Os novos batimentos por minuto de Salvador Sobral

São 14 as músicas que Salvador Sobral apresenta no seu novo trabalho gravado numa espécie de autoexílio, em França. Um disco difícil de catalogar que revela a procura intrínseca do desconforto, que o intérprete de Amar Pelos Dois tanto gosta.

Comecemos pelo fim. A terminar uma conversa descontraída com Salvador Sobral, a propósito do seu novo álbum, o cantor com formação em jazz e que ganhou o Festival da Eurovisão em 2017 partilhou o que anda a ouvir. A resposta não podia ser mais desconcertante: "Ando obcecado com hip hop norte americano, principalmente um músico chamado Kota The Friend. É um tipo existencialista que não tem a ver com aquele hip hop mais conhecido, ele olha para suas emoções e fala sobre isso. E também estou ouvir Princess Nokia e hip hop português. Não sei porquê, deu-me para aqui".

Inesperado, desconcertante? Talvez seja isso que Salvador Sobral é hoje, um músico que gosta de desconforto. Voltemos então ao início da conversa com Salvador e às razões destas linhas: bpm, assim mesmo em minúsculas é a sigla de batimentos por minuto, os batimentos do coração, o nome do novo e diferente trabalho de Salvador Sobral, o músico que segue à risca a citação de Miles Davis: "You should never be confortable, man". Diz: "Adoro estar incómodo na arte. É o desconforto que traz a criatividade".


O desconforto no novo trabalho não foi trazido pelas batidas de hip hop, elas não entram em bpm, mas sim auto provocado por ser o primeiro álbum onde compôs todas as músicas, uma diferença em relação aos anteriores trabalhos de estúdio (Paris, Lisboa de 2019 e Excuse Me, de 2016). Mas há mais ingredientes que influenciaram a composição do novo disco.

A série de concertos que fez em 2020 onde cantou o belga Jacques Brel ainda perdura de certa forma, conta. Em bpm, Salvador revela mais sobre os seus medos as suas angústias, sobre o amor, "que obviamente tem sempre de ser cantado", e ainda sobre a solidão, que não gosta. "Adoro as pessoas, perceber e tocar o outro e não gosto da solidão. Talvez seja por isso que gosto de cantar", explica, acrescentado sem perder fôlego que "este trabalho é um híbrido entre canções autobiográficas e canções de personagens e nas músicas encontramos muitos dos meus receios sobre isto de ser músico e fazer música".

"Ando obcecado com hip hop norte- -americano, principalmente um músico chamado Kota The Friend. É um tipo existencialista que não tem a ver com aquele hip hop mais conhecido."


E, claro, a covid também teve uma participação especial no disco. "Se não fosse a pandemia se calhar não tinha conseguido compor o disco todo. A minha missão nos dias de confinamento era a de compor todos os dias em conjunto com o meu amigo Leo [Aldrey]. Se não houvesse a pandemia andava por aí a tocar ou a ir ao cinema, ou a ler ou a jogar futebol. Há tanta coisa para fazer que me iriam impedir de ter o foco da composição. Sou muito diletante".

Ao mesmo tempo, apesar de espremer alguma positividade da pandemia, a falta de concertos fê-lo sofrer. "De repente fiquei, ficamos, sem palco para cantar... no início do confinamento passava muitas horas a dormir, não me apetecia sair da cama, era uma espécie de inércia. Como não cantava ficava inseguro, como se não fosse eu próprio". Passada essa fase decidiu então mergulhar a sério no trabalho que resultou em bpm.

E agora, a que soa Sobral?

E se as influências do tempo vivido, da busca do desconforto, provocou um caminho diferente, como chegarão ao público as novas músicas de Salvador Sobral, o eterno intérprete de Amar Pelos Dois?

"Os meus dois trabalhos anteriores foram uma tentativa de emulação do que acontece em palco, discos de jazz com interação dos músicos, uma quase imitação de um concerto. No novo disco procurei uma identidade sonora nova que tivesse uma linha contínua em todo o trabalho", diz. A Sobral juntaram-se novos músicos, o pianista sueco Max Agnas (que não pode participar na gravação do disco) e o guitarrista André Santos, que trouxeram "novas cores, atmosferas e camadas sonoras para a banda".

Depois, iniciou-se a "procura do som, com diferentes referências de músicos que gostamos muito como Patrick Watson, Surfjan Stevens, Fiona Apple, Bon Iver. Fizemo-lo com muita curiosidade tímbrica. A partir disso tudo, fizemos canções mais pensadas e mais produzidos e com mais tempo", explica Salvador Sobral ao DN.

O disco foi gravado em seis dias, um pouco mais do que é normal, e o pós produção prolongou-se. "Gravei muitos coros, coisa que nunca fiz, gravamos overdubs de teclados e percursões".

