Bolsonaro lança a candidatura. Eis os seus apoiantes

O DN quis saber o que move os eleitores do líder das sondagens, se não contarmos com Lula da Silva, que é também o mais controverso concorrente ao Planalto: falam em currículo sem corrupção, ênfase na segurança e defesa de valores como o da família. Jair Bolsonaro lança neste domingo a sua candidatura às eleições presidenciais de outubro no Brasil.

"A esquerda praticamente destruiu o Brasil com as suas políticas demoníacas, Jair Bolsonaro é a única esperança para um futuro melhor", respondem, através de mensagem pela rede social Facebook, os administradores da página "Apoiantes de Bolsonaro", quando desafiados pelo DN a explicar as razões do voto em Jair Bolsonaro, capitão do exército na reserva, deputado por nove partidos ao longo de sete legislaturas e candidato do PSL às eleições presidenciais de 7 de outubro, liderando todas as sondagens, se excluirmos o detido Lula da Silva, do PT.

Apesar do sucesso nas sondagens de opinião e a ótima disseminação na internet, o candidato é, em contrapartida, classificado como "fascista", "machista", "homofóbico" e "boçalnaro" pelos seus opositores. E os seus apoiantes tratados por "bolsomínimos" [numa referência aos Mínimos, o exército do malvado Gru do filme de animação O Maldisposto]. Mas o que pensa, afinal, esse exército, de 17% dos eleitores brasileiros, ou seja, cerca de 20 milhões de pessoas, do seu candidato? Quais as razões para votar nele? Porque se dispõem a ser apontados a dedo nas redes em troca do apoio ao controverso deputado de 63 anos?

"Apoio-o porque tem princípios: em 23 anos como deputado, ao contrário da maioria dos 513 que por lá andam, não sujou as mãos, o que demonstra ética, moral e prática anticorrupção", diz ao DN Elias Miller da Silva, advogado e polícia reformado de 61 anos. O também advogado, mas de 24 anos, Vinícius Seixas, concorda: "Vasculharam mas não encontraram nada de corrupção contra ele em mais de 20 anos como deputado: até os críticos dele concordam que quem não se deixa contaminar naquele ambiente é porque tem princípios fortes."

"Ele é a verdade em forma humana (João 8;32)", diz, citando a Bíblia, Bete Oliveira, 51 anos, personal organizer de Jaboatão de Guararapes, cidade de Pernambuco, na região nordeste, tradicionalmente próxima do PT de Lula, que nasceu ali perto, e de Dilma Rousseff. Bete usa o texto bíblico, aliás, para responder a todas as perguntas do DN. "Deus escolheu Jair Messias Bolsonaro para resgatar o nosso país (Tiago 1;17)","é defensor da família e Deus criou com as suas próprias mãos a primeira família (Génesis 2;7)", "contra a ideologia de género e a agenda homossexual (Romanos 1;18, 32)", "é a favor da punição justa para crimes hediondos (Êxodo 20;13)" e defende "políticas públicas pela imparcialidade, igualdade, independentemente de credo, orientação sexual e raça (Mateus 5,6,7)". Por alguma razão, o candidato é, dizem as sondagens, o preferido da crescente população evangélica do país.

Para Adryan Subtil, estagiário na Secretaria de Educação de Porto Alegre, de 21 anos, o facto de Bolsonaro ser contrário à legalização do aborto também o seduz: "Bolsonaro defende o direito à vida desde a conceção, facto relativizado pela esquerda." Ainda na área social, sublinha que o candidato do PSL "promete adequar a educação brasileira a modelos bem-sucedidos de países prósperos, quer resolver as questões da imigração venezuelana ilegal no Roraima, que aumentou os problemas de insegurança e violência no estado, e defende o fim do estatuto do desarmamento para que o cidadão de bem possa defender-se a si próprio e à sua família".

"Armar os cidadãos de bem" é um dos mantras de Bolsonaro mais estimados pelos seus acólitos. "Ele pensa como o cidadão médio: uma intelectual de esquerda, como [a professora de Filosofia e pré-candidata ao estado do Rio de Janeiro] Márcia Tiburi, diz defender o assalto, porque o assalto é o pobre tirando do rico, mas isso foge ao que o cidadão comum quer, que é segurança na rua, na casa e nas escolas", afirma Vinícius Seixas.

Na discussão em plenário do impeachment de Dilma em 2016, o deputado Bolsonaro causou perplexidade ao dedicar o seu voto a Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI, órgão de repressão durante a ditadura militar, acusado de torturar presos políticos, entre os quais a então presidente. Elias Miller desdramatiza: "Ele defendeu Ustra, que cometeu abusos num governo de exceção, mas Dilma é uma homicida." O coronel da polícia militar na reserva atribui aos "media subversivos, ideológicos e corrompidos" a amplificação dessa e de outras controvérsias do candidato.

Nomeadamente, no caso da célebre resposta à deputada do PT Maria do Rosário, quando Bolsonaro disse "eu não estupro você porque você não merece". "Eu assisti ao caso no Congresso", diz Miller, "não precisei de vê-lo contado pelos media de esquerda: ela estava a defender um menor que violou, porque na lei brasileira se uma pessoa de 17 anos, 11 meses e 364 dias matar cem pessoas fica presa no máximo até três anos, o que é um absurdo, e chamou o Bolsonaro de estuprador, aí ele teve essa resposta, uma resposta imediata, o que no direito penal não é passível de punição." "Ele fala umas bobagens de vez em quando? Sim, como todos nós, é sincero, é uma pessoa real, não alguém que coloca uma máscara antes de subir no palanque", acrescenta Vinícius Seixas.

E na economia? Como vai gerir o presidente Bolsonaro, que já admitiu ser um leigo na matéria, as finanças brasileiras? "Paulo Guedes, o ministro das Finanças caso Bolsonaro ganhe, é um dos homens que mais entendem de economia neste país, talvez no mundo", lembra Seixas. "Ao longo dos tempos, ele tornou-se simpático ao liberalismo económico, associando-se a liberais competentes que defendem a desburocratização e o não aumento de impostos, já disse que partirá para o bilateralismo com acordos justos com países bem-sucedidos e que se espelha em países capitalistas e não em malfadados modelos socialistas", prossegue Subtil.

"Por estes motivos ele está quase certo na segunda volta, o problema será aí, quando todos se unirem contra ele, caso ele não ganhe, como sou neto de portugueses, vou para Portugal, mas eu acredito, todos acreditamos num futuro melhor com ele na presidência", diz o Coronel Miller. E a quem não acredita, os bolsonaristas respondem com o trocadilho e slogan de campanha "Bolsonaro presidente? É melhor Jair se acostumando."

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