O vírus não espera por despachos

A faixa etária abaixo dos 50 anos representa 60% dos internados na ala covid, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. São cidadãos sem outras doenças associadas, ou seja, saudáveis, mas, ainda assim, alvo deste vírus mortal. A guerra ainda não acabou e temos pela frente muitos meses até conseguir noticiar que "todos os portugueses estão vacinados com as duas doses". A ilusão de que apenas uma dose da vacina é um escudo de tem de ser combatida. Um pouco mais de literacia sobre a vacinação, junto das populações, seria bem-vinda.

Na Grande Lisboa a situação é crítica e caminha-se a passos largos para as linhas vermelhas. Uma delas já foi mesmo ultrapassada: a dos 240 casos por 100 mil habitantes. Portugal é agora o terceiro país europeu onde a variante indiana é dominante e um dos que mais casos novos registam. Todas as decisões ao nível da saúde estão a ser remetidas para quinta-feira, dia de Conselho de Ministros. Até lá corre mais uma semana, com pouco ou nenhum controlo da situação e os diagnósticos à Região Metropolitana de Lisboa agravam-se de dia para dia. O vírus não espera uma nem duas semanas por despachos.

Olhando para os nossos países irmãos, só no Brasil já morreram mais de 500 mil pessoas. O fracasso no combate ao coronavírus é claro. O país presidido por Bolsonaro tem há muito a situação descontrolada e em termos políticos e económicos a nação está de rastos. Em vários países de África surgem notícias da proliferação do vírus, nomeadamente em bairros mais pobres, onde as condições sanitárias são muito frágeis ou inexistentes. A solidariedade entre os países do Ocidente e das restantes geografias não pode ficar esquecida. As economias são dependentes umas das outras e dificilmente haverá retoma sem que muitos dos nossos parceiros históricos e económicos salvaguardem a sua situação sanitária. Durante a última grande crise financeira, que culminou com a intervenção da troika, Portugal virou-se para a África lusófona, para o Brasil. Desta vez, com uma crise mundial e com fraca solidariedade vacinal dos países desenvolvidos em relação aos restantes, restam poucas opções e alternativas. Cresce a China e crescem os Estados Unidos, mas como bem sabemos nem todas as empresas portuguesas, a sua maioria pequenas e médias, têm capacidade, dimensão, conhecimento e músculo para se lançar nesses dois mercados longínquos e sofisticados. Quanto menos e mais lenta foi a solidariedade vacinal, mais vagarosa será a recuperação económica.

Por falar em recuperação, hoje é apresentada a Associação Business Roundtable Portugal, que reúne 42 líderes das maiores empresas privadas do país. A iniciativa tem mérito e quer contribuir para "um Portugal que cresça muito mais do que tem crescido, tendo a ambição de regressar ao top 15 europeu da riqueza per capita", declara. Como? "Através da valorização e qualificação dos portugueses, do apoio à criação, desenvolvimento e ganhos de escala das empresas e de melhorar o desempenho do Estado como facilitador da atividade económica e de criação de riqueza para toda a sociedade." Todos somos poucos para enfrentar esta batalha. Agora é preciso passar rapidamente das palavras aos atos.

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