Premium A utopia de Cannes

Por causa do covid-19, o Festival de Cannes foi adiado (talvez para junho/julho). Lembramo-nos, por isso, da edição de 1968, o ano em que o certame começou... mas não acabou.

Em 1968, em França, o ministro da Cultura era André Malraux. Mais exatamente: ministro de Estado encarregado dos Assuntos Culturais. No dia 25 de março desse ano, na qualidade de delegado-geral do Festival de Cannes, Favre Le Bret dirigiu uma carta a Malraux, convidando-o a presidir à abertura do certame, a 10 de maio, numa sessão de homenagem a Vivien Leigh, incluindo a projeção da nova cópia, em 70mm, de E Tudo o Vento Levou (1939), de Victor Fleming; em alternativa, Le Bret sugeria ao ministro que se deslocasse a Cannes para o encerramento oficial, duas semanas mais tarde, dia 24.

Por estes dias, estas são memórias recobertas por uma nostalgia amarga e doce. Porquê? Desde logo, porque aconteceu o impensável: Cannes 1968 não chegou ao fim... Agora, na convulsão global que estamos a viver por causa da pandemia do coronavírus, soubemos (na quinta-feira) que Cannes 2020 está adiado. E convenhamos que, embora reconhecendo o fulgor de tão nobre evento, parece quase impossível concretizar a hipótese formulada pela equipa do festival: "Várias opções estão a ser analisadas no sentido de preservar o acontecimento, das quais a principal seria um simples adiamento para Cannes, em finais de junho, princípio de julho de 2020."

Lição paradoxal: com o encerramento de salas de cinema em todo o mundo, a atual crise, ainda que envolvendo como absoluta prioridade a saúde pública, não pode deixar de nos levar a especular sobre a conjuntura em que o cinema, arte ou indústria (aliás, arte e indústria) passou a existir. Este é, de facto, um tempo marcado pela tensão entre as formas clássicas de difusão dos filmes (as salas escuras, precisamente) e o crescimento exponencial do nosso consumo digital (as plataformas de streaming). Sintomaticamente, as últimas três edições de Cannes ficaram marcadas por um ziguezague de aproximações e ruturas entre a organização e a Netflix. E pressentia-se que 2020 seria (ou será) um novo e importante capítulo na respetiva evolução.

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