Para lá desta primavera há um verão

Afirmar que a primavera precede o verão, para título de um artigo de opinião, até parece uma lapalissada, não parece? Mas não é por isso que deixa de ser verdade. Já percebemos que vamos ter uma primavera diferente, devido às circunstâncias que atravessamos e que originam as medidas tomadas, restritivas, de prevenção, controlo e mitigação. Neste momento, é a serenidade responsável que impera e que deve imperar. Mas não só. Não podemos deixar de lado a consciência, esperançosa, da certeza absoluta e simples de que temos um verão no horizonte, já com os afetos e as partilhas a que nos habituámos toda a vida. Agora, é altura de lutar coletivamente para, no verão, estarmos melhor e, já agora, também melhores.

Digo "melhores" porquê? Porque se há coisa a que o covid-19 está globalmente a obrigar-nos é ao confronto connosco mesmos e à reflexão sobre prioridades e necessidades. Hoje, milhões de pessoas estão confinadas às suas casas e muitas estão a trabalhar. Não tenho dúvidas também de que em muitas partes do mundo há menos poluição. Só estas duas constatações evidenciam que a única coisa positiva acerca deste vírus global é que está a materializar realidades que não julgávamos possíveis nos moldes atuais. Entre elas, o e-learning, o e-commerce e até o e-training, o teletrabalho e um estilo de vida mais amigo do ambiente, com menos consumismo. É como se o mundo estivesse a ser obrigado a um exercício de humildade nos seus modos de vida, de trabalho e de produção. Há muito que o cansaço do nosso planeta a nível do meio ambiente nos avisa para a necessidade de redefinirmos a nossa conceção de riqueza. Este vírus confirma-nos que isso é possível e demonstra que o protecionismo e o lucro não são (adaptando uma expressão já conhecida) o último rolo de papel higiénico do supermercado...

A nossa reação tem sido positiva. No geral, a solidariedade e a responsabilidade reinam. O humor abunda e a teia de afetos digital que se construiu chega a ser enternecedora. Há momentos de medo, claro. A obsessão com o papel higiénico - estou certa de que Freud a acharia fascinante - e outros produtos é um exemplo. De louvar os trabalhadores do universo hospitalar, da segurança e da proteção civil.

O medo não pode dar azo a uma musculação de poderes por parte do Estado que deixe danos permanentes nas liberdades e nos direitos. A declaração do estado de emergência por calamidade pública tem de obedecer ao princípio básico da gradação e do equilíbrio entre a liberdade, a segurança e a economia. Os portugueses, pela capacidade que têm mostrado, não merecem um mero atestado de menoridade cívica. Merecem um dispositivo capaz de executar a luta pelas suas famílias, pelos seus valores e pela sua vida, sempre soberana. Cá estaremos, e vigilantes.

Deputada do PS

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