Resumido, o novo registo tem um som diferente dos anteriores, mas ainda existe alguma dificuldade em avançar com um rótulo musical. A insistência jornalista atiça-lhe a criatividade: "Tenho falado com várias pessoas e nenhuma delas sabe em que prateleira da Fnac poderia estar, o que não é mau de todo... somos todos músicos de jazz, o que é muito importante, e por isso continuo a chamá-lo de disco de jazz mas também há algo de pop, mas não pop jazz que isso é Dianal Krall. Temos também alguma malícia trazida pela guitarra. E também tem um registo indie... talvez seja jazz indie, porque não? Acho que é isso que vou começar a dizer nas entrevistas (risos). É um disco de jazz indie!"


A primeira música, Sangue do meu Sangue, já toca nas rádios e nas plataformas de streaming desde finais de março. É a primeira amostra do trabalho com um total de 14 músicas, cantado em português, inglês e castelhano - onde se destaca um bolero cantado em conjunto com Margarida Campelo. O making of das gravações de bpm está disponível em vários episódios no canal do músico no YouTube, uma espécie de diário de bordo do processo criativo da equipa que durante vários dias gravou no estúdio Le Manoir de Leon, a pouco mais de uma hora de Biarritz, em França, algures no meio do campo isolados de propósito para estarem completamente focados na música. "Tudo partiu da minha rejeição de gravar em estúdio e de estarmos fechados em quatro paredes algures num estúdio convencional. Achei que se estivéssemos juntos, isolados, concentrados apenas na música que fazemos, sem distrações, seria melhor. A envolvência influencia muito na hora de fazer música, sobretudo em músicos de jazz, como nós". Neste disco existiu outra curiosidade, por por pura teimosia criativa do cantor. Salvador preferiu que as músicas fossem gravadas sem os "vícios" trazidos pelas apresentações prévias em concertos - que não existiram por causa da pandemia. Foram todas gravadas e tocadas em estreia.

Quem ouve o Salvador?

Quatro anos depois da vitória no festival da Eurovisão, com estrondoso sucesso por toda a Europa - e não só -, quem é hoje o público que ouve, e segue, Salvador Sobral? "Houve uma altura que era o país inteiro, por causa do festival, mas acho que logo no dia seguinte à vitória começou a existir uma filtragem gradual entre quem gosta de mim por ser famoso e quem gosta de mim pela minha música. Hoje em dia creio que tenho um público que gosta da música que faço. Nunca ninguém reclamou se num concerto não tocar o Amar Pelos Dois... É um público muito menor que o país inteiro de 2017, mas gostam genuinamente do que faço".


Esse foi um ano "louco" para Sobral. Olha para 2017 e toda a experiência por que passou sem romantismos: "Quando fui para a final do festival na Ucrânia estava muito doente e fiquei meio dormente em relação a tudo o que se passava à minha volta. Não me consigo lembrar do que senti, acho que estava em modo automático. Foi talvez a forma do meu corpo se defender de tudo aquilo. Não é normal uma pessoa passar por algo assim naquela condição de saúde. Depois comecei a sentir rejeição ao facto de ser uma figura pública e comecei a ter necessidade de rejeitar as pessoas para as afastar. Foi uma rebeldia desonesta, estava a querer chocar e indignado por aquela adoração à minha volta".

Contudo, não rejeita o que passou. "Tenho a plena noção que nunca mais vou fazer uma música com aquela repercussão, até pelos sentimentos que a música provocou nas pessoas. Sinto que atingi o meu pico de popularidade aos 27 anos, pelo menos com uma canção". Algo que lhe provoca uma certa angústia, confessa. "Tudo aquilo foi uma conjugação de fatores. Naquela altura estava a tentar focar-me em conseguir respirar só mais uma vez e isso tirou-me o nervosismo. Se fosse hoje teria ficado muito mais nervoso e com maior pressão".


Voltemos ao princípio deste artigo que é como diz, ao fim da conversa com Salvador Sobral. Regressemos às influências do hip hop, ao jazz, a Brel, ou ao último trabalho do músico Bruno Pernadas, Private Reasons, de 2021, que considera "uma obra prima".

Para o futuro, um dos desejos é ter um público mais eclético. "Sinto que em Portugal, mais do que nos outros países, o meu público é mais velho e gostava que os mais jovens ouvissem minha música".

Enquanto não realiza o desejo de passar uma temporada a tocar e a viver na América do Sul, quer matar as saudades de tocar ao vivo. A agenda dos próximos tempos está a ser desenhada e dela já fazem parte um festival de jazz em Hamburgo, na Alemanha, uma passagem por Itália e uma digressão na Ucrânia. E, claro, concertos em Portugal. A motivação e o vício fazem o resto. Vício? Sim! "Sou viciado nos quinze minutos antes de subir ao palco e na adrenalina que sinto nessa altura. É quase como uma droga". Legal e muito recomendável, como os batimentos por minuto do novo disco de Salvador.


filipe.gil@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG