Salazar, extrema-esquerda e UE: os antídotos do populismo

Parecemos imunes aos movimentos populistas/extremistas que varrem o mundo e a Europa em particular. Mas há quem pense que estamos só atrasados nesse processo. (Artigo originalmente publicado a 21 de outubro)

No Ensaio sobre a Lucidez , eleitores de um país qualquer, revoltados com as instituições e os partidos políticos, votam massivamente em branco. José Saramago criou uma alegoria que, para o eurodeputado social-democrata Paulo Rangel, poderá transpor-se para os abstencionistas em Portugal. "O voto de protesto que poderia ter sido canalizado para movimentos populistas está preso no movimento abstencionista", garante. Mas admite que um dia essa bomba-relógio possa vir a detonar. Assim aconteceu nos EUA com a eleição de Trump ou no Brasil com o apoio ao candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Portugal parece até agora mais imunizado às ondas de populismo e extremismo que estão a fazer caminho na Europa. Mas, tal como Paulo Rangel, o investigador/economista Nuno Garoupa prevê que será uma mera questão de tempo até que se instalem. Também ele vê na abstenção o potencial reduto dos que estão descontentes com o sistema. "Não sabemos como esse eleitorado será mobilizado por projetos dessa natureza mais radicais."

"O voto de protesto que poderia ter sido canalizado para movimentos populistas está preso no movimento abstencionista"

A debilidade no combate à corrupção, a prazo, diz Garoupa, pode alimentar ondas destas. "O populismo judiciário vai ser muito importante nos próximos 10 anos e há personagens no país que podem vir a assumir papéis muito relevantes neste campo", diz. Recorda que há um ano no Brasil era impensável o que está a acontecer nas eleições presidenciais. "Agora há 50 milhões de fascistas?" - lança a pergunta sobre o universo dos potenciais votantes em Bolsonaro.

Aqui mesmo ao lado, o partido de extrema-direita VOX, criado em 2013, só agora ganha força em Espanha, animado pelos ventos nacional-autoritários e anti-imigração. "Vamos só atrasados no comboio", insiste o investigador. Nuno Garoupa deixa ainda uma pergunta: "O que aconteceu à direita conservadora que existia antes de 1974?" E dá a resposta: "Regeneraram-se, mas andam por aí..."

"O populismo judiciário vai ser muito importante nos próximos 10 anos e há personagens no país que podem vir a assumir papéis muito relevantes neste campo"

Paulo Rangel, vice-presidente do PPE, corrobora a ideia de que basta aparecer alguma personalidade "com credibilidade" nesse registo populista para que muitos dos abstencionistas se revejam na sua mensagem. Não é o caso do PNR nem do "epifenómeno" André Ventura, o ainda militante do PSD que quer fundar um partido e que faz apelo a ideias como castração-química dos pedófilos, prisão perpétua e fim dos casamentos gay.

Figuras "salvíficas" e a ditadura

Francisco Louçã acredita que só em determinadas condições, como "uma degradação do regime e crise generalizada" é que poderia dar azo ao sucesso em Portugal de uma "figura salvífica", característica dos movimentos populistas e de extrema-direita. "Esse caldo não temos", garante o antigo líder do BE, o que nos salva de figuras como André Ventura. Mas, adverte: "Se a União Europeia continuar a desagregar-se, a extrema-direita continuará a crescer e vai bater-nos à porta."

"Não estamos livres", diz Fernando Rocha Andrade. Mas o deputado socialista, ex-secretário de Estado, vê terreno pouco fértil para os populismos e extremismos pegaram de raiz em Portugal. Os 40 anos ditadura de direita têm servido para travar a progressão destes movimentos. "Tudo o que aparece associado à extrema-direita traz a bagagem do fascismo. É o que acontece aos marxistas nos países bálticos. É difícil a alguém andar com uma T-shirt do Lenine na Lituânia", diz, em tom irónico.

"Se a União Europeia se continuar a desagregar, a extrema-direita continuará a crescer e vai bater-nos à porta"

Portugal também escapa à pressão da imigração "étnica e culturalmente visível", que está atingir países como Espanha, Itália e Alemanha. "Não levamos com esse choque cultural que está a assolar a Europa" e por isso "não há grandes condições" para os populistas terem argumentos ou a extrema-direta implantar-se.

E a extrema-esquerda? Paulo Rangel garante que sim, que há "um populismo de extrema-esquerda, que mora para os lados do PCP e BE, que propalam a ideia de que" é possível fazer tudo para todos", através de um "discurso simplista e maniqueísta do bom e do mau". Representam um "voto de protesto", diz. Fernando Rocha Andrade vai mais longe sobre a extensão do populismo que, diz, vai muito além dos movimentos de extrema-direita. "Os partidos clássicos não estão imunes ao populismo, porque também simplificam as mensagens e fazem apelos emocionais."

Portugal já teve algumas experiências de forças populistas que tiveram sucesso durante algum tempo. Rangel recorda o PRD, que inscreve nesta corrente, que conseguiu 18% dos votos em 1985 e que tinha essencialmente uma agenda ética e contra a corrupção, feita à imagem de "austeridade e probidade" de Ramalho Eanes, antigo Presidente da República. Outro ensaio foi a transformação do CDS em Partido Popular na era de Manuel Monteiro, muito alicerçado no antieuropeísmo. E mais recentemente o fenómeno Marinho Pinto.

Redes sociais são rastilho

É unânime a ideia de que na era digital 4.0 as mensagens dos movimentos populistas conseguem chegar mais rápido e sem mediação ao eleitorado. Bolsonaro volta a ser o exemplo de como é possível chegar ao poder através das redes sociais, manipulação das mensagens e de notícias falsas. "Estes fenómenos estão a borbulhar e as redes sociais permitem criar uma dinâmica de normalizar o que muita gente descontente com o sistema diz", afirma Nuno Garoupa.

Facilidade e rapidez na difusão de informações falsas, mas não uma invenção do século XXI a de gerar as chamadas fake news. Fernando Rocha Andrade também faz apelo à literatura e ao romance Cemitério de Praga, em que Umberto Eco esboça a trama em torno das falsificações que custaram vidas, como Os Protocolos dos Sábios do Sião forjados pela polícia secreta do czar Nicolau II em 1897, que descrevem uma suposta conspiração judia para dominar o mundo, e que Hitler utilizou na sua política de exterminação dos judeus. (Artigo originalmente publicado a 21 de outubro)

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