Quando o Ajax de Cruijff roubou o trono ao Benfica de Eusébio

Mais de 49 anos depois, dois históricos clubes europeus reencontram-se na terça-feira em Amesterdão. No primeiro duelo, em 1969, a Europa assistiu ao fim de uma era e ao início de outra.

Ajax e Benfica reencontram-se nesta terça-feira (20.00 horas) em Amesterdão para a 3.ª jornada da Liga dos Campeões, naquela que é a reedição de um confronto raro mas, ainda assim, carregado de história e simbolismo. Porquê? Porque em 1969 deu-se uma autêntica passagem de testemunho nos quartos-de-final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus.

O Benfica de Eusébio, dominador nos anos de 1960, dava lugar ao Ajax de Johan Cruijff, que fez furor no início da década e 1970. "Essa eliminatória foi a transição para o início de uma grande equipa, que tinha Cruijff e a primeira grande geração de futebolistas holandeses", confirma António Simões, que viveu por dentro esses primeiros jogos entre as duas equipas. "É o Ajax que dá continuidade à supremacia europeia do Benfica", acrescenta o histórico jogador encarnado.

O Benfica chegava a essa eliminatória, disputada em fevereiro e março de 1969, com cinco finais europeias e dois títulos conquistados, depois disso os holandeses somaram quatro finais e três títulos consecutivos. A transição começou no velho Estádio Olímpico de Amesterdão, onde o Benfica de Otto Glória teve de lidar com um relvado coberto de neve que atingiu cerca de 30 centímetros de altura e uma temperatura de sete graus negativos. Naquele tempo, dizia-se que os encarnados perdiam sempre que jogavam na neve, mas a história do jogo foi outra.

Desfeita a dúvida sobre a realização da partida apenas 45 minutos antes do apito inicial, as equipas entraram em campo, depois de cumprimentadas nos balneários pelo príncipe Bernardo. O temível Ajax treinado por Rinus Michels dava os primeiros passos e Cruijff era, aos 22 anos, o seu maestro. Só que num campo onde a bola não rolava com a velocidade que a máquina holandesa gostava, os portugueses acabaram por se adaptar melhor. "Lembro-me que, antes do jogo, andámos aflitos com a neve. Pusemos vaselina nas botas para que a neve não ficasse agarrada e andámos a tentar comprar pítons para poderemos jogar naquele terreno", conta o antigo extremo.

Toni, que até aí nunca tinha visto neve, começou por rematar uma bola à barra, e até ao intervalo os benfiquistas construíram uma vantagem de dois golos através de Jacinto (penálti) e José Torres. O Ajax ainda reduziu pelo sueco Danielsson, culminando uma autêntica avalancha ofensiva que fez com que sobressaísse o guarda-redes José Henrique. O 3-1 final teve a marca de José Augusto, que não conteve tamanha alegria e até atirou um bloco de neve ao ar. "Foi uma noite de grande inspiração do Benfica, frente a um Ajax que entrou a pensar que os portugueses não sabiam jogar na neve", explica Simões, que considera essa eliminatória "um caso de estudo".

As diabruras de Cruijff na Luz

É que, uma semana depois, o Ajax fez aquela que terá sido a primeira demonstração de classe na Europa. A edição do DN do dia seguinte ao jogo lia-se "noite negra para o Benfica". E a verdade é que aos 32 minutos já vencia por 3-0, num autêntico vendaval de futebol ofensivo que silenciou o chamado Inferno da Luz, sob o brilho intenso de Cruijff, autor de dois golos e de várias diabruras que deixaram os defesas benfiquistas de cabeça à roda. José Torres marcou o golo encarnado que evitou a eliminação e obrigou a um jogo de desempate.

"Com o resultado que conseguimos em Amesterdão, todos pensaram que o apuramento estava garantido. Houve algum deslumbramento em alguns companheiros de equipa, um deles até desvalorizou, na véspera ao jantar, o próprio Cruijff, que tinha estado apagado no primeiro jogo", revela, explicando que na noite da Luz a estrela holandesa "zangou-se" e "viram o baile que Cruijff deu". Simões diz mesmo que essa foi "a eliminatória mais estranha" da sua carreira de jogador".

