Operários explorados na Bélgica. Clandestinidade preocupa sindicato

"Há milhares de operários portugueses explorados no estrangeiro", diz o sindicato, que apresenta provas.

Apesar da recuperação da construção em Portugal, há muitos trabalhadores que continuam a cair nas malhas das redes de angariadores de mão-de-obra, que lhes prometem tudo mas acabam a cumprir muito pouco, garante o sindicato. O caso mais recente é o de um conjunto de operários a trabalhar na Bélgica, mas a ganhar o salário-base português. Pior, os descontos são feitos sobre metade ou até só sobre um terço do valor total. "É o pão nosso de cada dia. O setor está muito complicado, nunca houve tanta precariedade", garante Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção.

O caso foi descoberto por mero acaso: pedidos os recibos de um determinado sócio, destacado na Bélgica, o sindicato estranhou que, todos os meses, este tivesse dez a vinte faltas injustificadas. Uma forma de uma empresa, de Marco de Canaveses, fugir ao fisco e à Segurança Social. "Nenhuma companhia manteria um trabalhador que falta mais de metade do mês. Os dias que dá como faltas injustificadas são dias sobre os quais não faz descontos, prejudicando o Estado e a carreira contributiva do trabalhador. É uma fuga aos impostos à descarada e não percebo como é que a Segurança Social não estranha isto", diz o sindicato. "Imagine isto multiplicado pelas cem pessoas que tem na Bélgica, veja quanto não estão a meter ao bolso", sublinha António Mesquita, do serviço de contencioso.

Além de manipular os recibos, a empresa em causa estará a prejudicar, salarialmente, os operários: recebem o salário-base português, de 600 euros, em vez do belga, de 1500. O DN/Dinheiro Vivo tentou contactar a empresa em causa, mas sem êxito, já que não tem telefone associado, apenas um apartado postal. No mesmo local já funcionou uma outra empresa de construção, declarada insolvente em 2016.

Este é apenas um dos muitos exemplos que todos os dias chegam ao sindicato. "Por cada denúncia que fazemos, aparecem mais dez casos. Não tenho qualquer dúvida de que há milhares de trabalhadores portugueses a ser explorados no estrangeiro. E, infelizmente, são portugueses que os exploram. Muitos deles só denunciam as situações mais tarde, quando já conseguiram arranjar outro emprego, até porque têm vergonha. Há pessoas a receber metade do prometido e há pessoas que até fome passam", garante António Mesquita.

O sindicato diz-se disponível para "atacar a precariedade e a clandestinidade", em articulação com as autoridades nacionais e europeias e vai pedir uma reunião, com carácter de urgência, ao governo.

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