Não há urgência maior do que esta pergunta simples

Ouso meter-me nisto pela urgência e gravidade do espantoso caso. Este assunto tem meses e meses. Um antigo ministro, enquanto ministro, recebeu 500 mil euros de uma empresa privada, ou não. Digo "ou não" porque a Justiça, que vazou a informação para o público, ainda não conseguiu constituir arguido o referido ministro (ou melhor, conseguiu e, depois, desconseguiu), quanto mais levá-lo a tribunal, julgá-lo, inocentá-lo ou condená-lo. Primeiro lamento, a Justiça não conseguiu.

Este assunto do antigo ministro que recebeu, ou não, tem meses e meses e envolve um ministro que sobre esse assunto já passou por ser arguido e por não o ser. A Assembleia da República, lugar onde os governos se fazem e, portanto, onde os ministros devem o serem ministro, deveria querer clarificar o assunto com o pundonor em causa própria e ganas de anteontem - mas já vamos em meses e meses. E o caso é este, nunca é demais repeti-lo: um ex-ministro recebeu mensalmente, enquanto ministro, um salário paralelo, ou não.

A Assembleia da República, pois, devia chamar este ministro com urgência, sabendo ela que tinha duas oportunidades para essa urgência. A primeira era convocar o ex-ministro para o ouvir em comissão comum e, aí, corria o risco de o ouvir invocar, já arguido ou não, o seu direito ao silêncio. Ou chamá-lo a uma comissão de inquérito (que é uma espécie de tribunal), onde, caso não estivesse o ministro arguido, ele seria obrigado a responder ao que lhe perguntavam. O Parlamento chamou-o para a comissão de Economia e o risco concretizou-se. O ministro toureou os deputados, nada respondendo - como era seu direito.

E, agora, depois do baile levado, o Parlamento não aproveitou a situação atual em que o ex-ministro não é arguido, para o convocar para uma comissão de inquérito, ad hoc ou sei lá o quê, logo que fosse já. Como vos disse, o assunto é: um antigo ministro, enquanto ministro, recebeu 500 mil euros de uma empresa privada, ou não. Pois essa urgência não foi entendida.

E não o tendo chamado, nesta condição atual de não arguido, a uma comissão de inquérito, livrou-o da obrigação de responder à pergunta simples: recebeu dinheiro indecente ou não? Assim, o ministro irá a uma comissão de inquérito em setembro mas, nessa altura, já provavelmente arguido, e terá o direito ao silêncio. Teremos, depois disso, anos de investigação judicial e quando houver julgamento, ou não, já nos teremos esquecido da pergunta simples. Segundo lamento, a poderosa Assembleia da República não conseguiu.

Era direito do ex-ministro Manuel Pinho - naquela comissão parlamentar a que foi chamado, na terça-feira - não responder à dúvida de se recebeu mensalmente, enquanto ministro, um salário paralelo. Era seu direito, é certo. Mas nada o obrigava - nada de decente (é a segunda vez que aqui uso palavra simples, porque ela define o assunto e é de entendimento comum) -, nada o obrigava a calar: "Quando fui ministro não recebi um salário paralelo." Terceiro lamento, o ex-ministro não conseguiu.

O primeiro, o segundo e o terceiro lamentos que refiro acima são de conseguimentos falhados, de deveres ser que não aconteceram. Não confundir com a hipótese de Manuel Pinho ter conseguido safar-se. Isso, até pode acontecer. É o meu quarto lamento. Pelo menos até Manuel Pinho responder à pergunta simples.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.