O pesadelo do Benfica teria continuidade em Colombes, nos arredores de Paris, a 5 de março onde se realizou o tira-teimas. "Fomos desconfiados para esse jogo", admite Simões. Após o empate a zero nos 90 minutos, período durante o qual os encarnados até foram ligeiramente superiores, o Ajax impôs a sua maior capacidade física no prolongamento, vindo ao de cima a magia de Cruijff, que abriu o marcador, e a capacidade de finalização de Danielsson, que bisou. O Ajax avançava na Taça dos Campeões e só cairia na final com o AC Milan, mas estavam lançadas as bases de uma equipa que encantou a Europa e que se sagrou campeã do velho continente em 1971, 1972 e 1973.

O reencontro de 1972 deu acesso à final

No caminho para o segundo desses três títulos dos holandeses, deu-se o reencontro com o Benfica nas meias-finais. Além de Cruijff, o Ajax já contava com outras estrelas como Ruud Krol e Neeskens, mas na primeira mão disputada no Olímpico de Amesterdão, Eusébio, Toni, Nené, Jordão, Artur Jorge e companhia mostraram que os campeões europeus tinham de lutar muito para conseguir chegar à tão desejada final que tinha como palco o Estádio de Kuip, em Roterdão. "O Ajax era nessa altura uma equipa muito melhor do que três anos antes. E o Benfica também tinha uma equipa muito melhor, comandada por Jimmy Hagan", assume Simões, que não participou nessas meias-finais por ter partido o braço.

Com Toni e Humberto Coelho a dividirem a marcação a Cruijff, o Benfica de Hagan mostrou que estava bem vivo e o resultado de 1-0 a favor dos holandeses chegou aos 63 minutos, com um golo de cabeça de Swart, na sequência de um livre a castigar um lance caricato em que Artur Correia defendeu autenticamente a bola com as duas mãos para evitar que ela chegasse a um jogador holandês que se escapava pela esquerda. O DN garantia na altura que "ficou a impressão que os portugueses podem retificar o resultado em Lisboa". António Simões considera que a partida de Amesterdão "ficou marcada por um grande conhecimento que existia entre as duas equipas, que jogaram de forma realista e rigorosa", daí se explicando o equilíbrio nos dois jogos.

Duas semanas depois, o sentimento dos adeptos benfiquistas que lotaram o Estádio da Luz era de esperança em regressar a uma final da Taça dos Campeões. O ambiente era de verdadeiro inferno para o Ajax, que suportou tudo com uma defesa de aço e um guarda-redes, Heinz Stuy, que garantiu a vantagem de um golo trazida de Amesterdão. "O dique holandês resistiu à avalancha de jogo do Benfica", titulava o DN.

Ajax pioneiro de um novo estilo

António Simões recorda que o Ajax era uma equipa que "defendia muito bem, com jogadores rápidos e com um novo conceito de jogo implementado por Rinus Michels e ao qual Stefan Kovacs deu continuidade, ajudado por uma geração de grandes jogadores, que lhe permitia começar a construir as suas jogadas desde trás". Na prática, conta o antigo futebolista, "o Ajax foi pioneiro de um estilo, que depois foi seguido por outras equipas". Era um estilo "assente na dinâmica dentro de uma organização onde encaixava todo o talento que a equipa tinha".

No final do jogo da Luz os holandeses fizeram a festa, que se prolongaria depois na final de Roterdão, com um triunfo sobre os italianos do Inter Milão, com dois golos de Cruijff, um jogador que Simões classifica de "fantástico". "Tinha uma explosão no drible em curtos espaços que era rara e não dava para o defesa reagir. Não era um grande atleta, até porque era franzino, mas tinha uma flexibilidade e mobilidade comparável a uma enguia. Era um jogador imprevisível", recorda.

O duelo da era moderna

Na próxima terça-feira, Ajax e Benfica reencontram-se na Arena de Amesterdão para a Liga dos Campeões. Será o primeiro de dois jogos no espaço 14 dias que, segundo António Simões, "vão decidir qual das equipas que irá conseguir o segundo lugar do grupo" e o consequente apuramento para os oitavos-de-final.

"Acredito que serão dois jogos dinâmicos e de grande vivacidade, que irá colocar em confronto a irreverência do Ajax, com uma nova geração de talentos, e a maior experiência do Benfica, que pode vir a ser decisiva", sublinha. A Champions terá um duelo com tradição europeia, numa era em que os milhões afastaram estes dois clubes históricos do domínio que tiveram noutros tempos.

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