Para os mwangolés da Tuga, João Lourenço é esperança. Mas só um bocadinho

Uma cabeleireira de bairro, um escritor de reputação mundial, um cozinheiro de petiscos, um cantor maldito e um líder estudantil discutem a visita do novo presidente angolano a Portugal.

Vai ter batata-doce. Vai ter quitaba. Vai ter suco de múcua. Vai ter bombóu. Vai ter banana assada com jinguba. Na sexta, quando regressar do Porto, o presidente angolano João Lourenço (J-Lo, como é carinhosamente apelidado pelos seus conterrâneos) vai ser recebido com um cocktail no lisboeta Hotel Intercontinental e, pelo menos, fome não vai passar.

A garantia é dada por Paulo Sanches, cozinheiro que anda numa roda-viva a preparar os quitutes da banda, petiscos angolanos, para a receção. "Não é todos os dias que posso servir o presidente do meu país."

Não é todos os dias, de facto. A última vez que um presidente angolano esteve em Portugal foi em 2009, há quase uma década. José Eduardo dos Santos, o anterior presidente, só esteve aliás em Lisboa por mais três vezes, apesar de ter governado o país africano durante 40 anos: em 1987, 1991 e 1996.

Os angolanos constituem o segundo maior grupo de africanos a residir no país. Na Tuga, como chamam a Portugal, há oficialmente mais de 30 mil mwangolés - nome quimbundo para angolano. Sanches é um deles, chef da Casa de Angola, embaixador da culinária do país africano na capital portuguesa. Para ele é uma novidade cozinhar para um chefe de Estado.

A sua opinião não difere muito dos angolanos que vivem em Portugal. A visita de João Lourenço é um bom sinal, mas não demasiado. "Depois de tanto tempo com as relações entre os dois países azedas, há pelo menos boa vontade. Angola tem muito para fazer, a democracia não é plena, falta água, luz e comida na casa das pessoas." Os sinais, no entanto, são positivos: "Esta vinda a Portugal está para os angolanos na diáspora como o novo governo está para os angolanos em Angola. Não é uma revolução, mas já é um caminho."

A ponte que falta construir

José Eduardo Águalusa, voz maior da literatura lusófona, e crítico decano da política de Luanda, também vê na vinda de João Lourenço um sinal de esperança. "Se me perguntarem se não aquece nem arrefece eu digo que aquece, mas só um bocadinho." Tal como o cozinheiro que anda em roda-viva nos últimos dias, diz que há um paralelo direto com as políticas do país - se Angola vive o seu maior momento de esperança nas liberdades, o mesmo acontece nesta visita.

Aquilo que Águalusa critica é o tom da visita. "João Lourenço só traz homens de negócios na comitiva. Não há escritores, nem músicos nem pintores, que são os primeiros a criar o capital de simpatia com a sociedade portuguesa. Luanda ainda não percebeu isso, que há um capital de simpatia na cultura."

O escritor gostaria que estivessem em cima da mesa os assuntos que realmente preocupam hoje os angolanos na diáspora. As dificuldades de mobilidade, de obter visto para o país de origem. "Além disso, está a nascer um movimento forte em Portugal de gente que exige poder votar nas eleições angolanas - coisa que hoje não acontece. É urgente mudar isto também."

Nos três dias de visita oficial, o presidente angolano vai depositar uma coroa de flores no túmulo de Camões, visitar os Jerónimos, encontrar-se com Marcelo em Belém e com Costa no Palácio da Bolsa do Porto. Mas para a diáspora angolana os pontos essenciais estão nos entretantos: nas reuniões bilaterais entre industriais e comerciantes, e nas reuniões do presidente com a comunidade africana que vive em Portugal.

No encontro que Luís Vitorino, presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal, vai ter com João Lourenço, pretende expor as dificuldades dos angolanos que estudam no nosso país e que passam principalmente pela dificuldade em transferir dinheiro de Angola para Portugal. "Há muitos estudantes que atrasam o pagamento das propinas, o que tem originado dívidas com as universidades, além das dificuldades em pagar alojamento ou a renovação de vistos", explica ao DN.

Está em Lisboa desde 2012 - atualmente é estudante do Mestrado em Contabilidade e Gestão - e fala ainda na falta de pagamento dos subsídios atribuídos por Angola. Ainda assim, considera "oportuna" a visita de João Lourenço a Portugal. "Depois do período eleitoral, era importante esta visita e acho que pode ser benéfica e contribuir para uma melhoria das relações entre os dois países."

A calma e o silêncio

Loide Epalanga, 39 anos, nasceu em Angola e veio aos 9 anos para a Tuga . É cabeleireira desde os 18 anos, abriu uma casa no Cacém com o seu primeiro nome. Mas sente-se africana inteirinha e por isso acha importante a vinda de João Lourenço a Portugal. "São dois países com uma história em comum, é muito bom que as relações estejam a normalizar-se. Mas estranha o silêncio em torno dela."

"Basta dizer isto: é o presidente do meu país e eu não sabia da visita, acho que devia ter sido mais publicitada." Loide gosta deste presidente, mas não lhe passa carta-branca. "Em relação aos políticos angolanos estou sempre expectante. Mas queria que João Lourenço fosse de verdade. " Diz que os mais velhos, devido às mudanças bruscas da política em Angola, estão muito desconfiados. "Os mais novos têm esperança, querem crer nesta mudança."

A cabeleireira do Cacém gostava que a política de Angola fosse mais visível e o cantor Bonga é o primeiro a concordar com ela. "Temos um problema com os meios de comunicação social portugueses. Apesar de os angolanos serem uma das comunidades mais relevantes no país, não retratam a política do país. Aliás, nem sequer dedicam grande espaço à comunidade que vive em Portugal."

Bonga concorda com todos os outros, falta muito por fazer em Angola. "Mas o caminho faz-se devagarinho, devagarinho para não entrarmos em colapso. Lembre-se que somos uma nação independente muito recente, temos poucos anos de democracia e ainda menos de paz. A nossa curta história já nos mostrou que a falta de calma é perigosa."

Está animado com os novos ares que se respiram em Luanda. "Pelo governo anterior eu fui considerado um cantor maldito, fui rejeitado. Agora, este governo condecorou-me. Tal como homenageou uma série de homens que foram relevantes para a história de Angola, mesmo que não seguissem os cânones do rei - e é mesmo rei a palavra que quero usar."

Os vistos e as eleições para quem reside fora do país parecem-lhe ser hoje os maiores problemas da comunidade - "é o que falta na verdade para a grande família angolana poder estar reunida". Mas recusa que esta visita seja apenas uma viagem de negócios. "É um sinal de esperança, mesmo que pequenino."

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