Premium Brasil. Mais formação de médicos e melhor vida explica êxodo para Portugal

Há mais médicos formados nas universidades. Mas são das profissões mais bem pagas. Condições de vida explicam mudança

O Brasil não é um nato exportador de médicos - Índia, Filipinas e África do Sul são os campeões mundiais -, mas esse fluxo pode aumentar. O número total de médicos dobrou desde os anos 1990, segundo Mário Scheffer, coordenador do projeto Demografia Médica no Brasil e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Desde 2010 houve mais de cem mil novos profissionais e abertura de escolas.

A taxa de crescimento do número de médicos no Brasil é duas vezes superior à da população. Com isso, não só o mercado ganhará mais médicos (e concorrência) como o processo emigratório poderá crescer. Hoje ainda não é expressivo - é facto que cresce em Portugal, mas é pouco, perto de um total de 450 mil médicos.

Não há registo de quantos médicos brasileiros exercem a profissão no exterior - quem a detém é o país que os recebe. No entanto, Scheffer afirma que o Brasil não tem essa "natureza exportadora". Até porque, "dependendo do país há muita dificuldade de validação do diploma, e pleno emprego para a categoria. Muitos postos estão desocupados. Acredito que essa saída seja parte de um fluxo natural, assim como ocorre com outras profissões". A profissão de médico é a mais bem remunerada do país e, em sua perceção, a crise económica demora a afetar esses profissionais.

Na tese de doutoramento feita na USP, a médica Nancy Val y Val Peres da Mota analisou por que os médicos brasileiros emigram para os Estados Unidos. Entrevistou 19 médicos. Apesar de as realidades serem bem diferentes, os resultados podem dar dicas sobre os motivos que levam os brasileiros a Portugal. Os principais motivos para a mudança são, nesta ordem, aperfeiçoamento pessoal, oportunidades gerais, qualidade de vida e família. Salário maior foi citado como motivo por apenas um dos médicos.

E por que eles ficaram? Por causa de melhores condições de trabalho em primeiro lugar, seguida de qualidade de vida e da família. Por que voltariam? Quase 40% dizem que não há motivo para voltar. Em seguida, citaram motivos familiares e futuras oportunidades. Por que não voltariam? Destaca-se em primeiro lugar a questão insegurança (24,5%), seguido do cenário profissional (19%), cenário político (17%) e cenário económico (13,2%). "Ou seja, os médicos costumam ir para os EUA por motivos pessoais, mas, quando passam a viver lá, acostumam-se, gostam da nova vida e não querem mais voltar. Entre os motivos para não voltar, as causas externas pesam mais", diz a médica.

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