Premium Os Vivos Querem Dizer-nos Que Está Tudo Doido

Em 1657, mais de três décadas antes de as pessoas de Salem inaugurarem a sua historicamente célebre operação judicial, uma mulher de East Hampton, em Long Island, tornou-se uma das primeiras pessoas acusadas de bruxaria no Novo Mundo. O seu nome era Elizabeth Garlick. Além de se fazer acompanhar por um gato preto (o que nunca foi, nem é, boa ideia), era resmungona, carrancuda, e propensa a exclamar comentários cruéis e sarcásticos sobre os vizinhos. Eram tempos primitivos e a humanidade ainda não tinha desenvolvido todas as ferramentas conceptuais necessárias para lidar com este género de situações (a liberdade de expressão, o politicamente correcto, a indignação digital, o meme, o Twitter, etc.) portanto não admira que, assim que morreram os primeiros bebés ou nasceram os primeiros bezerros com defeito, a comunidade tenha optado pela acção mais razoável, levando a Sra. Garlick a julgamento. Mas, ao contrário das boas pessoas de Salem, os jurados de Long Island chegaram à conclusão de que não eram suficientemente competentes nas ciências demonológicas para avaliar o caso; e a Sra. Garlick foi ilibada por "falta de provas".

É talvez esta mesma cultura de tolerância que explica tanto a longevidade do programa Long Island Medium (em exibição semanal no canal TLC), como o facto de não se chamar Salem Medium. A protagonista é Theresa Caputo. Com o seu vestido preto, as suas botas de esqui incrustadas de jóias, o seu capacete de cabelo platinado, os seus dentes que brilham como holofotes, Theresa é (segundo as suas próprias palavras) "uma humilde mulher de Long Island igual a tantas outras". A única diferença é que Theresa consegue falar com os mortos. E em vez de usar este poder para resolver crimes antigos ou adjudicar heranças litigiosas, usa-o com a humildade de quem apenas pretende oferecer aos recém-enlutados uma curiosa - e curiosamente eficaz - forma de conforto.

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