Premium Aconteceu em 1909 - Antes comerciante do que médico

O assunto era a primeira notícia da página, destacado sob o tema "Questões médico-sociais": havia excesso de médicos em Portugal

Pode parecer incrível, mas há quase cem anos parecia haver um excedente de médicos para os doentes portugueses. "De todos os lados se erguem queixumes de que o campo da medicina está acumulado de médicos", lia-se no DN deste dia, datado de 1909. O relato continuava com ênfase dado ao facto de haver um aparente "frenesi" em conseguir o diploma de médico. "A cultura clássica, as profissões liberais e em especial a formação em medicina engordam e enfeitiçam as famílias", contava o autor, também ele médico.

E prosseguia Guilherme José Ennes - assinando aqui apenas com o apelido e a primeira inicial - dizendo que esse diploma, acreditava-se na sociedade, traria fortuna, nome e bem-estar assegurados. "Lamentável engano", acrescentava o cronista, já que "os doentes não chegam já para tantos médicos". "Na medicina, escasseia a matéria-prima, o doente, para essa multidão de médicos que as escolas anualmente estão habilitando."

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Catarina Carvalho

As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

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Adolfo Mesquita Nunes

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

A discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.