A impossibilidade política do ambiente

Se quiserem ser honestos com o clima os políticos não podem ser honestos com os eleitores. No ponto em que estamos, o ambiente exige repensar tudo, sobretudo o modelo económico em que se baseiam os programas eleitorais todos.

O mundo vai dedicar esta semana ao clima, a ONU vai discutir o assunto, na sexta-feira haverá uma greve... e, no meio de uma campanha eleitoral, nenhum dos candidatos pode atacar a questão de frente. Não, nem o candidato do PAN, que tentou cavalgar a mudança entre defender os direitos dos animais e os do clima - uma e outra coisa podem ser contrárias, como bem sabe o partido que suavizou a contradição no seu programa.

Os políticos não podem falar de ambiente com clareza porque sabem que estão em terreno tão movediço que correm o risco de atolar. Se quiserem ser honestos com o clima não podem ser honestos com os eleitores. No ponto em que estamos, o ambiente exige repensar tudo, sobretudo o modelo económico em que se baseiam os programas eleitorais de todos - TODOS - os partidos. A curto, médio e longo prazo tem de haver estratégias de fôlego, em que seja possível coordenar esforços de vários partidos, ir contra interesses instalados. Em suma, ter uma ideia de futuro mais largo. E tudo isto, sabemos bem, não se coaduna com "sacar uns votos" nas próximas eleições, o que é normalmente feito com promessas a curto prazo, acenando aos eleitores com melhorias imediatas das suas vidas.

Um exemplo? O aeroporto do Montijo. Pensar no ambiente, a sério, implicaria olhar para a proposta à luz de futuras restrições no tráfego aéreo mundial -que é um dos mais poluentes. Vai continuar a haver aviões como os conhecermos? Agora imaginem tudo o que isso implica no turismo, no desenvolvimento das cidades, em Lisboa. Outro exemplo: o que queremos para a nossa agricultura? Valerá a pena trabalhar na captação de água, se todos os estudos dizem que é urgente o retorno de áreas agrícolas à paisagem natural para produção de oxigénio e captura de CO2, sem a qual qualquer limite será inútil? O que fazer à indústria da pecuária? E à alimentar no seu todo?
No fundo, como prometer crescimento económico sabendo que ele não poderá continuar para sempre - sob pena de exaurirmos todos os recursos naturais? O crescimento económico ortodoxo é bandeira de todos os políticos, sabendo, da esquerda à direita, que num país ainda pobre como Portugal é a única e rápida forma de vivermos todos melhor.

É verdade que podemos ter consumos mais eficientes, formas mais inteligentes de comer, indústrias mais tecnológicas e sustentáveis. Mas o eficiente, neste caso, depende do suficiente - e esta é a noção contrária à da acumulação da riqueza. O já chega, quando sabemos que nunca chega. As nações industrializadas, como a nossa, dependem da prática capitalista, das elites económicas - e isto é dito sem qualquer valorização ideológica, é assim, ponto. Só que esse sistema reproduz a lógica do lucro, da capitalização. Mais uma vez, do crescimento - insustentável, sabemos hoje.

Mesmo visto do nosso lado da escala - o dos desfavorecidos -, sabemos que é irrealista prolongar a ideologia de que maior é sempre melhor. Todos os estudos indicam que precisaríamos de uma Terra e meia para aguentar a atual economia mundial. E todos os anos aumenta o prazo - e diminuem as esperanças de que tudo possa ficar na mesma. Está um milhão de espécies em risco, segundo a ONU.

Se quisermos ter ar para respirar, temperaturas para viver ou água para beber temos de mudar o discurso. Ora, é muito difícil convencer eleitores a votar numa toada pessimista - mesmo a oposição o que anuncia são amanhãs mais radiosos. E no que à ecologia diz respeito, isso não é possível. É preciso dar um salto maior para preservar o planeta - e a vida, humana, nele.

Os políticos falam e agem como se a mudança pudesse ser linear. E não pode. Por isso não chegam paliativos ou propostas titubeantes. O que está em causa é uma mudança radical. De hábitos, de modelo económico e de política. E isso nenhum político do sistema poderá afirmar.

Exclusivos