Lisboa futurista e vintage para viciados nas redes sociais

O autor de banda desenhada Luís Louro antecipa o que será o mundo - e Lisboa - quando as pessoas estiverem apenas interessadas na realidade virtual e não no que acontece à sua volta

A primeira vez em que Luís Louro pensou no álbum de banda desenhada que acabou de publicar foi há 20 anos. Um tempo em que as redes sociais ainda não existiam e, portanto, a história que criou também não o poderia. Chama-se Watchers - na realidade são dois livros já que têm finais diferentes - e está intimamente ligado ao ato de observar as pessoas sem o seu conhecimento, muitas vezes com drones, e exibir as imagens captadas ao mundo. Para Louro, os cidadãos da atual sociedade preferem ver o que se passa à sua volta através de um ecrã do que a olhar, daí que logo à quarta página desenhe um grupo de pessoas agarradas ao telemóvel a ver um indivíduo que se matou apesar de tudo ter acontecido a apenas uma dezena de metros.

Para Louro não há hipótese de fugir ao facto de as "redes sociais terem criado uma realidade superficial em que as pessoas vivem numa dependência do telemóvel e de outros suportes" e os youtubers estarem mais "preocupados em manterem ou aumentarem o número de seguidores e de visualizações a qualquer custo". Por essa razão, à exceção da primeira página, existe um telemóvel na mão de alguém em todas as pranchas, bem como sucessivos painéis onde se acompanha a reação das pessoas aos clips que difundem em direto uma abundância de exemplos de violência social e doméstica: "Ele chega a invadir a privacidade das casas e leva ao extremo o que já acontece com, por exemplo, as câmaras de vigilância espalhadas pelas cidades como antecipava o Big Brother de George Orwell. Aonde é que isto vai parar é a pergunta que faço nos álbuns."

Daniel é o watcher de serviço num cenário familiar aos portugueses, o de uma Lisboa tão futurista como vintage, que o autor retrata: "Reproduzo uma arquitetura de Lisboa extrapolada, com prédios atuais aumentados em andares, com arcadas, carros que voam e árvores a saírem dos andares, bem como a relação com os animais de companhia, que ao crescerem são abandonados." Não são cães e gatos, mas os animais do futuro: camelos e leões em miniatura, hipopótamos e elefantes minúsculos.

Louro não precisa de inventar outra cidade porque, diz, "concilio a Lisboa que conheço com a que imagino. Este era o ambiente que sonhava desenhar há anos". Para isso contou com o seu outro lado profissional, o de fotógrafo: "Andei de novo por Lisboa a fotografar os becos, as escadinhas e os recantos e comparei com fotos antigas. A Baixa está muito mudada e apanhei um choque com o turismo, mas os bairros tradicionais ainda mantêm o seu encanto."

O maior problema para fazer Watchers foi encontrar a história que queria contar: "Este é um projeto antigo e estava na altura de avançar. Tinha-o desenvolvido aos poucos e chegou uma altura em que só faltava a história. Como não encontrava, cheguei a pensar que não iria aparecer, mas um dia surgiu e as ideias até se atrapalhavam umas às outras."

Referências à Onde Está o Wally?

Os seis meses que Luís Louro passou a desenhar não foram pacíficos, porque a história de um Daniel com dupla personalidade necessitava de referências sociais: "A separação entre o Daniel que tem humanidade e aquele que se torna o Sentinel, o que só está preocupado com as visualizações e não quer saber da responsabilidade social, é uma situação que já está a acontecer hoje. Apesar de ainda estarmos numa fase muito inicial da exposição das nossas vidas, o próximo estágio é o de as pessoas poderem ser filmadas na sua casa e já nem estarem seguras, daí a frase-chave que está nos álbuns: "Mantenha as janelas fechadas e as portas trancadas". Pior, vai haver o momento em que as situações verdadeiras não serão suficientemente interessante e irão ser criadas - e provocadas - outras para se estar sempre no topo das visualizações, como diz o Sentinel."

Uma das particularidades de Watchers é também a reprodução da cidade que nos rodeia: "Andava à procura de um local abandonado e fui ao antigo restaurante panorâmico de Monsanto. Onde havia uns graffiti nas paredes e decidi utilizá-los. Quando pus a imagem no Facebook, um amigo disse-me que sabia de alguém que ia gostar. Era o Risko, o autor dos graffiti, que depois me deu uma lista de amigos, como o Gnomo e o Sam, que poderiam contribuir para pôr nas páginas graffiti verdadeiros, o que permitiu a interação não habitual entre duas artes."

Outra das particularidades é a existência de mais de 200 referências icónicas espalhadas pelas pranchas: "Os leitores vão reparar numas mas não em todas e só após várias leituras é que verão pormenores como o de um personagem que está com a camisa do #KeepFightingMichael (apoio ao piloto de Fórmula 1, Schumacher), ou de bandas musicais, filmes, discos, séries e livros." Entre os símbolos e figuras que desfilam bem à vista, ou discretos como se houvesse um desafio à Onde Está o Wally?, surgem Fernando Pessoa logo na capa, Tintim, Simpsons, a saga do cinema Alien, Freddy Krueger ou Noddy. "Quis ir além da BD e dar a conhecer uma parte do meu mundo. O pior foi que ao incluir tudo isto criei uma complicação gigantesca no meu trabalho. Mas gostei dessa explosão."