Verão morno lança campanha longa

A saúde e os professores à esquerda e um novo partido a surgir no centro-direita são temas que podem fazer azedar o final de verão e a entrada no ano eleitoral de Costa e Rio. Como papel de cenário, um Orçamento que ninguém quer deixar de aprovar.

Paulo Tavares
António Costa.© Fernando Araújo / Lusa

Sobra uma semana para a política portuguesa entrar no torpor do verão e Presidente, geringonça e oposição vão a banhos com a temperatura do caldo político regulada para o morno. Não havendo incêndios, a travessia das semanas de agosto será tranquila e o ambiente nos palácios é agora de descompressão. Até final de novembro, quando o OE 2019 subir a plenário para a votação final global, a pressão será a mesma de sempre. É um filme em reposição com o argumento dividido entre a vontade de cumprir a geringonça "até ao horizonte da legislatura" e a estratégia de sempre de BE e PCP, que agora têm pouco mais de um ano para afirmar alguma autonomia estratégica em relação ao governo socialista. É um jogo natural no caminho para um ano eleitoral aos olhos do governo, que conta com nova subida de tom depois de aprovado o OE. Até lá, dizem, será o mesmo de outros anos e de outros Orçamentos.

O DN sabe que o ambiente nas reuniões bilaterais tem sinalizado que o OE 2019, ao contrário do que parecia há semanas, não será um ponto de rutura. "Toda a gente quer aprovar o Orçamento" é uma frase assumida por todos. Na última semana, Jerónimo descomplicou na entrevista DN/TSF e João Oliveira, o líder parlamentar comunista, em entrevista ao Público há dias, deixou dito que, se o PS precisar, o PCP lá estará pronto a repetir a frase de outubro de 2015: "O PS só não forma governo se não quiser."

O PCP continua a ser visto como uma peça estável e previsível da geringonça, por oposição a um Bloco mais agressivo e de palavras e atitudes difíceis de antecipar. Uma fonte familiar com as reuniões bilaterais para negociação do OE conta que tem sido notória a dificuldade dos bloquistas em adotar um tom mais "simpático" nos últimos encontros.

No executivo existe a convicção de que os parceiros "foram sensíveis" aos argumentos de António Costa na entrevista ao DN, quando deixou claro que preferia contratar mais funcionários para o Estado, protegendo os serviços, do que seguir o caminho de aumentos salariais em ano de eleições. No regresso, em setembro e antes do Orçamento, é esperado um crescendo de exigências de BE e PCP à roda de temas sem ligação direta ao OE, como a legislação laboral, um pacote que há de estar em debate e votação nos primeiros dias da próxima sessão legislativa.

Das preocupações dos socialistas constam dois temas delicados e de resolução muito pouco óbvia: carreiras dos professores e a lei de bases da saúde, que terá sempre como pano de fundo o estado do SNS e a forma como terá resistido, ou não, às pressões do verão. Quanto aos professores, as fontes contactadas pelo DN defendem que a questão tem de ficar fechada logo em setembro sob pena de inquinar a negociação do OE. Aliás, como alguém lembrava, esse "não é problema que se queira levar para ano de eleições". A chave do enigma estará algures entre 600 e 200 milhões de euros, num ponto a meio caminho entra as contas do governo e as dos sindicatos ao impacto das exigências dos professores.

Visto a partir de Belém, o momento serve para anotar algumas lições. António Costa aprovou e rejeitou, no essencial, tudo o que quis no Parlamento - com apoio da esquerda e do PSD quando foi necessário - e o OE 2019, que chegou a estar suspenso em declarações mais ou menos definitivas de Catarina e de Jerónimo, parece a esta altura um dado adquirido. O desanuviar dos discursos é encarado como uma das surpresas de julho, a par da especulação à direita sobre a criação de um novo partido. Se Santana Lopes conseguir cumprir esse velho sonho, chegará o tempo de mais uma mudança radical no sistema político, desta vez à direita. O aumento da competição por votos no centro-direita será um teste de fogo à liderança de Rui Rio, que não pode arriscar ficar com um PSD reduzido à sua base eleitoral mais fiel, sem alargar apoios, o que significaria um resultado entre os 25% e os 29%.

Nas conversas ao longo da semana, diversas fontes do PS e do governo enunciavam à boca pequena um cenário que assusta quem ousa verbalizá-lo: crise política e eleições antecipadas. Algumas sondagens com o PS à beira da maioria absoluta justificam esses desabafos, quase sempre no mesmo tom: "Se pelo menos houvesse uma forma de ter eleições antes do tempo, sem danos para o partido e empurrando a responsabilidade para um dos parceiros..."

Para lá das sondagens, o tema que torna este cenário mais enunciável nos últimos tempos - não o era até há meses - é o estado da economia. O abrandamento da Europa, com os principais mercados-alvo das exportações a desacelerar e previsões menos otimistas em indicadores como o crescimento, o consumo público e privado ou o investimento deixaram alguns socialistas a pensar no tempo e modo de evitar ir a eleições só em outubro de 2019.

Não será o diabo, mas que há demónios à espreita é uma certeza. Um brexit mal gerido, uma guerra comercial EUA-China ou os turistas a escolherem outros destinos são fatores que o governo, por muito que se esforce, não controla. O que resta de 2018 e o ano de 2019 hão de ser marcados pela incerteza, mas das Finanças tem chegado uma mensagem tranquilizadora para a estratégia de António Costa. Quando o país entrar na reta final da campanha para as legislativas, daqui por um ano, os números que haverá para apresentar em comícios, entrevistas e debates serão os do segundo trimestre e Mário Centeno está convencido de que ainda não terão chegado aos indicadores marcas decisivas de borrasca.

2018
. 25/8 - Festa de verão do PS em Caminha
. 31/8 a 2/9 - Fórum Democracia do BE em Leiria
. 3 a 9/9 - Universidade de Verão do PSD em Castelo de Vide
. 6 a 7/9 - Festa do Avante! do PCP no Seixal
. 8/9 - Rentrée do CDS no Porto ou em Vale de Cambra
. 15 outubro - Data limite entrega OE2019 na AR
. 10 e 11/11 - Convenção Nacional do BE
. Final de novembro - Aprovação final global do OE2019

2019
. 26/5 - Eleições Parlamento Europeu
. Setembro/outubro - Eleições Legislativas

. Setembro/outubro - Eleições Regionais Madeira