Premium O complexo código de conduta de um grupo de gangsters motorizados

A primeira regra dos Hells Angels é: tu não falarás dos Hells Angels. A segunda regra dos Hells Angels é: tu não falarás dos Hells Angels. E está quase tudo dito.

Perto de Faro, na estrada municipal que liga Estoi e Moncarapacho, há um sítio chamado Areia que não tem mais de dez casas, um pequeno café e o anexo de uma casa pintada com o ícone de uma caveira com asas e o números 81. É um hang out, ou lugar de encontro, dos Hells Angels algarvios. Em regra, todas as noites um grupo de motards ocupa aquele espaço e arma uma barulheira que se ouve por todo o vale. Mas desde que na semana passada foram detidos 58 membros da organização, os portões não voltaram a abrir-se.

Portas fechadas e lábios cerrados, é esta a regra que os Hells Angels têm para cumprir. Ninguém tenha dúvidas: este é um grupo extremamente organizado. Criaram uma lei para eles próprios à margem do Código Civil e é por isso que a Polícia Judiciária os define como uma estrutura paramilitar de crime organizado. Quem agora falar arrisca-se a um espancamento. Se falar com a polícia o mais certo é que lhe ditem sentença de morte.

Os Hells Angels têm cinco núcleos em Portugal, a que chamam de capítulos (chapters). Lisboa, Porto, Cascais, Setúbal e Algarve - estes últimos chamam-se a si mesmos Nomads. Em cada zona territorial há uma série de hang outs, lugares onde se reúnem semanalmente para tratar das atividades do grupo e diariamente para conviver. A esses lugares eles chamam as suas igrejas. O tal anexo no lugar da Areia, numa estrada discreta do Algarve, é um desses templos. No final dos anos 1960, Hunter S. Thompson passou dois anos num capítulo dos Hells Angels e escreveu um livro, que não só é uma obra de referência jornalística como um dos mais detalhados documentos sobre a organização do grupo. Chamava-se Hells Angels: a estranha e terrível saga de um gangue de motards fora-da-lei.

Quem agora falar arrisca-se a um espancamento. Se falar com a polícia o mais certo é que lhe ditem sentença de morte.

Nessas páginas, o jornalista tentou perceber o perfil dos seus membros. "Eles são uns sacanas para o mundo e o mundo é sacana para eles. Quando entram em qualquer sítio querem parecer o mais repulsivos possível. A grande maioria destes fora-da-lei é pouco educada, homens entre os 20 e os 30 anos com poucas competências e sem grandes credenciais para apresentar que não sejam os seus cadastros criminais. Então na raiz da sua associação está muito mais do que a frustração de não terem triunfado no mundo? É exatamente o contrário, eles têm orgulho nisso. É esse o seu triunfo."

Um dos símbolos que o grupo usa, aliás, é a expressão um por cento. Os Hells Angels nasceram em 1947, na Califórnia, graças a um grupo que armou um motim na concentração de motos de Hollister. No dia seguinte, perante uma opinião pública escandalizada, a Associação de Motociclistas Americanos emitiu um comunicado dizendo que 99% dos motociclistas americanos eram cidadãos cumpridores da lei. Os Angels colocaram-se imediatamente do outro lado da barricada. Também usam os números 8 e 1, posição das iniciais do grupo no alfabeto. Leis, só as que eles criaram.

Três fases para ser aceite

Fontes policiais explicaram ao DN como a estrutura hierárquica dos capítulos é apertada. Cada núcleo tem de ter no mínimo seis indivíduos, porque há seis cargos obrigatórios em cada delegação. Há o presidente e o vice-presidente, que organizam a estrutura, preparam as reuniões e indicam as ações do grupo. O primeiro lidera a formação quando saem para a estrada, o segundo substitui-o sempre que é preciso. Depois há um tesoureiro que trata das finanças e avisa da necessidade de recolher fundos, a bem ou a mal. Também atribui as multas aos elementos que não cumpriram as regras.

O secretário é uma espécie de espião: recolhe informações sobre a polícia e as movimentações dos grupos rivais. O Sargento de Armas é responsável pelas armas do grupo, planeia os ataques à polícia ou aos inimigos e define as punições dos elementos que tenham violado as regras do clube. Depois há o Capitão de Estrada, que organiza as viagens, planeia o alojamento e as refeições e tem a responsabilidade de falar com a polícia caso algum elemento seja mandado parar. Os restantes são membros, mas conseguir ser membro dos Hells Angels é tudo menos uma tarefa fácil.

Ninguém entra no clube sem provar o seu valor. Há três fases para aceder a membro, num processo de recrutamento igualzinho aos skinheads e hammerskins. Primeiro tem-se estatuto de amigo - alguém é trazido por um dos membros e começa a executar pequenas tarefas, na maioria das vezes não criminosas. Ao fim de um ano passa a hang around. Já cumprem tarefas mais pesadas, como fazer correio de droga ou vigiar inimigos, mas não podem assistir às reuniões. Por fim, antes da passagem a membro, são chamados de prospect. Devem obediência aos membros e devem provar o seu valor vigiando ou atacando inimigos, incluindo a polícia. Só depois, com o consenso de todo os membros do capítulo, ascendem a membros de plenos direitos dos Hells Angels.

Apesar das ligações dos Hells Angels ao tráfico, a crença é de que um elemento enfraquecido pelo vício pode facilmente tornar-se um delator.

Só homens maiores de idade e brancos podem aspirar a pertencer ao grupo. Uma das regras é que não tenham quaisquer ligações às forças da autoridade, nem no presente nem no passado. Se forem descobertos a mentir sobre este assunto, são punidos, habitualmente com a morte. Também não podem ser toxicodependentes. Apesar das ligações dos Hells Angels ao tráfico, a crença é de que um elemento enfraquecido pelo vício pode facilmente tornar-se um delator.

Ainda que existam há mais de 70 anos, que dois terços dos capítulos dos Angels estejam em território europeu, a verdade é que o grupo só se estabeleceu em Portugal em 2002. Os cadastros mostram bem o calibre dos membros nacionais: estão ligados ao tráfico de droga, a homicídios e a tentativas de homicídio, às máfias da noite. Mas, apesar de investigados pelas autoridades, permaneceram relativamente invisíveis do público até este ano. E a explicação é relativamente simples: neste ano formou-se em Lisboa um grupo de rivais, ainda para mais rivais históricos, Los Bandidos - que aqui são liderados por Mário Machado, o rosto da extrema-direita portuguesa. As detenções da semana passada travaram o que quase ninguém esperava. Em Portugal, sem que ninguém desse por isso, estava o palco montado para uma guerra.

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Anselmo Borges

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