Violência contra guardas na escola da GNR. Red Man ainda sem castigo

Um dos alunos ficou parcialmente cego, outros nove com ferimentos graves durante um treino no curso na GNR, em 2018. A IGAI já concluiu o inquérito mas não divulga. O Ministério Público ainda está a investigar passados mais de dois anos. O oficial visado é atualmente segundo comandante do Destacamento da GNR em Sintra

Passados 27 meses do caso ter vindo a público, a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) concluiu o inquérito à violência durante um treino de bastão na Escola da GNR, durante o qual um oficial instrutor provocou graves ferimentos e lesões a, pelo menos, 10 jovens guardas, tendo um deles ficado parcialmente cego e ficado fora do curso.

As conclusões deste inquérito foram enviadas ao ministério da Administração Interna há 10 dias mas a IGAI recusa-se a divulgá-las.

"O relatório final da IGAI será previsivelmente apresentado ao Gabinete do Senhor Ministro da Administração Interna esta semana. Como certamente a Senhora Jornalista compreenderá as conclusões serão, em primeira linha, apresentadas ao Senhor Ministro", disse ao DN, a oito de março, o gabinete da inspetora-geral, a juíza desembargadora Anabela Cabral Ferreira.

Já esta quinta-feira, depois da insistência deste jornal para que facultasse as conclusões do inquérito que demorou mais de dois anos a terminar, a magistrada adiantou que "o processo foi remetido ao Gabinete do Senhor Ministro da Administração Interna para decisão".

Oficial promovido

Durante estes mais de dois anos, o alferes João Semedo, que ficou conhecido como Red Man - foi filmado vestido com um fato encarnado estilo Robocop a lutar contra formandos sem qualquer proteção - foi progredindo na carreira.

Primeiro foi comandante do subdestacamento da GNR em Sintra, e recentemente foi promovido a adjunto do comandante do Destacamento do mesmo concelho. Neste posto acumula funções como chefe da investigação criminal e do policiamento comunitário, como o programa Escola Segura e Comércio Seguro.

Questionada pelo DN sobre porque João Semedo tinha sido nomeado para estas funções de responsabilidade quando estava a ser alvo de duas investigações (além do inquérito disciplinar da IGAI, a Procuradoria-Geral da República instaurou um processo-crime, que não está ainda concluído, segundo fonte oficial), o comando-geral da GNR afasta relação com os referidos inquéritos.

"O militar em questão desempenha funções no Destacamento Territorial de Sintra, desde julho de 2018," (antes dos incidentes que foram conhecidos em dezembro desse ano, embora a sua escolha para comandante foi depois do trágico treino), "encontrando-se a Guarda a aguardar a conclusão do processo em curso e consequentes decisões que advenham do mesmo".

Equipamento de proteção reforçado

Inquirida sobre se foi tomada alguma medida preventiva em relação a este oficial, designadamente no contacto com o público, ou se foi alvo de alguma avaliação psicológica de forma a garantir que tem condições para ser polícia, salvaguardando cidadãos e outros militares, o porta-voz desta força de segurança, comandada pelo tenente general Rui Clero, assegura que "a colocação do Oficial em apreço nas funções de Adjunto da Comandante de Destacamento Territorial de Sintra decorre de uma gestão dos recursos disponíveis na Guarda", não se tratando de uma qualquer medida cautelar decorrente do processo ainda em curso".

Indagada ainda a GNR sobre se tinham sido desencadeadas novas regras para impedir que voltassem a acontecer situações como a que sucedeu na Escola de Portalegre, o mesmo porta-voz salienta, entre outros, que foi reforçado o equipamento de proteção dos formandos

Indagada ainda a GNR sobre se tinham sido desencadeadas novas regras para impedir que voltassem a acontecer situações como a que sucedeu na Escola de Portalegre, o mesmo porta-voz salienta, entre outros, que foi reforçado o equipamento de proteção dos formandos.

"Após os incidentes ocorridos no 40.º Curso de Formação de Guardas, o Alferes Semedo continuou a exercer as funções de Comandante de Pelotão, deixando contudo de integrar o curso de bastão extensível, tendo ainda sido implementadas nos cursos seguintes as seguintes medidas preventivas: reforço do equipamento de proteção dos formandos nas provas de avaliação; supervisão e execução das provas de avaliação por oficiais do órgão técnico (Unidade de Intervenção), afiança.

Segundo ainda a GNR, "os militares que sofreram danos físicos tiveram acompanhamento médico adequado e concluíram a formação tendo sido objeto dos respetivos processos administrativos por acidente em serviço".

O caso foi divulgado em dezembro de 2018 pelo JN. As vítimas, guardas provisórios que estavam a fazer o seu curso de formação para a utilização do bastão extensível -uma arma considerada potencialmente letal - alegaram ter sido ter sido espancadas e humilhadas por João Semedo.

Na altura, foi demitido o diretor do Centro de Formação daquela escola, coronel Mário Ramos, mas passado um mês passou a diretor da Direção de Formação, do Comando da Doutrina e Formação da GNR. A GNR era então dirigida pelo tenente-coronel Botelho Miguel, atual diretor nacional do SEF.

Apesar de a GNR não o ter referido nas suas respostas, João Semedo tem a sua promoção a tenente bloqueada ("demorada", como é designado pelos militares) uma medida que é obrigatória sempre que os militares estão visados por processos criminais.

Atualizado às 12h05 com a situação do alferes e com a correção do seu posto: é alferes e não alferes-tenente

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