Para que o mal triunfe,

a única coisa necessária é que os bons nada façam, disse Burke. É bonito e duro. Mas falso. Se vês o mal chegar e nada fazes para o impedir não podes ser bom.

A notícia é de dia 17: Bolsonaro visitou Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, assinando com ele um "compromisso formal" contra "o aborto, a educação sexual e a legalização das drogas e em defesa da família e da liberdade religiosa". O candidato, que foi fotografado e filmado com o prelado católico, resumiu assim o conteúdo do documento: "É o compromisso que está no coração de todo o brasileiro de bem."

A maioria dos jornalistas não conseguiu assistir ao encontro; ficou no andar de baixo da arquidiocese, à espera. Enquanto esperavam, lê-se nas notícias, "funcionárias da arquidiocese vestidas com camisas amarelas posavam para fotógrafos fazendo sinais de armas de fogo com os dedos das mãos diante de uma imagem de Jesus Cristo." Há imagens.

Pode, claro, olhar-se para isto e perguntar que podia o arcebispo fazer. Dizer que não recebia o homem que está à frente nas sondagens para a segunda volta das presidenciais, a 28 de outubro? Recusar o documento, alegando que não quer compromissos escritos de suposto respeito pela vida e reivindicações de "vir do bem" da mão de um homem que defende que o erro da ditadura foi matar pouco, que passa a vida a incitar à violência contra os oponentes, e que já anunciou que não aceita a existência de um centímetro de reserva indígena e ecológica, condenando assim à extinção os povos índios e o ecossistema da Amazónia?

Seria uma posição difícil de tomar, decerto, a de afrontar o favorito na corrida à presidência, mais a mais num país no qual a igreja católica está em minoria face às evangélicas - que já declararam o apoio ao candidato do viva la muerte. Mas talvez seja de recordar que há dois meses o chefe do arcebispo - o papa Francisco - anunciou que o catecismo da sua igreja passava a considerar a pena de morte inadmissível (até agora admitia-a, apesar de condenar em absoluto o aborto) mesmo para os mais terríveis crimes, porque, diz, a dignidade humana "está acima de tudo". E que em 2015 assinou aquela que ficou conhecida como "a encíclica verde", a Laudato Si (Louvado Sejas). Nesta, defende que a terra não é da humanidade para fazer com ela o que lhe apetece, defendendo "um cuidado particular, pela sua enorme importância para o ecossistema mundial", com lugares como a Amazónia, descrevendo-a como "pulmão do planeta repleto de biodiversidade".

A 11 dias da votação no Brasil, a igreja católica escolheu trocar a proibição do aborto e da educação sexual nas escolas pelo elogio da tortura e da morte à solta. Não é sequer o silêncio que, bem diz Francisco, "mata": é dar a bênção ao mal.

Já neste ano, em visita ao Peru, em janeiro, o papa anunciou a convocação de um sínodo (encontro de bispos) para a Amazónia e, num encontro com representantes dos "povos indígenas", falou da região como "terra santa" que além de "reserva de biodiversidade" é também "uma reserva cultural que deve ser preservada". Manifestando preocupação com as ameaças a estes grupos, disse: "Assusta o silêncio, porque mata."

E no entanto eis que o papa não considerou adequado, até agora, dizer o que quer que seja sobre as intenções declaradas do candidato Bolsonaro, nem o seu representante brasileiro, o arcebispo Tempesta, dar qualquer sinal de reprovação face às mesmas. O silêncio mata, mas pelos vistos às vezes - muitas vezes, na história desta instituição que tanto gosta de se proclamar "milenar" - o silêncio, quando não a mais ativa colaboração com os torcionários, é mais conveniente.

Virão os defensores de Francisco e da igreja católica dizer que se e quando o pior ocorrer o papa "não se calará". Admito que sim, que se os índios que restam na floresta amazónica brasileira forem massacrados e se o sangue correr nas ruas do Brasil, como Bolsonaro preconiza, o papa torcerá as mãos e chorará. Mas, seguindo os seus próprios ensinamentos, deverá antes perguntar-se: "Onde está o teu irmão? Que fizeste para o salvar? Onde estavas quando ele precisou de ti?"

Não sei que eficácia teria, no sentido do voto, uma posição do papa ou dos bispos brasileiros em relação ao que Bolsonaro defende e representa. Mas, a 11 dias da votação, a igreja católica, dirigida pelo primeiro papa sul-americano da história, um papa que na Argentina natal conheceu uma ditadura militar como a que Bolsonaro exalta, escolheu ficar na foto com o torcionário.

Escolheu prestar-lhe tacitamente o seu apoio ao aceitar as suas promessas; escolheu trocar, à vista de todos, a proibição do aborto e da educação sexual nas escolas pelo elogio da tortura e da morte à solta. Não; não se trata sequer do silêncio que, bem diz Francisco, "mata": isto é dar a bênção ao mal. Depois, daqui uns séculos - se alguém restar daqui a uns séculos - hão de pedir perdão.