Estão a roubar-nos o futuro

Quando os avisos foram libertados pelo IPMA sobre a chegada dessa estranha criatura Leslie, um híbrido de ciclone e tempestade tropical, inédito em Portugal, as populações entre Setúbal e Aveiro imitaram o que os nossos navegadores das Descobertas faziam antes de partir para a Índia: suplicavam ao céu para serem poupados às tempestades marítimas. A trajetória dessa inédita fúria atmosférica atingiu o centro do país. Dezenas de milhares de portugueses viram a sua tranquilidade perturbada e o seu património danificado. Alguns ficaram desalojados. Os prejuízos na hora em que escrevo rondam os 80 milhões de euros, mas vão continuar a subir. No ano passado duas catástrofes de sangue e fogo fizeram Portugal ficar no centro das atenções mundiais. Sobretudo, os 50 mortos de 15 de outubro ficarão para sempre associados a um fenómeno de tipo novo, "incêndios de sexta geração", caracterizados por velocidades de propagação que nenhum dispositivo de combate atualmente existente está em condições de vencer. Estamos apenas no princípio. Os leitores mais velhos lembram-se de junho de 1981. Uma onda de calor atingiu o país e foi o alvo de todas as atenções. Agora as ondas de calor tornaram-se triviais. Outros incêndios de sexta geração estão à nossa espera no futuro, outros ciclones seguirão do centro do Atlântico, não para o golfo do México, mas para Portugal. Ao contrário dos marinheiros das Descobertas, nós sabemos quase tudo isto há já muito tempo. Temos à escala global uma rede formidável de observação do planeta. Como um doente nos cuidados intensivos, a Terra está a ser monitorizada em tempo real. Conhecemos o que está a ocorrer na criosfera, na atmosfera, na biosfera. Somos capazes de recolher informação sobre atividade vulcânica ou de perscrutar no mais fundo da coluna de água dos oceanos, em processo de aquecimento e acidificação. Desde pelo menos 1988, aquando da criação do IPCC, que temos relatórios regulares sobre as grandes mudanças globais. Sabemos que o clima favorável dos últimos dez mil anos, que permitiu o florescimento das civilizações humanas, está a ser alterado pelo impacto desastroso da nossa pegada sobre a atmosfera (com a adição brutal de gases de efeito de estufa) e os ecossistemas em geral.

O maior enigma do nosso tempo é o de perceber o que se passa no interior das nossas cabeças. Como é que sabendo tudo o que sabemos, continuamos a tratar os alertas científicos mais credíveis sobre o futuro com a indiferença das personagens do drama clássico ateniense perante as vozes lancinantes de aviso do coro trágico? O assalto de Tancos, as tricas dentro do PSD, a noite americana de Ronaldo em 2009, merecem esclarecimento, mas são totalmente irrelevantes face à realista e brutal perspetiva de estarmos a transformar a Terra em Vénus. O mais belo planeta do universo conhecido, o único que alberga vida em múltiplas formas, está a transformar-se num caldeirão infernal, onde a geografia habitável será drasticamente reduzida. A pergunta fundamental que esta inédita encruzilhada na história universal nos coloca pessoalmente é esta: qual o nosso papel e que podemos fazer no meio deste drama global em marcha acelerada? Temos de escolher entre a responsabilidade da lucidez, ou continuar distraídos no imenso mercado de "divertimento", que nos ajuda a esquecer a dura realidade: o destino do mundo só permanece na mão de canalhas porque a multidão dos distraídos, por atos e omissões, lhes outorga o seu consentimento.

Professor universitário

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.