o megafone, e uma maioria moderada que não se ouve. Quando estávamos todos atentos ao tema do islamismo radical (e ainda devíamos estar, porque vão haver mais bombas), esta preocupação era essencial. Era importante não deixar o ódio crescer e culpar uma população inteira pelos crimes de alguns. Com os inimigos não se fala, e sem diálogo não há entendimento possível entre diferentes.

Não há mal nenhum em haver Isabéis Moreiras. Faz parte da vida e devem ter voz. Nem é verdade que não há limites para o aceitável. Mas as próximas eleições europeias estão a aproximar-se, perigosamente, dos extremos, do discurso dos inimigos, da radicalização de uns que justifica e alimenta a radicalização dos outros. Se queremos reverter este processo, é preciso devolver o centro do palco a quem diverge sem odiar, a quem critica as ideias sem catalogar os adversários e o seu carácter.

Churchill também disse, e desta vez disse mesmo, que é bom sinal ter-se inimigos porque isso quer dizer que se defendeu alguma coisa. Certo. Mas do Papa Francisco a Bolsonaro passando pela direita liberal e todas as fêmeas suaves, sem distinção, talvez sejam inimigos a mais. Ou falta de capacidade de aceitar que há, entre os outros, alguns tão legítimos como nós.

Consultor em Assuntos Europeus

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