A Cimeira da CPLP em Cabo Verde: a identidade e o poder pelo diálogo


Não é possível falar da CPLP sem falar de identidade. Seja ela geográfica e territorial, linguística, económica, cultural ou política, ao falarmos da CPLP ou de uma outra sua congénere, estaremos sempre a falar de identidade. Esta constatação parece por de mais óbvia e por de menos necessária, se não vivêssemos nos tempos em que vivemos. Estes tempos, a nível das questões da identidade coletiva, são mais perigosos do que os de antigamente? À luz do que a humanidade já viveu até agora, não temos, globalmente, o direito de afirmar que sim. Mas nunca como agora foi tão fácil influenciar o processo de construção da identidade de um grupo, de uma comunidade e, inclusivamente, de um povo.

Veja-se o caso sem precedentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Há dias, afiançou que a União Europeia encabeçava a lista de inimigos dos Estados Unidos, tendo em conta o que esta lhes teria feito no que diz respeito ao comércio. Conceda-se que enquanto europeus temos, ironicamente, de agradecer-lhe efusivamente este - e só este! - momento de insalubridade de raciocínio. Pois ao referir-se à Europa como a "União Europeia", sufragou a força da sua identidade, ao rotulá-la de sua inimiga, acabou por identificá-la como contrária aos atos associados a Trump, dos quais destaco a desumanidade cruel e humanitariamente criminosa de quem separou famílias oriundas do México, quando tentavam atravessar a fronteira do seu país. Simultaneamente, ao torná-la sua inimiga, Trump conferiu à União Europeia a identidade de uma comunidade que luta pelos direitos humanos. Acreditemos que é para lá que caminhamos.

Mas quererá o fenómeno Trump, com todas as suas fake news, dizer que todos os americanos são, afinal, como ele? Certamente não. E é aqui que reside o perigo e é por isso que urge falar de identidade e identificação. Nunca como agora, com os novos palcos comunicacionais gerados pelas redes sociais e pelo avanço do populismo, foi tão fácil levar alguém a identificar-se com os valores contrários à democracia. Em decadência está o processo de identificação pelo afeto. Tendemos a identificar-nos com as lutas de quem admiramos. Como esquecer o enorme Mandela, que faria 100 anos a 18 de julho de 2018. Será que hoje a identificação pelo afeto ocorre ainda nos moldes que ocorria?

É inegável o avanço no mundo e, por consequência, na Europa da xenofobia e da cultura de indiferença à diferença que lhe subjaz. Manifesta-se não só no futebol (vou escusar-me a exemplos), mas também nos avanços de grupos político-partidários de inspiração fascista que militam na recusa do humanitarismo mais elementar. E qual será a melhor resposta a este fenómeno? Acredito nas novas formas de dialogar em política e na reinvenção constante por oposição à estagnação. Acredito na descentralização como processo de aproximação ao cidadão. Acredito na abertura a novas soluções governativas, como a que temos atualmente em Portugal e que despertou a atenção internacional. Acredito, teimosamente, nas formas da democracia em que todos somos afluentes da decisão.

De África, da CPLP e da Cimeira de Cabo Verde chega-nos no vento, como uma lança de esperança, uma boa notícia. É Angola que vai presidir à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa no biénio 2020-22. O regime de Malabo sai derrotado, com tudo o que essa derrota implica. A XII Cimeira da CPLP surge como a demonstração do poder da vontade política partilhada, materializada no diálogo e como uma inspiração para todos.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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